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Hamburgueria do Vicente – Pesto Mio

20 Abr

A Hamburgueria do Vicente foi uma missão especial para nós. Pela primeira vez, deixamos nossa caminhada peripatética até alguma hamburgueria dentro de nossas cercanias e nos aventuramos automobilisticamente Vicente Machado acima para encontrar o que muitos apontam como uma das melhores casas da cidade especializadas em carne moída no pão do jeito estilizado e compactado que só quem tem ginga na meia-cancha sabe. Pegar o carro para ir até o bairro vizinho e comer um hambúrguer é marca de profissionalismo na minha humilde porém infalível opinião.

A Hamburgueria do Vicente, além de ser mocada numa casinha que em pouca coisa se parece com um estabelecimento comercial – quando muito o cartaz no muro ao lado (vide foto abaixo), tem um estilo dúbio de decoração: um flerte entre o popular e o refinado. De um lado, grades na janela e uma logo que mais parece logo de trailer de hamburgão nervoso com slogans escritos na mesma fonte do Burger King (como se os símbolos das duas lojas já não guardassem terríveis semelhanças): do outro, cardápios chiques, mesas e sofás feitos sob medida e um preço que obviamente não foi feito para quem chegou ali de ônibus. Algo que provavelmente passa por uma evolução do conceito de “rústico chic”, que fez a cabeça da galeria ligada em gentrificação e remodelações urbanísticas a partir de construções degradadas. Obviamente, o próximo passo lógico dessa reciclagem imobiliária era repaginar as casinhas que você ganhava no peão da casa própria, então cá estamos!

O cardápio do recinto, como já foi falado, é variado, o que, em parte me levou a escolher o lanche que escolhi. Ora, não vim de tão longe para comer o feijão-com-arroz em forma de hambúrguer, vim ver o que há de transgressor na cozinha do Vicente. E, amigo, o Pesto Mio é pra lá de transgressor. Afinal, não é todo dia que a gente vê um hambúrguer com molho pesto, tomate e coberto com uma generosa camada de queijo provolone semi-derretido. Veja com seus próprios olhos:

Convenhamos que a apresentação do prato é bonita, com o tradicional matinho e tomatinho decorativo e uma cobrinha de vinagre balsâmico mas, vem cá: que batatinha afetada é essa que me deram? Vejam, a forma como certas comidas se apresentam fazem toda a diferença. Comer um x-picanha com picanha picada dentro de um pão certamente é diferente de comer um pão com um pedaço inteiro de picanha dentro (a experiência exige caninos treinados em anos de evolução predatória), assim como comer macarrão com pão italiano é diferente de comer macarrão com torradas. Essa batatinha chips que acompanha o lanche é a típica invenção fora de hora, que urge do âmago do inventivo chef que não suporta ficar duas semanas sem inventar moda. Ou, vai saber, alguma memória deturpada da infância – do mesmo tipo que faz o cara comer algo que objetivamente não é gostoso só porque tem “gosto de infância”, tipo, sei lá, acerola. Mas definitivamente não é algo que combine com um lanche suculento e gorduroso como um hambúrguer. Guarde suas chips para suas saladinhas insossas, amigão.

O pão esconde embaixo de si suas surpresas, e a carne também. Falemos delas, mas primeiro, dê uma olhada nessa foto:

Hamburgueria do Vicente

Primeiro, observe a maciez que os corpos cavernosos nesse pão sugerem à superfície. Esse tipo de coisa não se consegue com um pão que não é fresco. Esse pão foi assado provavelmente há pouquíssimas horas antes de vir parar nas minhas entranhas, e boa parte do big picture do hambúrguer se ganha no pão – porque veja, comprar um pão no supermercado, cortá-lo e colocar um hambúrguer dentro, isso qualquer um faz. Mas o cara que quer dominar a arte da hamburgueria tem que passar umas horas amassando o pão que faz a raça. E como vocês sabem, todo BOM restaurante italiano hoje em dia tem a sua padaria – senão dentro do restaurante, alguma conveniada onde pode pegar mercadorias fresquinhas. Mas esse pão não é de todo uma perfeição. Para quem dispensar os talheres e se aventurar a comê-lo com a mão – me perdoem, mas o propósito de John Montagu ter inventado o sanduíche foi justamente poder comê-lo com as mãos – vai encontrar um farináceo em seu porão. Como não pedi nenhum ciabata ou coisa que o valha, o farelo (provavelmente a base de milho, a julgar pelo seu tom amarelado), é um indicativo de forma excessivamente untada, e a culinária, na minha opinião, não se faz encobrindo os erros nivelando tudo por cima: há de se saber encontrar o ponto ideal a que apenas a prática repetida pode alcançar.

O queijo é uma deliciosa surpresa. Eu mesmo que nunca fui muito fã de provolone, espantei-me de ver o quão bem ele se encaixa com a tessitura umidamente árida do molho pesto. Normalmente acompanhado de queijos secos, como o pecorino ou o parmesão, o pesto é o cátodo que pede um anodo em forma de consistência e ligadura que geralmente é correspondido pelas massas. Mas o provolone, capaz de soltar seus óleos quando quente sem contudo perder sua propriedade sólida, funciona como um sistema de irrigação que aflora o sabor do condimento lígure, dando a ele uma propriedade quase etérea, como se a função do pesto fosse, com o perdão do trocadilho, pestear não a comida, mas nosso olfato a se perceber mais impregnado pela mistura de manjericão, azeite, alho e outros segredos. Diria que, entre o vasto universo dos queijos que se poderiam ter usado para compor o Pesto Mio, o provolone foi o mais acertado.

Mas afinal, e a carne? Bom, a carne, como vocês podem ver na foto acima mais uma vez, a carne tem um teor considerável de gordura (em torno de 15%, se eu tivesse que chutar) mas, mesmo assim, os sucos vitais se vão, deixando apenas o sabor numa carne surpreendentemente mais seca do que deveria ser. Veja, com 15% de gordura na carne, eu não espero nada menos do que uma bexiga de carne liquefeita exalando aromas inebriantes e escorrendo sangue e água corpórea. Se o sujeito deixa a carne passar do ponto – não necessariamente deixar bem passada, mas apenas passar do ponto que manteria essas condições ideais do hambúrguer – o valor da carne com gordura se perde em reações exotérmicas de cozinha barata e todo mundo sai perdendo: o chef perde em dinheiro e em reputação, eu perco em sabor e expectativa. Mesmo assim, a carne não é ruim e não é passada demais, mas é boa e levemente irrigada com o óleo do provolone.

Ah sim, o prato vem também com um potinho de maionese todo enfeitado. Como se fosse a coisa mais chique do mundo comer maionese. Na verdade, a maionese em questão é bem desagradável, com um sabor acentuado de cebola e limão, só fazendo sucesso mesmo com quem é do time da tampinha verde. Para as pessoas normais do juízo, é só uma maionese ruim.

Ficha técnica:

Pesto Mio

Ingredientes: Pão especial (especial mesmo), hambúrguer do Vicente (shame on you, seu Vicente), molho pesto, tomate, e muito queijo provolone derretido.

Preço: R$19,80 + R$ 3,20 refrigerante lata. Geralmente reclamaria desse tipo de preço, mas o Murilo está me ensinando a não reclamar do preço alto da carne porque, enfim, a carne já cobra seu preço alto na vida de outros animais. Uma compensação kármica/capitalista, se preferir.

Ponto alto: Pão excelente, combinação perfeita entre provolone e molho pesto e uma decoração apresentável. A carne também é saborosa.

Ponto baixo: Carne seca, batatinha chips afetadas e um preço salgado (tá, ainda tô reclamando do preço)

 Avaliação: B-

A Hamburgueria do Vicente fica na Av. Vicente Machado, 1.927 – Batel. Funciona de terça a sexta das 11h30 às 15h e das 17:30 às 23h30. Sábados e feriados das 12h às 23h30 e domingos das 13h às 22h.  (41) 3024-4171.

 
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Publicado por em 04/20/2012 em Uncategorized

 

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