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Guiolla – Porteño

07 Jun

Todo mundo pode concordar, em menor ou maior grau, que sim, comemos com os olhos. O problema é que a estética da comida, muito diferente daquela estabelecida por designers para carros e por fashionistas para mulheres, tende a ser infinitamente mais subjetiva e tênue em sua divisão entre o apetecível e o opostamente repulsivo. Os chatos da nouvelle cuisine que o digam: qualquer pedaço de ossobuco sem um verdinho por cima, qualquer filé de peixe sem uma leve e fluída calda amarela a seu redor, qualquer medalhão acompanhado de risoto à piamontese sem uma varinha de uma qualquer erva genérica e mesmo qualquer filé com fritas sem um tomate e uma alface decorando a bandeja é motivo para uma tácita, porém contundente desaprovação por parte dos jurados/chefs, como podemos comprovar vendo qualquer episódio de Hell’s Kitchen ou Top Chef ou o seu reality show culinário de preferência. Em compensação, a mim esse tipo de coisa não diz nada. Sou partidário da beleza do peão, onde fartura é moralmente equivalente à qualidade, mas posso aceitar que uma boa apresentação para as comidas que eu gosto fazem uma pequena revolução na minha experiência gastronômica. E, nesse sentido, acho que o Guiolla, nossa missão da vez, percebeu que, antes de tudo, é necessária para a apresentação do hambúrguer uma teatralidade e uma plasticidade digna de publicidade americana, pois afinal, o hambúrguer é uma comida que chegou até nós, antes de tudo, pela mídia fotográfica e cinematográfica dos enlatados dos u.s.a. de nove às seis. Por isso, para quem não é comunista – e acho cá com meus botões que o Batel não é mesmo lugar de comuna – um hambúrguer bem apresentado, de filme, é tudo que alguém que procura um estabelecimento com o pomposo e duvidoso slogan “hambúrguer gourmet” procura.


Aliás, o lugar todo tem uma aura de artificialidade desejada, uma coisa meio Projac, meio nouveau riche, que não deixa de ser agradável dentro do contexto do Batel. Cadeiras ultra confortáveis, moveis bonitos, garçons bem uniformizado, um rock n roll seguro tocando, como versões lounge de Guns n Roses e Elvis Presley. Como a logo do lugar sugere, é um lugar para casais, mas acho que não havia nenhum no dia em que fomos. Tinha sim uma cambada de perua histérica, umas popozudas e uma ou outra menina comportada. Pensando bem, tem um público majoritariamente feminino. Tem a ver, talvez, além da decoração, a presença do charmoso café, sorveteria e doceira próximos ao balcão, afinal, mulher gosta de um doce.
O cardápio do lugar tem um cardápio muito reduzido de hambúrguer se você considerar que um hambúrguer, para ser hambúrguer, precisa de uma carne bovina. Existiam outras opções sim, de hambúrguer de frango e de calabresa, mas isso aí é um híbrido á là Dr. Moreau que eu não pretendo chegar perto. Não chegamos onde chegamos não sendo puristas da coisa. Enfim, no meio dessa brincadeira, um hambúrguer chamou nossa atenção, mas eu gritei a bola primeiro e peguei o bicho: trata-se do Porteño, um hambúrguer de nome Castelhano em meio a um estabelecimento de nome italiano, endossando a proximidade cultural entre os dois países que vai além do sotaque cantado e dos sobrenomes esdrúxulos. Ao contrario do Fundae de Queijo, da culinária instintiva, esse bicho é uma evidência do criacionismo que dispensa o amontoamento de design cego na cozinha: um hambúrguer de mix de carnes para churrasco com (adivinha!) sabor de churrasco, a ruim e velha salada, queijo nosso de cada dia e um acompanhamento a parte de molho chimichurri, uma parada propícia e nada acidental. É a minha pedida, portanto, que infelizmente demorou mais do que eu deveria. Não vou dizer que foi a maior espera em lanchonete que tivemos desde que esse blog começou, mas esperamos, ainda assim, um bocado. A visão do lanche, felizmente, é recompensadora. Veja por seus próprios olhos:

Combinamos aqui: nada melhor do que pedir um sanduíche e receber uma propaganda viva (morta) de lanchonete. O sanduíche vem disposto dentro de um chaeuzinho de marcha soldado cabeça de papel, e as batatas fritas, numa simpática cumbuquinha que quase nos faz relevar a quantidade modesta de batatas, algo chato e já corriqueiro nas hamburguerias da cidade. Sério gente, sejam mais generosos!

Bom, como dá pra ver, o Guiolla segue a escola de hambúrguer que o Durski freqüentou. É, de novo, um pão de sal, ou pão estrela, como o Murilo me explicou. Muito gostoso e levemente tostado – por um lado bom, porque quem não curte um pão chocante e não-agressivo? E por outro, suspeito, porque da pra conseguir uma qualidade assim com pão velho. Gosto de comer coisas frescas e acho que não precisaria de mais do que uma leve esquentadinha no pão, mas não julgo esse preciosismo porque tava bom também.

O tomate estava vermelho blá blá blá, não vou gastar meu latim falando de salada num blog de hambúrguer hoje porque deve ser o equivalente a ir num puteiro e ouvir sobre a bíblia. Passemos ao próximo tópico, muito mais interessante, que é o chimichurri. Olha, que combinação maravilhosa. O chimichurri é um molho que, ao contrario do Ketchup, da mostarda e do barbecue, prefere agregar sabor de maneira passiva, sem se intrometer muito no sabor da carne. Ele realça a ternura da carne e adiciona um molho que em muito lembra os restos de vinagrete, limão e outras sujeiras que são deixadas na tábua de cortar carne num churrasco de verdade, mas é um sabor que não é nascido do caos, é um sabor organizado em si mesmo, um sabor auto-cônscio. E, como vocês devem saber, o chimichurri é um molho a base de uma porrada de coisas, então imagino que deva ser difícil estabelecer um balanço perfeito entre elas de maneira que nenhuma se sinta muito a estrela principal do paladar.

E aí veio o queijo. O queijo desse sanduíche era tão bom e generoso que me atentou para um fato grave nas hamburguerias da cidade em geral. O queijo também anda cada vez mais ralo nos nossos sanduíches. Não é legal morder um queijo derretido e se ver em um cabo-de-guerra tenso entre o sanduíche que está na sua mão e seus dentes que fazem o que pode para cerrar aquela obstinada e fina ponte de queijo? Isso não acontece mais, e quero que volte a acontecer, então, por favor, pessoal, sejamos mais generosos (tô ficando cansado de pedir isso). Não precisa ser o Fundae de Queijo, mas pelo menos algo que remotamente lembre um cheeseburger e não uma carne que caiu no chão e por sorte rolou por cima de um pedaço de queijo que lá estava abandonado.

E por último, ela, a gloriosa carne. Confesso que fiquei mal acostumado com essas hamburguerias que oferecem duas carnes no sanduíche, fico achando que uma carne nunca será suficiente para aplacar meu amplo estômago. Ledo engano, a carne não só estava pra lá de suculenta, vermelha por dentro daquele jeito que idealizamos quando nos vem a imagem mental de um hambúrguer, como também me sanou o apetite de forma resoluta e segura de si. O único problema foi dar umas mordidas na carne e as fatias do pão estrela virem junto e deixarem meu sanduíche careca em algumas partes. Fora isso, realmente não tenho do que reclamar.

No final das contas, o Guiolla mostrou que, embora ainda seja duvidosa sua pecha de “hambúrguer gourmet”, consegue sim fazer um hambúrguer que tem sua própria identidade, com elementos muitíssimos parecidos com os do Madero sim, mas ainda muito autêntico e saboroso. Foi uma boa descoberta.

Ficha técnica:

Porteño

Ingredientes: Hamburguer grelhado de carnes nobres (180g), com sabor churrasco, maionese, tomate,  cebola (crua), queijo num pão especial. Acompanhado do tradicional molho argentino chimichurri.

Preço: R$20,90 + R$3,50.  Total: R$24,40
Caríssimo, equivale ao preço do hambúrguer de duas carnes do Madero. Tomem vergonha nessa cara, por caridade, porque nunca mais vamos conseguir voltar ao estabelecimento (o que é uma pena).

Ponto alto: Carne excelente, escolha fantástica do molho que acompanha, queijo generoso e pão tostado, sem falar na excelente apresentação.

Ponto baixo: Pouca batata, preço mais abusivo que o do Madero e longa espera.

Avaliação: A (ainda assim, merece um A)

O Guiolla fica na Rua Teixeira Coelho, 430,em frente ao Hospital Geral, no Batel. (41)3026-5891.

 
3 Comentários

Publicado por em 06/07/2012 em Uncategorized

 

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3 responses to “Guiolla – Porteño

  1. Paolla Bittencourt

    06/17/2012 at 04:09

    Sempre leio os posts, e acho muito bem escrito, são críticas construtivas, que é um ponto bem positivo, principalmente para as hamburguerias de pequeno porte.
    Só não acho válido você avaliarem hamburguerias de nível superior (bem superior, diga-se de passagem), como o Madero.

    Pois na minha opinião, um hamburguer que custa $24, obrigatoriamente TEM que ser the best burger in the world, pois por esse preço nenhum erro é justificável.. Sendo asism, é até injusto comparar uma hamburgueria onde o dono caga dinheiro, e inaugura uma loja a cada mês, e em cada esquina (assim como a Igreja Universal, aleluia), com hamburguerias meramente mortais.

    Posts como o do Madero, me desmotivam a acessar o site outra vez.

    PS. Tem que parar ´de puxar saco do Durski, ele já tem uma prateleira cheia de prêmios e afins..
    Porque não é ele que é que é o “melhor” chef, ele só o “melhor” em pagar alguém pra fazer isso por ele.

     
    • Yuri Raposão

      06/17/2012 at 07:14

      Oi Paolla, obrigado pelo comentario! Ficamos felizes com os elogios! (perdao, estou escrevendo num teclado sem acentos).
      Sobre a discrepancia social das hamburguerias: obviamente, temos consciencia dos recursos de que cada lugar dispoe, mas nem sempre dinheiro eh sinonimo de qualidade. O Mustang Sally, por exemplo, que integra uma prospera rede de bares e restaurantes em Curitiba, teve uma das piores notas do blog, ao passo que o Rock’a Burger, um lugar modesto da Trajano Reis, teve a honra de ganhar o primeiro A de nossa pesquisa. Se o hamburguer do Madero ganhou um A, nao foi porque nos puxamos o saco do Durski, pelo contrario, antipatizamos com a atmosfera do lugar, mas no que tange a qualidade do sanduiche, eh realmente bem acima da media. A nossa proposta por aqui comecou pelo nosso gosto por hamburgueres podroes, principalmente, como o X-Montanha, nosso preferido que sequer entra na competicao por ser, para nos, au concour. Por isso, nao se preocupe com a suposta elitizacao do ranking, lhe garanto que, conquanto os hamburgueres forem de qualidade, ele sera bem democratico!

       
      • Paulo Mello

        07/13/2012 at 17:40

        Po meu, poe aí o X montanha…endeeço coisa e tal…

         

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