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Memphis Hamburgueria – Memphis Fundae de Queijo

13 Mar

Bom, agora que vocês já conhecem a Memphis Hamburgueria (supondo, é claro, que todos leram o post anterior), deixe-me contar sobre a minha tóxica experiência nesse tóxico ambiente.

Le Brésil n’est pas un pays sérieux, dizia Charles de Gaulle do alto de seus bigodes e biquinhos. O jeito como fazemos as coisas aqui passa por uma invenção instintiva, um jeito desesperado de sobressair-se sem precisar estudar e conhecer a história ou dominar a técnica que rege o campo, partindo quando muito da análise ótica, que tende a distorcer a tudo e a todos numa paródia porca que os modernistas inventaram de chamar de antropofagia. É assim que inventamos o funk, o pop rock nacional, o Bolsa Família, o Enem, o Carnaval, o Futvôlei, o plano Bresser, os quadros de Anita Malfati, o Programa do Jô, Ana Maria Braga, a campanha presidencial do Jânio, este blog, enfim, uma série de mutações bizarras do mundo real. O Memphis Fundae de Queijo, por esse prisma, talvez seja, portanto, o hamburguer mais brasileiro que existe.

E digo que é brasileiro não porque tem feijoada, carne seca, mandioca ou qualquer outro engodo nacionalista que insistimos em acreditar. É brasileiro porque é feito no âmago da culinária instintiva, exagerada, exótica e irracional que faz também o caldo da sociedade desse país. Trata-se de um hamburguer de 150 gramas (até aí, normal) e um mix aleatório de queijos, a saber: Mussarela, catupiry, cheddar e gorgonzola. Apenas isso. Apenas?

O que é um fundae? seria uma fusão sórdida de fondue e sundae, ou de fun com sundae, ou ainda uma corruptela de fun day? Adivinhar a essa altura é um exercício fútil de conjecturação etimológica, quando muito provavelmente foi algo inventado na hora por qualquer meia dúzia de chapeiros realizando um brainstorm para batizar seu mais novo monstro de Frankenstein. Contudo, a palavra guarda em si um mistério, significados ocultos por camadas de ignorância que jamais conseguiremos penetrar. De certa maneira, o Fundae guarda também semelhanças entre seu nome e seu conteúdo no que tange sua intangibilidade.

Veja bem, assim como na música e na gramática, há um tempo forte, há uma sílaba tônica, que deve ser seguido sempre de tempos fracos e sílabas átonas. Pense então na gramática do queijo. Há os queijos fracos, átonos, como a mussarela, o frescal, a ricota e o padrão, por exemplo, e há os queijos fortes, tônicos, como o gorgonzola, o brie, o provolone e o cheddar. O Fundae do Memphis tratou de unir em massa uníssona dois queijos fortes e dois queijos fracos por cima de uma carne que — coitada — reserva-se ao papel de palco para essa sangrenta batalha de sabores.

De um lado, há, portanto, o gorgonzola, com seu sabor europeu, mediterrâneo, composto pelo mix certeiro de leveduras e leite de cabra. Digamos que seja o Vincent Cassel dos queijos: forte, agradável, mas há quem releve tudo e só veja um troço esquisito e com ar de velho. Do outro, há o cheddar, em sua versão americana. Processado, industrializado e elaborado por químicos da indústria de alimentos para ter a dose certa de cremosidade e o sabor viciante, de fácil assimilação e perigosamente enjoativo. É, portanto, um ser artificial: o Arnold Schwarzenegger dos queijos, que também saiu da Europa, chegou nos Estados Unidos e se transformou numa massa amorfa de químicos, moldada ao gosto dos donos da casa.

No meio dessas duas potências, o que sobra de função para o catupiry e a mussarela desempenharem? Aqui, os opostos se atraem: o pastoso catupiry une-se ao gorgonzola para dar liga e fluidez e o cheddar se liga à mussarela para ganhar consistência. Obviamente, os dois queijos menores abdicam de sua intenção de ter sabor para serem fagocitados pelo egocentrismo dos outros dois. Ou seja, confusão nas papilas, desperdício de queijo e, posteriormente uma hecatombe intestinal.

A carne, feita com esmero, passa imperceptível, ou quase. Retirando-se uma amostra para degustação, é possível comprovar que ela é bem saborosa na verdade,  mantendo uma quantidade aceitável de sucos vitais, preservando um centro levemente avermelhado e sem o tradicional gosto de fumaça e carvão que geralmente acompanha um bom hamburguer nessas características. As batatinhas, fiéis escudeiras do lanche, uma espécie de Sancho Pança em formato de tubérculo, guardam outro ponto alto da lanchonete. douradas, crocantes na medida certa e consistentes, sem ficarem areadas pelo excesso de óleo. Provavelmente é uma batata congelada de muito boa qualidade.

Milagrosamente, comi esse Fugu em forma de hamburguer e não passei mal nem fiquei com o estômago pesado, o que eu não sei, a essa altura do campeonato, se é uma coisa boa ou ruim. Porque com essa quantidade de queijo absurda, pode ser muito bem um indicativo de que o fator sustância abandonou o Memphis Fundae de Queijo (ou será eu ganhando resistência para trabalhos sórdidos como esse? É bom lembrar que, ainda que meu bom-senso me dissesse que eu deveria dispensar pelo menos um desses queijos para manter minha saúde, aceitei o pacote completo como regem as leis do jornalismo verdade. E estou vivo para contar sobre movimentos que meu estômago não se orgulha de ter feito. Então respeitem a obstinação do Good Burger e seus heróis.

Ficha técnica:

Memphis Fundae de Queijo

Ingredientes: “Hambúrguer especial de 150g, queijo cheddar, catupiry, mussarela e gorgonzola em um pão com gergelim”, trecho extraído do cardápio, que contém duas meias-verdades. A primeira é que um hambúrguer que está em todos os sanduíches não é tão especial assim, e a segunda é que o cheddar não é propriamente um queijo, mas uma pasta processada. Ora, você acha que patê de presunto é presunto?

Preço: R$10,80 + R$5,00 para fazer um combo com 150g de fritas e um suco de polpa ou um refrigerante em lata. Curioso como o preço para enganar troxa agora gira perto dos 80 centavos, ao invés do 90 ou do completamente sem classe 99. 80 centavos is the new 90 centavos.

Ponto alto: Preço bom, sanduíche grande, batatas gostosas e carne, até onde pude comprovar, boa também.

Ponto baixo: Preciso dizer? A letal combinação de queijos que tira o sabor de qualquer outra coisa que chega perto do sanduíche.

Avaliação: D-

A Memphis Hamburgueria fica na Rua Brigadeiro Franco, 1751, no centro, entre as ruas Comendador Araújo e Vicente Machado.

 
2 Comentários

Publicado por em 03/13/2012 em Uncategorized

 

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