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The Fifities – Pic Asiático

19 Jul

O que há, afinal, nos anos 50, que tanto bole (do verbo bulir) os hormônios e sentidos dos fãs de hambúrguer — e aqui nos excluímos do grupo, já que para mim anos 50 é sinônimo de vídeos educacionais idiotas, paranoia comunista, cinema estadunidense tosco e o intragável início do rock ‘n roll. Pode reparar, a relação é um clichê comum a quase todas ditas hamburguerias da cidade. Tão verdade quanto a perversão dos paranaenses por araucária (Freud explica: mamãe não te dava mamá, papai não te dava papá, titio não te deixava cagar e você cresceu doido por pinhão), a relação foi levada ao máximo por alguns empresários paulistas que criaram o The Fifities, uma cadeia de hambúrgueres para classe AA toda estilizada na estética dos anos 50 – ou, ao menos, na caricatura dessa época rabiscada pelo substrato da nossa parva cultura americanóide mal digerida pelos anos.

A ideia deu tão certo, tal é a associação da época com a comida, que a rede paulistana veio parar nessas paragens gélidas de pouca simpatia para oriundos de outros estados, exceto São Paulo. O restaurante foi inaugurado no Largo Curitiba do Shopping Curitiba, a nata da não-tão-nata assim, e contempla, pelo que eu me lembro, piso quadriculado, sofá de canto acolchoado e garçons trajados na melhor estileta american-way-of-life, de camisa salmão listrada, suspensório e chapeuzinho de idiota. Mesmo diante desse pesadelo estadunidense, os curitibanos, que sempre, sempre, sempre, sempre, sempre vão acreditar no hype, faziam fila do lado de fora do lugar, impacientes para deixar ali o valor de 3 refeições em qualquer outro restaurante da praça de alimentação normal. E no meio deles, nós, implacáveis em nossa missão de continuar comendo tudo até a última ponta.

O primeiro susto foi, obviamente, para a primeira olhada nos preços. Hambúrgueres que custam perto de 30 reais, e isso sem a batatinha adicional de praxe. Aqui a teoria do Preço da Carne do Murilo, sinto dizer, foi para as cucuias. Talvez um hambúrguer feito de carne de mico leão dourado valesse esse preço, mas das duas uma: ou esse povo acha que picanha é caviar ou os açougueiros tão sacaneando esses caras vendendo carne pelo quíntuplo do preço. Não tem cabimento um hambúrguer custar o dobro de um sanduíche de qualidade que é ainda acompanhado de batata frita, a menos que exista otário suficiente no mundo para pagar por isso (e, caso vocês não saibam, foi assim que o carro aqui no Brasil chegou ao preço de hoje). Se nós aqui não tivéssemos compromisso com a verdade hamburgável, simplesmente teríamos levantado nossos traseiros das cadeiras, falado um educado boa noite e nunca mais colocar os pés ali. Mas como somos homens com uma missão, resolvemos, antes de falar um educado boa noite e nunca mais colocar os pés ali, comer um lanche para poder criticar com conhecimento.

O cardápio tem relativamente bastante opção, mas ficamos nos principais, os tais pic burger, os hambúrgueres feitos de picanha. Enquanto o Murilo foi em uma receita mais coerente e lógica, resolvi fazer da minha extravagância um exótico safári pela terra da culinária Frankenstein e escolhi o sanduba mais bizarro do cardápio principal, que é o tal do Pic Asiático: hambúrguer de picanha, cream cheese, shitake e alho poro. Asiático? Isso é uma suruba entre um chef alemão, um inglês, um japonês e… sei lá de onde é o alho-poró, mas tenho quase certeza que não é da Ásia. Enfim, se a intenção dos chefs era associar a bizarrice do sanduíche com a bizarrice regular dos asiáticos, então tudo bem. Se era uma tentativa de criar um sanduíche étnico, preciso recomendar aos responsáveis uma viagem à Ásia antes mesmo de uma viagem aos Estados Unidos.

E como não vinha batatinha junto, fomos obrigados a jogar mais 16 reais na mesa e pedir uma porção, afinal, julgar um hambúrguer sem julgar suas batatas é como julgar um filme de ação visto ainda com a tela verde sem Chroma.

Enquanto nosso lanche demorava uma eternidade para chegar, fomos reparando em algumas coisas. Por exemplo, a foto do meu hambúrguer no cardápio mostrava um cream cheese azul, o que me deixou bem preocupado e receoso pela minha saúde. A garçonete, entretanto, me garantiu que não tem nada de azul no sanduíche, e anotou nossos pedidos modestamente em um iPod Touch, artefato sobre o qual quase me garanto ao dizer que não existia na década de 50, quebrando boa parte da mística que tentaram construir. Francamente, não há nada de errado no bom e velho bloquinho de papel e caneta esferográfica azul. Além de conferir mais verossimilhança à experiência, confundiria menos os garçons que – coitados! – erraram 16 pedidos enquanto aguardava minha refeição. Basicamente eles iam de mesa em mesa perguntando: “foi aqui que pediram um chope/batata-frita/ hambúrguer de mico leão dourado/ a conta/ palito de dente/ um pedido errado de outra mesa?”. Não tem sentido anotar no iPod Touch, então. Um conselho para a gerência: vendam essas porcarias e abaixem o preço do hambúrguer, senão vocês vão cair do cavalo mais rápido do que o super-homem original.

E eis que chega a beleza, numa apresentação tosca. Aqui no Good Burger temos a política de não enfeitar a apresentação dos lanches, à exceção, talvez, da sublime qualidade das fotos, que um profissional como o Murilo não consegue evitar. Mas dourar a pílula não é o nosso negócio, principalmente porque quem paga nossos lanches é a gente mesmo. E me chega esse numa porcaria de envelope de papel, como num trailer da rua ou de cantina de colégio? Colega, eu paguei 30 reais num hambúrguer, estava esperando algo como pirotecnia no prato ou ser servido na barriga de uma cambojana ou na testa de um ancião paranormal do Rajastão, qualquer coisa asiática e exótica, mas não: um sem graça envelopinho branco com a logo marca do recinto. Algo que não demandou mais do que cinco centavos e cinco segundos dos preparadores. Tudo bem, tudo bem, embora a primeira impressão seja de fato a que fica, não comemos com os olhos e estava pronto para relevar isso e tirar o sanduíche do envelope para mostrar em mais detalhes para vocês. De quebra, a foto das batatinhas, temperadas com queijo derretido e bacon carbonizado. Eis todas.

FifitiesFifities

bacon e queijo

A decepção começa nas batatas fritas. Como um lugar especializado em um sanduíche que tem como núcleo uma carne frita e como periférico tubérculos fritos à moda belga pode ser tão displicente no tratamento dessas batatas? Sem sacanagem, eu como batatas melhores no restaurante a quilo em que eu almoço todo dia, e isso não é um elogio à espelunca que eu chamo de restaurante. Murcha, pálida, fina a ponto de ter só casca crocante, sem nenhum cerne tenro, só óleo e depressão coberto por um bacon que mais parece torresmo e um queijo derretido como pizza. Se a cozinha do The Fifities trabalha no esquema de chef de partie, sugiro fazer rolar algumas cabeças imediatamente.

Mas vamos ao hambúrguer de fato, já que o acompanhamento não serviu nem de entrada porque chegou na mesma hora. Bom, o pão, por mais fresco e macio que estivesse, não passa de um pão industrial, sem carinho nenhum em sua confecção, e não merece nenhum destaque da minha parte. Esperava realmente uma inovação no pão, algo que deixasse o lugar comum e frustrei-me ante o tédio da mesmice.

O cream-cheese é o grande redentor desse Frankenstein culinário. Sua consistência coloidal fagocita as mil texturas embaralhadas do recheio, fazendo com que a experiência de mastigação seja algo mais coerente e menos parecido com os altos e baixos de se atravessar o sertão de Transpiauí. Porque veja você que samba do crioulo doido são essas texturas: o pão, aerado e macio; o cream cheese, cremoso como o nome já diz; o shitake, borrachudo e levemente úmido; o alho poro; crocante como uma cebola e fino como fio de ovos; e o hambúrguer, cuja consistência todo mundo conhece. Como comer uma coisa dessas sem preparar a mandíbula para triturar o mais forte e deixar os outros ao sabor da maré? A harmonia pode ser feita pela união das coisas contrárias (árias, árias, árias, alô, Cabeça!), mas é bom lembrar que o yin-yang são apenas dois opostos.

O shitake é o elemento mais bizarro da bizarrice toda. O que os cogumelos têm a acrescentar em um prato de sabores fortes, vocês me perguntariam, e a resposta é: pouca coisa. O shitake tem o sabor umami, o quinto elemento do sabor, responsável por, em parte, realçar outros sabores. Mas a carne vermelha, especialmente a picanha, já é rica em umami também, então é um elemento redundante. Aí tem a textura, mas a textura do shitake, como eu já falei, é, também em parte, fagocitada pelo cream cheese, abundante no sanduíche, então perdemos aí boa parte da textura. Por último, o gosto do shitake, que dá uma leve encorpada no sanduíche, algo muito sutil e pouco vantajoso, haja visto o preço do shitake hoje em dia e o aspecto físico da parada fatiada. A sensação é de estar comendo um sanduíche coberto de planárias.

E por último, formando o background do Pic Asiático, está o alho poro. O alho poró, vou dizer, cai muito bem com carnes acompanhadas de pão ou outras massas similares. É agradável misturado ao cream cheese, dá um sabor exótico ao queijo e realça o sabor de tudo. Finalmente algo acertado.

Yuri, esse papo tá muito bom, mas e, afinal, a carne vale mesmo o preço? Olha, amigo, carne nenhuma vale esse preço, mas a foto não deixa mentir: é uma carne muito bem preparada. Cheia de sucos, rechonchuda, no ponto, rosada por dentro. Mas há um porém, como tudo na vida. Falta sabor. Quer dizer, para um hambúrguer de caixinha da Sadia é bem saboroso, mas para um hambúrguer com toda a pompa que chega, é quase uma carne d’água. E não sei explicar direito a razão disso, talvez tenham usado pouca gordura no preparo da carne, usado pouco tempero, vai saber. O maior sabor do sanduíche tava mesmo nos outros ingredientes. É como encontrar uma pessoa bonita e decepcionar-se com sua burrice estupenda. Falta conteúdo na forma. Mens sana in corpore sano. E foi aí que eu me toquei: pão industrial, carne bem preparada, molho abundante e saboroso. Já tinha visto isso em algum lugar, e foi no Dom Corleone. Aqueles caras fazem sanduíches melhores que esse por um preço infinitamente mais honesto. Fiquei feliz de acreditar de novo no pequeno estabelecimento e ver que as grandes cadeias nem sempre são sinônimos de qualidade.

Resultado: saí do The Fifities frustrado, irritado e decepcionado. Colocaram o preço lá em cima, e as expectativas também sobem. Fomos atendidos por funcionários mal treinados, comi uma gororoba bizarra, paguei extra pelas batatas mais horríveis da minha vida de crítico gastronômico e desembolsei uma grana forte que não valeu a pena.

Ficha técnica:

Pic Asiático

Ingredientes: “Hamburger de picanha, cream cheese e shitake temperado com alho-poró”

Preço: R$26,90 + R$4,00 coca-cola lata + 1/3 de uma porção de batata. Total: R$38,60 (incluindo o serviço)

Ponto alto: Cream cheese redentor, carne bem apresentada e ousadia no alho-poró.

Ponto baixo: Batata frita não inclusa (e nem adianta pedir separada porque é horrível), preço extorsivo, montanha russa de texturas e pão tedioso.

Avaliação: E- (minha avaliação aqui conta com toda a minha frustrante experiência).

O The Fifties fica dentro do Shopping Curitiba na Rua Brigadeiro Franco, 2300  (41) 3308-2184.

 
11 Comentários

Publicado por em 07/19/2012 em Uncategorized

 

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11 responses to “The Fifities – Pic Asiático

  1. Vitor Hugo

    07/19/2012 at 14:07

    ” pão tedioso.” ? o que exatamente é um pão tedioso?

     
    • Yuri Raposão

      07/19/2012 at 14:14

      Um pão desprovido de atrativos, de tons e cores expressivas, chocho, nada demais. Tedioso.

       
  2. Iris

    07/24/2012 at 23:40

    Ótimo post. Tava pensando em ir lá qualquer dia para conhecer, já desisti. Muitos dinheiros para um hambúrguer.

    Só uma correção na ficha técnica: esse é o pic asiático, né?

     
    • Yuri Raposão

      07/25/2012 at 12:04

      Obrigado pela visita, Iris. Verdade, já corrigi o erro! Volte sempre🙂

       
  3. Gabriele

    09/30/2012 at 18:12

    Oi Yuri, adoro seu post. Concordo totalmente com vc. Visitei o The Fifties para conhecer já que estava escrevendo um post sobre hambúrgueres pro meu blog e sai totalmente frustrada: o hambúrguer deles não tem tempero nenhum! É péssimo! Até voltei para reconferir e ver se não foi impressão ruim de abertura da loja, mas tentei outro e resultado igual. O hambúrguer de lá não vale nada!

     
    • Nego Dito

      10/04/2012 at 10:06

      Oi Gabriele, obrigado pela visita!
      É exatamente isso, falta de tempero e falta de preparo. O Fifities foi uma das maiores decepções de nossa carreira de frequentadores de hamburguerias, mas vamos torcer pros caras tomarem jeito algum dia.

       
  4. Mauricio Simões

    08/28/2013 at 18:02

    Caí nessa cilada poucos dias depois da inauguração. Seu texto fez com que eu revivesse a agonia de ter pedido o MESMO lanche avaliado. Definitivamente, a PIOR hamburgueria que já conheci. Destaque especial para as PIORES batatas fritas que já coloquei na boca. Assim, concordo ipsis literis com sua avaliação.

     
    • Nego Dito

      08/28/2013 at 18:16

      Realmente, uma furada completa, Mauricio. Valeu a visita, volte sempre!

       
  5. Joao

    02/26/2014 at 02:08

    pena eu não ter encontrado esse site semana passada,antes de passar na frente do the fifities e resolver provar o sanduiche deles… tarde demais…

     

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