RSS

Rock’a Burger – BBQ Burger

25 Mar

A pergunta é óbvia, mas a resposta não é: já parou para pensar porque as pessoas saem de casa e procuram um estabelecimento que se auto promove sob a categoria “comida caseira”? Por mais paradoxal que isso possa soar, faz completo sentido nesse mundo maluco pós-moderno em que a grande indústria faz questão de padronizar tudo para paladares que, do Oyapock ao Arroio Chuí, têm seus caprichos, predileções e individualidade, se acostumem com a mesma massa amorfa de comida acinzentada, eximida de cromatismo e textura, de carinho e de amor, de toque humano e ternura. E — agora vem o paradoxo de verdade — a busca por “comida caseira” padronizou o próprio conceito de comida caseira, embora eu possa garantir que sua mamãe não faz o t-bone que meu pai faz. E a comida caseira não é, a rigor, requintada, o que faz com que a busca pela comida caseira seja também a busca pela ternura, pela comida fresca feita não do jeito acadêmico, da haute-cuisine, mas a comida que é reinventada no dia a dia, às vezes com falhas, às vezes com desleixo, mas sempre com autenticidade.

Da mesma forma, trazendo a questão para o nosso micro universo, porque saímos de casa para procurar um bom hambúrguer artesanal, quando brotam McDonalds por aí e uma caixa com doze discos de carne custa míseros quatro reais? Bom, poucas comidas carecem mais de ternura e excelência caseira do que o hambúrguer, e o hambúrguer do Rock’a Burger é um desses que te fazem lembrar porque, afinal, deixar o conforto do lar.

O estabelecimento é relativamente novo, abriu ao lado do Blues Velvet, a poucos metros do Brooklyn Coffee Shop, do Dom Corleone e do Madero do Largo da Ordem, então o sujeito tem que ter cacife pra entrar nessa briga de cachorro grande. Pequeno, sim: oito mesas e um balcão para ficar de pé na calçada tomando chope e dividindo seus cigarros e bebidas com crackheads habituées do quarteirão. Na parede e no cardápio, pin-ups gordinhas e filmes thrash de outras décadas, como O Dia em Que a Terra Parou e O Ataque da Mulher de Quinze Metros, além de um filminho preto-e-branco rolando na TV: na ocasião, o clássico do Mankiewicz, A Malvada. Como o espaço e a decoração, o cardápio também é diminuto no quesito hambúrgueres. Meia dúzia de opções e lamba os beiços, e ainda a opção de pedir qualquer um sem pão. Eu sei, também não entendi, mas tem até gente que curte finalizar fliperama de dança, por que não haveria gente disposta a comer hamburguer sem pão?

Enfim, vamos ao petardo de hoje. Tadá, eis o BBQ Burger.

Amigo, dá uma olhada nessa carne! Dá uma olhada nessa língua de bacon, dá uma olhada nesse pão que parece a cabeça de um goomba do Mario Bros. Isso é genuíno.

Bom, antes de mais nada, preciso ser honesto e dizer que quando essa foto foi tirada eu já tinha comido metade das batatinhas, a porção é um pouco mais servida do que isso, mas não muito.

BBQ, para quem não é versado na língua saxônica, é a abreviação de aeroporto (daquelas que não é bem uma abreviação, mas uma sigla aleatória e mnemônica) de Barbecue, que é o que o equivalente americano de churrasco. Por churrasco, eles querem dizer hambúrguer e salsicha na grelha. Triste ver que na maior potência do mundo o ritual culinário carnívoro que aqui demonstra poder e ascensão social  não é mais que uma esquete do patético modo de vida americano, em que você gasta todo seu dinheiro com carro e come carne de segunda aos fins de semana. E, vejam só vocês, na busca por esse gosto nostálgico do “churrasco” de fim de semana, a indústria alimentícia ianque padronizou uma invenção muito provavelmente mourisca batizada de molho barbecue, que basicamente é ketchup com gosto de fumaça. E é não só em referência à carne de churrasco americana mas também ao dito molho que o chef do Rock’a Burger batizou sua obra. O sanduíche é composto de hamburguer, mussarella, bacon, cebola grelhada e molho barbecue.

Comer um BBQ Burger é como apreciar o quadro Noite Estrelada Sobre o Ródano, do Van Gogh: é uma obra que, a princípio, causa assombro pela densidade, mas aí se percebe que naqueles traços bruscos e retos há fluidez, ritmo, sensibilidade e o que era denso e aparentemente impenetrável se torna parte de você e lhe permite viajar por dentro da obra enquanto a obra viaja por dentro de si. Para ninguém ver que eu estou mentindo, aqui está:

Noite estrelada sobre o ródano

O hambúrguer se ganha, antes de mais nada, no pão. Um pão bem macio e fresco pode dar um up no sanduíche, ao passo que um pão seco e esfarelento pode ruir até mesmo uma carne boa. E esse pão é macio e fresco, então começamos bem.

Essa montanha de carne que você pensa que só subtrairá alguns preciosos milímetros do ducto coronário se mostra um maná, repleto de água, sucos vitais de algum bovino que não morreu em vão e carinho de um cozinheiro paciente que não fica espremendo o bolo contra a grelha. A carne usada tem um teor de gordura que eu chutaria girar em torno de uns 15%, o que é uma porcentagem ótima pra fazer hambúrguer: nem muito magro, nem só gordura. A gordura é essencial para reter o líquido e o sabor depois que perde tamanho e água no fogo quente.

A cebola grelhada ao molho barbecue é outra sacada da composição. Já está provado que o brasileiro tem predileção por cebola picada e grelhada em molho agridoce, como a cebola ao shoyu do Cheddar McMelt — uma invenção brasileira, se vocês não sabem. Fica ao fundo, sustentando o sabor da carne, prolongando-o nas pontas, no começo e no final, e colocando mais textura e luz, como o Ródano no Van Gogh.

Agora, o bacon é uma grata surpresa. Confesso que não fiquei muito animado com o aspecto mal passado dele, mas estava no ponto: nem borrachudo nem esturricado. crocante apenas por fora. Foi o bastante para me tontear na rua a caminho de casa. Não coma se tem problemas cardíacos.

Duas pequenas críticas se fazem necessárias, e são visíveis: a primeira, obviamente é o queijo, uma camada fina e transparente que mais parece um pedaço de plástico derretido. Generosidade não parece ser uma virtude ausente no Rock’a Burger a julgar por todo o resto, então há de se investigar o porquê de tão pouco queijo? Será para não deixar over, enjoativo? Vai saber. A outra são as batatinhas muchibas, do tipo restaurante self-service, que se quebram e se auto-detonam ao toque mais brusco. Não que sejam horríveis nem nada, mas sempre fico esperando uma batatinha como a do Mustang Sally. De qualquer jeito, um problema menor, já que estamos ali pelo hambúrguer, e saí do Rock’a Burger mais disposto a dar chance para os novatos e mais satisfeito por ter saído de casa em busca de um bom hambúrguer. Ponto pra casa.

Ficha técnica:

BBQ Burger

Ingredientes: Hambúrguer de picanha (150g), queijo mussarella, bacon crocante, cebola grelhada e molho barbecue. Com batatas fritas

Preço: R$13. Uma pechincha, na minha opinião.

Ponto alto: Preço bom, sanduíche grande, bacon na medida certa e pão macio.

Ponto baixo: Batatas murchas e pouco queijo.

Avaliação: A (apesar dos pontos baixos, ainda é um excelente sanduíche).

O Rock’a Burger fica na Rua Trajano Reis, 310, no São Francisco, e funciona de terça e quarta, das 18h à meia-noite, quinta à sábado, das 18h à 1h30, e domingo das 17h às 23h. (41) 3095-5854.

 
7 Comentários

Publicado por em 03/25/2012 em Uncategorized

 

Etiquetas: , , , , , , , , , , , , ,

7 responses to “Rock’a Burger – BBQ Burger

  1. FRANY

    03/29/2012 at 23:47

    pin up gordinha foi foda hein

     
    • Yuri Raposão

      03/30/2012 at 09:25

       
  2. Gabriel

    09/14/2012 at 00:24

    Sei lá, cara…
    Fui lá hoje conferir o BBQ.
    Menos carne e muito menos bacon que o da sua foto. Talvez isso tenha contribuído para eu não achar o hambúrguer tão sensacional.
    Tá, o hambúrguer é ótimo… mas acho que eu fui iludido por esse post (hehehe), fui achando que iria encontrar o melhor hambúrguer da cidade…

    No mais, peguei novamente as onion rings… muito boas mesmo!
    Ponto alto da casa é disponibilizar uma bisnaga de barbecue… me acabei naquilo!

    Optamos, eu e a minha namorada, em provar o milkshake do local… péssima experiência! Parecia achocolatado de marca de mercado gelado, só que fraco. Não é bom.

    Gostei do local, fica na frente de muita hamburgueria de Curitiba, mas não é tudo aquilo.

    Pergunta: Se você tivesse que apresentar um único hambúrguer da cidade para alguém, qual seria?

     
    • Nego Dito

      09/15/2012 at 19:47

      Oi Gabriel, obrigado pelo comentário!
      Eu e o Murilo, particularmente, adoramos o Rocka, e se eu tivesse que apresentar um hamburguer pra alguem de fora, seria o Madero pela tradicionalidade do lugar, mas pelo preço, o Rocka compensa e eu apresentaria por toda a qualidade do sanduiche. É pura poesia em forma de hamburguer. Sinto se, por causa da nossa empolgada descoberta, acabamos dourando a pílula. Mas que vale a pena, vale.🙂
      Um abraço.

       
  3. Gabriel

    09/14/2012 at 00:27

    Eu novamente.
    Lembrei de um detalhe… o hamburguer é muito barato!
    O que paguei no jantar meu e da minha namorada (R$38 tudo) é o que eu costumo gastar sozinho no Madero.

    Então, levando isso em conta, tenho que concordar que a hamburgueria tem o seu valor!

    Agora sim, parabéns!

     
  4. Lana Zonato

    06/13/2013 at 15:48

    Não somente o BBQ é nota A…amo todos os hamburguer do Rocka. Superr vale a pena!

     
    • Nego Dito

      08/09/2013 at 10:22

      Gosto muito deles também, Lana! volte sempre.

       

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: