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Dom Corleone – Trainspotting

26 Abr

Mas o que tem a ver o Poderoso Chefão com a belíssima obra de Irvine Welsh adaptada para o cinema por Danny Boyle, vocês me perguntariam, alheios ao fato de que isto não é um blog sobre cinema e à existência do simpático Bar Dom Corleone que outrora ocupou um lúgubre e escuro ponto da Constatino Marochi, no Juvevê e hoje situa-se no tão hypado São Francisco, na rua Paula Gomes, pertinho d’O Torto, estabelecido enfim como mais uma hamburgueria a disputar o cinturão do quarteirão mais palatável aos apreciadores da invenção alemã aperfeiçoada no continente americano.

Pelo que me consta, o estabelecimento que hoje é frequentado pela galera rockabilly, punk e skinhead antes era uma locadora de vídeos (sim, vídeos, meu filho, era como o papai e a mamãe assistiam filmes em casa antes de você nascer). Por isso, o lugar é decorado com alguns pôsteres muito bonitos, como o do já citado filme Trainspotting, Johnny e June e outros referentes ao universo iconoclasta e badass que o ambiente sugere. Por essa razão também o cardápio, ilustrado com frames de filmes do cineasta Pedro Almodóvar (com certeza menos badass, mas ainda assim mutcho loko e digno de todo o nosso respeito), leva em seus pratos nomes de filmes famosos. Entre eles o já duplamente citado Trainspotting, minha escolha do dia, que não era um dia qualquer. Acontece que na terça-feira acontece algo mágico no Dom Corleone: o Double de hambúrguer, algo que é ainda mais sensacional e desafiador do que meramente pagar 50% do preço dos pratos. É exatamente o que o nome sugere: você paga um e recebe outro hambúrguer instantaneamente. A parte ruim é que as batatas fritas que normalmente acompanham todos os lanches ficam de fora da promoção, insinuando um condescendente “aí você quebra a firma do parceiro!”. Mas não tem problema, sempre é possível pedir batatas fritas se o estômago se julgar forte o bastante para aguentar um lanche dobrado (o que não foi o nosso caso). Queríamos experimentar esse esboço de orgia gastronômica em plena terça-feira à noite, então lá fomos e eis o meu pedido:

Dom Corleone

O Trainspotting é um dos hambúrgueres mais básicos do cardápio. É o popular cheeseburger com cebola e molho (falaremos dele depois). Primeiramente – e eu sei que esse é um exercício de abstração que não é dos mais fáceis, mas peço o esforço da tentativa – imagine o abalo psicológico do cidadão ao receber dois pratinhos com dois colossais hambúrgueres cuja consumação está completamente sob sua responsabilidade. Eu, pelo menos, senti-me um Sísifo por antecipação, consciente da minha incapacidade de vencer o trabalho hercúleo e pírrico (para fazer mais duas citações à história antiga), mas respirei fundo, afrouxei o cinto e dei a primeira mordida.

Bom, eis que agora me deparo com uma situação no mínimo curiosa. Como vocês sabem, existiram dois hambúrgueres, mas não eram clones. Um deles estava bom, o outro estava ruim – corroborando a suspeita frenopática que atesta invariavelmente a existência de um gêmeo mau. Quer dizer, não estava ruim per se, estava ruim por comparação direta. Digamos que temos aqui um hambúrguer ideal, weberiano, e um hambúrguer do reino dos homens, com suas falhas de caráter, um hambúrguer que cede e perece ante a inexorabilidade do tempo, um hambúrguer shakespeariano, se preferir. Bom, um modelo é uma mentira que nos ajuda a ver a verdade, já dizia o famoso patologista e prêmio Nobel de medicina australiano Howard Florey, de modo que falemos do hambúrguer “bom” para entendermos o “ruim”.

Algo inerente aos dois sanduíches, porém, é o pão, topo de tudo, inclusive da nossa análise. O pão do Dom Corleone não é (ou não parece, mas não parece de jeito nenhum) um pão caseiro. É um pão comprado, e como todo pão comprado para estabelecimentos comerciais, passa por todos os percalços da gerência de alimentos que qualquer estudante do segundo ano de Turismo conhece. De modo que a estocagem e a rápida vazão são as mais importantes da lista, e o pão em questão tinha um gosto que remetia ao daquele que permanece alguns dias no limbo da dispensa antes de ser sacado pela boa mão do chef. Massudo como é, e não-caseiro como é, o pão não é um ponto alto do Trainspotting, mas mesmo assim tive uma experiência agradável de nostalgia, porque o sabor daquele pão, em combinação com o molho secreto à base de maionese remeteu-me à minha infância de hambúrgueres caseiros, quando o que se vendia no mercado era um tanto melhor do que há hoje, e minhas tias de Lorena preparavam-me pantagruélicos banquetes de hambúrguer regados a muita maionese e caprichados nos pães massudos comprados no armazém da esquina.

A principal razão dessa associação foi o molho do Trainspotting. Por mais que não se saiba ao certo os ingredientes (embora seja possível distinguir um pouco de gosto de mostarda e maionese), o importante é o estado de abundância em que o encontramos. Penso assim: o molho e a salada de um sanduíche são como o baixo e a bateria de uma banda – parte instrumental comumente chamada de cozinha. Estão lá principalmente para compor o pano de fundo musical protagonizado pela guitarra e vocal, instrumentos mais apreciados pelos ouvidos. Quando num sanduíche, como o Trainspotting, o chef resolve carregar no molho, está querendo mandar uma mensagem. Quer parar de fazer punk rock e começar a fazer funk metal. Dessa forma, o baixo, tão coadjuvante quanto um DeeDee Ramone, vem para a frente e se torna ativo como um Flea, um Les Claypool, um Stanley Clarke, um Charles Mingus, o que seja, quer jogar no ataque também. E é a isso que o molho secreto do Dom Corleone serve. Na ausência do tão onipresente alface, faz uma tabelinha na grande área com a carne e o queijo para botar nossas papilas gustativas para trabalhar. E a tática dá certo: o molho confere ao bolo em processo de mastigação, a sensação coloidal que só um legítimo coloide poderia validar. É essa a sensação que buscamos no hambúrguer, e é por isso que comemos hambúrguer e não granola. Quero uma comida budista, que quer se tornar um só com o todo. Yeah!

E o queijo? Bom, a qualidade do queijo pode ser atestada na própria foto. Enquanto um queijo está bem derretido, fresco e entrando em comunhão com o molho, o outro está frio, mal derretido, semi-transparente e pálido como um pedaço de placa dentária posta sobre a carne. No hambúrguer ideal, o queijo está excelente, harmônico e solidário com os outros ingredientes. No hambúrguer shakespeariano, o queijo é egoísta, um queijo yuppie, pós-moderno, preocupado apenas em cuidar de si mesmo mal percebendo que nem isso faz direito. Não precisamos de queijos negativistas por essas bandas.

Eis que chegamos então ao protagonista da história que, no final das contas, é o que menos serve como base de comparação. Acontece que todo mundo que se presta a montar uma hamburgueria sabe (ou suspeita ou está piamente convencido) de que sabe fritar um hambúrguer, e que o resto, ante sua destreza divina, são detalhes que se aprimoram ao longo do tempo. Por isso, a carne é quase sempre o indiscutível num hambúrguer cá comentado. A carne do Dom Corleone é excelente, maaaaaaaaaas, como eu disse, há um gêmeo mau entre nós. No hambúrguer shakespeariano, a carne não estava rosada, não segurava seus sucos vitais e logo esfriou (e olha que foi o primeiro que comi). Diante dessa última característica do raio-x de nossa espécime malévola, começo a formular uma suspeita: um dos hambúrgueres foi inteiramente montado com ingredientes do dia anterior. Como fomos as primeiras pessoas a chegar no lugar e pedir os primeiros pratos da noite, um deles acabou sendo feito com carne congelada e queijo já cortado. Eu acho. Só isso explica, porque o outro hambúrguer deixaria Weber orgulhoso de ver seu Gedankenbild materializar-se ante seus olhos. A carne ideal é macia, suculenta, mantém-se quente por mais tempo (algo muito importante agora que o inverno está chegando. Brrr, brace yourselves), segura líquidos vitais (vitais para o animal que já morreu, mortais para nós que estamos vivos) e mantém um leve tom roseado em seu interior, digno dos campeões da terrible cuisine. E o melhor: tudo isso por apenas míseros nove reais!

Ah sim, não resistimos à brincadeira de tirar uma foto de todos os nossos quatro hambúrgueres quando estes chegaram. Dê uma olhada e divirta-se como nós nos divertimos com essa missão.

Ficha técnica:

Trainspotting

Ingredientes: Pão, hambúrguer (a garçonete jura que é de 190g, mas eu acho que é uma mãozada instintiva que gira em torno dos 150, 170g), molho especial, cebola e mussarela.

Preço: R$9 + R$3 do refrigerante lata. Sério, é uma pechincha e se você discorda, você tá errado.

Ponto alto: Molho que joga no ataque, carne saborosíssima, queijo em consonância com o universo. Tudo isso no hambúrguer bom. Sem falar na promoção irresistível. Vale a visita.

Ponto baixo: Diante da presença de um gêmeo do mau, diria que o ponto baixo é um só: irregularidade. E o pão poderia ser mais gostoso.

 Avaliação: B-

O Dom Corleone fica na Rua Paula Gomes, 296, no São Francisco. Funciona de terça a sábado das 19h até sei lá que paneladas da madrugada.  (41)3353-6626.

 
4 Comentários

Publicado por em 04/26/2012 em Uncategorized

 

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4 responses to “Dom Corleone – Trainspotting

  1. Julia Guedes

    04/26/2012 at 19:15

    eu já fui no dom corleone duas vezes na terça pra aproveitar o double (gordo pobre é foda) e também percebi que rola uma irregularidade. nas duas vezes pedi o mesmo hambúrguer (não lembro o filme, mas é o cheddar + bacon – é o da direita na última foto? posso aguardar uma resenha dele?) e em uma vez tava bem marromeno e na outra tava MUITO bom. acho que o dom corleone tem bagos pra se firmar como uma das hamburguerias realmente boas da cidade, mas tem que ver isso aí!

    ah! fenomenal o texto. a parte do baixo faz muito sentido.

     
    • Yuri Raposão

      04/27/2012 at 13:04

      Oi Julia! Legal que você passou aqui, sempre bom ser lido por quem entende da parada também! Sim, o hamburguer do Murilo é o de cheddar e bacon (tenho quase certeza) e acho que, uma vez resolvido esse problema de irregularidade do Dom Corleone, poucos fortes ficarão de pé.
      Beijo!

       
  2. Fatima

    09/27/2012 at 21:19

    Já fui algumas terças ao Dom Corleone e felizmente nunca me ocorreu esta triste situação! God Fellas com 2 hambúrguers!! Fica a dica!

     
    • Nego Dito

      10/04/2012 at 10:10

      Obrigado pela visita, Fátima. Realmente, voltei outras vezes no Dom Corleone e o hamburguer estava muito bom, mas não era dia de Double. Talvez tenha sido isso. Um abraço!

       

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