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Galeria Lúdica – Frank Fairey

09 Ago

O quanto de nossas experiências é alterado pelo preconceito, expectativa, ansiedade ou qualquer um desses fatores pré-concebidos? É possível dizer que passamos por qualquer acontecimento sem experimentar, carregado em suas arestas, o peso de nossas vivências, o cansaço ou a monotonia de quem se julga, em algum nível, senhor do devir? A resposta mais honesta é: muito provavelmente não. Mas, ao mesmo tempo em que isso nos distancia de uma vivência plena e livre de preconceitos, há uma beleza nesse nosso convencionalismo de botequim: a capacidade de projetar nossas próprias vidas em eventos futuros e torná-lo em algum aspecto mais previsível é, de certa maneira, uma forma de driblar o medo do desconhecido momento seguinte, enfrentando-o de peito aberto, como se já soubesse o que esperar. E nossos gostos, por conseguinte, transportam consigo emoções passadas, lembranças, retalhos do que conhecíamos para o que não conhecemos ainda. É aí, por exemplo, que reside a beleza da música, que é absorvida de maneira diferente por cada um, fazendo com que os acordes de um Kings of Leon soe maravilhosamente glorioso para um hipster, ao mesmo tempo em que ecoa como uma baladinha de moleques sem talento para pessoas sensatas. Isso torna os gostos subjetivos e diretamente condicionado a nossa cultura, como seria de se esperar, mas a pergunta é: existe, portanto, um gosto puro, carefree, absoluto?

Tudo isso para dizer que a minha experiência na Galeria Lúdica poderia ser completamente diferente se eu já não estivesse versado em hamburguerias top da cidade. Trouxe comigo alguns preconceitos: o fato de ser uma loja “conceito”, que vende lanches na mesma medida que vende câmeras lomográficas, acessórios com design conceitual e obras de arte de gosto pra lá de duvido, por exemplo, ou o fato de já ter passado por este blog um leitor que nos recomendou ficar longe dos hambúrgueres do lugar, ou ainda o tamanico dos lanches (é muito pequeno, vou mostrar na foto), mas fomos dispostos a sermos surpreendidos, e aí está a positividade necessária para apreciar um excelente lanche.

A Galeria Lúdica é o último lugar do São Francisco a ser explorado. Fica na esquina da Inácio Lustosa com a Duque de Caxias, e é um lugar frequentado principalmente pela galera descolada e/ou homossexual, o que explica o fato dos lanches no cardápio terem nomes de street artists (de que outro jeito não homoafetivo pode-se dizer que eu comi um Frank Fairey lá?). E como, obviamente, nós não temos preconceitos, fomos lá ver que tipo de gororoba essa galera de gosto tão “apurado” gosta de comer.

O Frank Fairey, para quem não sabe, é aquele sujeito que fez a campanha CHANGE e HOPE do Obama, entre outras coisas. É um cara conceituado entre a galera rebelde do traço, e o sanduíche a cujo nome empresta lhe faz jus à rebeldia. O sanduíche Frank Fairey é uma releitura do famigerado Fundae de Queijo do Memphis. Não sei qual veio primeiro, mas seja lá quem teve a ideia, a brincadeira continua sendo perigosa: Mussarela, parmesão, provolone e cheddar se encontram debaixo do domo de carboidratos que é o pãozinho lúdico. O lanche é completado ainda, além da carne, pelo tal molho lúdico, que é, segundo consta o cardápio, molho bechamel, especiarias (não sei quais) e parmesão (mais queijo!). O molho bechamel, pode se dizer, é uma novidade para quem lê esse blog assiduamente. Nunca antes um hambúrguer foi contemplado com esse molho. O tal molho, pelo que me consta, não passa de um molho branco afetado, um pouquinho mais temperado e coloidal, encorpando um pouco menos do que uma maionese. O cardápio diz que combina com carnes, e eu concordo, combina mesmo. Opa, mas já comecei a resenhar o lanche sem nem mostrá-lo. Ei-lo aqui então:

Mesmo que a foto esteja bem aproximada, uma comparação com um tamanho regular de uma fatia de batata frita e o tamanho dos padrões na textura não deixa mentir: o Frank Fairey é um sanduíche pequenininho. Longe daqueles exageros a que estamos habituados, não deixei de sentir uma pontinha de decepção antes da primeira mordida. Mas algumas coisas já conseguiram me fazer simpatizar com o danado mesmo antes disso.

A primeira coisa era o pão. Sempre uma alegria ver um pão assado recentemente, com aquela crosta crocante dos pães franceses, e ainda assim, surpreendentemente macio por dentro. É um pão spalla, um pão Macauley Culkin antes do Anjo Mau, um pão Richard Linklater antes do Escola do Rock, um pão que marca território e prova sua qualidade nata, sem experiência requerida, nature born killer.

A segunda coisa era a batata. Por um lado, mais escassas do que nunca, e se tem uma coisa que me deixa puto em hamburgueria é essa pão-durice na batata. Por outro lado, raras vezes comi aqui em Curitiba batatas fritas tão boas como essa. Fritadas no óleo comum, rescendiam a bacon, cebola, todo o passado de uma cozinha sintetizado na pele crocante de um tubérculo. Isso é bom e nós gostamos.

E por último, a carne. De proporção volumosa e tom escuro, encantou-me nesse hambúrguer os cantos bem definidos, que mostram não só um cuidado na apresentação, deixando-o tão mais próximo de uma foto publicitária, mas também uma delimitação de tamanho que serve bem ao propósito do diminuto sanduíche. Aqueles cantos do hambúrguer para mim significavam uma coisa apenas: limites. Ele me lembrou de que a vida tem suas bordas, mas que elas servem tão somente para nossa própria verticalização. Como o sanduba que resolveu crescer para cima ao invés de crescer para os lados. O miolo da carne estava um tanto seco (o sanduíche do Murilo, por outro lado, tava com uma cara melhor, como sempre), mas não estava exatamente desagradável. Poderia ser melhor, isso poderia! Mas gostei de morder um bolo de carne com bordas bem definidas.

Por fim, quando finalmente dei a mordida e confirmei todas essas impressões acima, enfrentei um inimigo do passado: a quantidade tóxica de queijo do fundae, reinventada no Frank Fairey. E aí veio a surpresa: os queijos estavam, misteriosamente todos em harmonia, não degladiavam e não estavam enjoativos. Até o cheddar, para se ter uma ideia, tinha cor de queijo normal. E, de repente, tudo fez sentido. Primeiro, saiu da briga o sabor forte e enjoativo do gorgonzola e o parmesão, um queijo muito mais neutro, deu lugar na contenda a uma harmonia digna de um cachimbo da paz. E por fim, mais importante o que tudo, a verticalização do sanduíche. O queijo, elemento geralmente bidimensional num hambúrguer, não teve tanta área para se esparramar por sobre a minúscula carne, que ganhou em altura e redistribuiu a proporção do lanche. Esse é, portanto o segredo de um sanduíche com tanto queijo: proporção. Comi em deleite, apaixonado, me sentindo o Romeu do primeiro ato, o Tristão da segunda ária, o Dirceu antes do Desterro, e tão glorioso fiquei, que em mim couberam todas as glórias, abateram-se sobre minha cabeça todos os hinos, e se Beethoven eu fosse, passaria, num átimo, da “Patética” à “Heróica”. Que incontida alegria, como diria o Stanislaw Ponte Preta. Resumindo: não saciou tanto a fome, mas curti.

Ficha técnica:

Frank Frairey

Ingredientes: “Hamburger gourmet, mussarela, provolone, cheddar, parmesão e molho lúdico”.

Preço: R$14,90 com fritas. Poderia ser mais justo se fosse um sanduíche maior.

Ponto alto: Pão caseiro, batatas excelentes, hambúrguer vertical e queijos harmônicos.

Ponto baixo: Lanche pequeno, pouca batata, carne um pouco seca.

Avaliação: B

A Galeria Lúdica fica na Rua Inácio Lustosa, esquina com a Rua Duque de Caxias, nº367, no São Francisco, e funciona de quarta à sábado, das 16h à 00h e domingo das 16h às 21h. (41) 3024-8114.

 
1 Comentário

Publicado por em 08/09/2012 em Uncategorized

 

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One response to “Galeria Lúdica – Frank Fairey

  1. Débora Mello

    09/16/2012 at 20:53

    Obrigada por prestigiar nosso espaço e nos sentimos honrados de estar no blog de vcs!
    Acredito que é importante ler sobre o assunto para melhorar o que for necessário. Tvz tenham uma impressão errada visualmente, pois nosso prato é grande e a porção de fritas de 250g possa ter se perdido nele.

    Abraços Lúdicos!

     

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