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Barba Hamburgueria – Captain Hook

17 Maio

Há um certo anacronismo no modo como encaramos a evolução técnica do mundo civilizado. Desconsideramos, por exemplo, que a latinha de refrigerante teve várias configurações e várias formas de ser aberta até chegar ao modelo atual, ou que o Minitel foi uma tentativa francesa de fazer a internet antes da internet (ainda que no final tenha virado essencialmente um hotline para telesexo), ou ainda que uma porção de gororoba deve ter entrado entre duas fatias de pão antes do todo-poderoso-hamburguer ser consolidado como o soberano sanduíche sobre as terras do cachorro-quente. E essa progressão é, na maioria das vezes, extremamente lenta, e feita com minúsculas revoluções que se sobrepõem como o acúmulo de design cego que possibilitou a evolução conforme explicada por Darwin. Pois o Barba Hamburgueria trouxe uma dessas revoluções, para minha grata surpresa em matéria de ousadia culinária.

Para quem não conhece, o Barba (anteriormente conhecido como Barba Negra Hamburgueria) é um antro de modernete no coração da Vicente Machado (pobre Vicente Machado, tão longe da Trajano Reis e tão perto do James…), onde aquela galera com muito talento para qualquer coisa que envolva fotografia, música, moda ou desenho encosta suas bikes fixas (Vamos combinar: vocês podem andar numa bicicleta sem freio, mas não podem fazer passeata quando alguém morre, tudo bem?) e tomar uma cerveja importada e comer um belo hambúrguer. Como o nome do ambiente sugere, a decoração gira em torno da cultura de pirata, mais especificamente, tatuagens. A parte de comer peixe todo dia, comer o rabo de quem tá dentro do barril, estuprar as mulheres e aprender gíria de pirata passa longe do estabelecimento.

O cardápio – olha só! – é composto por nomes de piratas, que emprestam suas alcunhas aos mais variados sandubas do lugar. E olha, no que tange a diversidade, pode-se dizer que, apesar da carinha de bar com fichas de consumação, o Barba Hamburgueria é mesmo uma hamburgueria. E entre uma dúzia de opções (não sei ao certo, não contei), com opções vegetarianas e um excêntrico hambúrguer feito de batata e ervilha, um sanduba me chamou a atenção: O Captain Hook. Ei-lo:

Barba hamburgueria

Parece um sanduíche normal, e é mesmo. Um legítimo x-burger de boteco, exceto com uma qualidade acima da média, com uma única diferença: ele tem, além do queijo e da carne, cream cheese. Só isso. Cream cheese. Cream fucking cheese. Quem iria imaginar? Metem tanto queijo em tudo quanto é hambúrguer: catupiry, gorgonzola, provolone. O Fundae de Queijo tá aí para ninguém esquecer. Mas acho que nunca colocaram um cream cheese, um Filadélfia que seja, para colaborar com a mussarela dando uma pegada mais groove no sanduíche, como Andy Warhol cumprimentando todo mundo numa festa. Vamos explicar, mas vamos por partes.

Primeiro, o pão. Dá para ver que esse pão tem a crosta um tanto escura, mais do que o normal. Quando a gente vê um pão assim, sabe que por dentro ele não está aquela cremosidade de trigo dos pães frescos, mas um miolo de farelo que causa pouca comoção a nossas amigas papilas gustativas. Mas esse pão, por mais que seu exterior advogasse contra, não estava no ponto que eu esperava que ele estivesse. Estava longe de ser o pão dos sonhos de qualquer um, mas já vi piores. Bom, o grande problema desse tipo de pão é que não é muito difícil ele ser uma espécie de esponja do bolo mastigado. Ele vem seco e conforme se mistura à carne e o queijo na sua boca, vai tirando para si a textura e a maciez da comida, dando a impressão de que você está comendo uma espécie de tabule sabor hambúrguer. E é aí que o cream cheese entra, restaurando os objetos a seu estado natural, como a resiliência dos choques perfeitamente elásticos proporcionam na física do papel e da caneta. E não apenas isso, o cream cheese acaba sendo um perfeito substituto da maionese, afinal, já que é para ter gordura, que tal uma gordura que tenha autonomia de sabor e não funcione apenas atrelada a algo mais consistente? Não digo que a maionese deve ser abolida, também é um coloide que merece muito amor e respeito, mas variar é bom, todo mundo sabe disso.

O queijo pecou no tempo. Como vocês podem ver na foto, ele está bem derretido, mas já não está mais com o brilho e a maleabilidade do queijo recentemente derretido. Isso porque alguém deve ter deixado esse hambúrguer encostado por um tempo. E o queijo derretido é como a espada no Battōjutsu: perde seu valor a partir do momento que para de ser derretido assim como a espada perde seu valor quando sai da bainha. Aprendam o Battōjutsu, senhores hamburgueiros, e parem de arruinar seus próprios pratos por demora. Quer dizer, não estava arruinado não, mas poderia estar melhor apresentado. E acho que a culpa aqui pode ser mais do garçom, que embora tenha se empenhado em decorar o bordão “ao ponto da casa, grelhado por fora e rosado por dentro?”, perdeu pontos por deixar meu queijo morto como a espada morta.

Por fim, a carne. Uma carne saborosíssima! Bem temperada, realmente no-ponto-da-casa-grelhado-por-fora-e-rosado-por-dentro, ainda que com pouca gordura – um erro legítimo que pode também ser uma escolha do chef, afinal, se o cara se garante com os temperos, pode optar, talvez, por uma carne com baixo teor de gordura. Se foi intencional ou não eu não sei, sei que não comprometeu o resultado final como eu achei que comprometeria, o que mostra que o sujeito que faz esses pratos tem mesmo caracu de usar carne sem gordura, cream cheese e pão esfarelento para fazer um belo e delicioso descendente do Frankenstein de John Montagu.

E agora, o ingrediente chave do sanduba que leva o nome do arqui-inimigo do Peter Pan (aliás, me acho um pouco parecido com o Capitão Gancho, no sentido de que não gosto de crianças nem de crocodilos. Mas me acho parecido com o Capitão Gancho do Dustin Hoffman, e não o do Cyril Ritchard, hein?). O cream cheese é uma revolução silenciosa na arte de fazer hambúrgueres. Discreto, seu sabor, mais adequado a fiambres e outros alimentos frios, permanece ao fundo do hambúrguer, fazendo uma ponte entre o pão esfarelento e a mussarela. Algo válido para um pão seco como esse. Ainda assim, é ousado por ousar ser pouco e foi a peça que faltava para transformar um cheeseburger numa pequena obra de arte.

Por fim, o fiel acompanhamento, o Sancho Pança do hambúrguer, as gloriosas batatas belgas. Essas sim, uma delícia, crocantes e secas. Pode, inclusive, ter passado por uma segunda fritada, para secar bem, não sei. Sei que os donos do Barba ganharam do Vicente ao deixar ao sabor do cliente escolher o tipo da batata, como já foi dito no post do Murilo. Mas um assunto surge diante dos nossos olhos, impossível de ser ignorado: repararam como meu prato está escasso de batatas? Coloquei a foto da vista aérea da região para melhor notar isso. Não é uma exclusividade do Barba. Por quê? Por quê? Vamos raciocinar: batata-frita não é a coisa mais cara num sanduíche desses. Eu sei que um hambúrguer bem acompanhado com uma quantidade generosa de batata frita, como o do Dom Corleone em dias normais, me enche os olhos de tal maneira que eu sei quando estou sendo bem tratado num restaurante. Lembram do caso do x-bacon do 1º SWU? É desrespeitoso, gente, sirvam melhor e terão clientes felizes. Ou, como diriam seus clientes modernetes, #fikdik.

No final das contas, acho que a nota aqui do Captain Hook só baixou por conta da apresentação e da logística, sem falar do pão. No mais, é um bom hambúrguer.

Ficha técnica:

Captain Hook

Ingredientes: 160 gramas de hambúrguer, queijo mussarela e cream cheese. Acompanha batata frita ou batata chips.

Preço: R$13,00 (eu acho, não lembro do preço agora).

Ponto alto: Carne excelente, inovação, ousadia, e alegria com o cream cheese. 

Ponto baixo:  Queijo morto, pão esfarelento e pouca batata. Ou seja, apresentação displicente.

 Avaliação: B

OBarba Hamburgueria fica na Avenida Vicente Machado, 578 – Centro.

 
3 Comentários

Publicado por em 05/17/2012 em Uncategorized

 

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3 responses to “Barba Hamburgueria – Captain Hook

  1. Renato Fernandez

    05/21/2012 at 13:33

    Uma hora você tá falando de “evolução técnica do mundo civilizado” depois de “Cream fucking cheese.” porra

     
    • Yuri Raposão

      05/21/2012 at 13:35

      U mad, bro??

       

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