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Elvis Costella – The Real Deal Burger

30 Ago

Pensar os fenômenos que ocorrem ao seu redor no dia a dia exige sensibilidade, paciência e observação. Mas como nós temos tudo isso, podemos perceber e fazer a pergunta que pede para ser feita: por que, afinal, tantas hamburguerias estão brotando na cidade? Não me levem a mal, Deus sabe que eu gosto de um hambúrguer (aliás, graças a esse blog, agora acho que todo mundo sabe), mas é preciso descobrir de onde vem a demanda por tantos hambúrgueres gourmet, por tantas opções de recheio, por tantas alternativas vegetarianas a uma comida que quem não come carne não deveria nem querer chegar perto.

E bom, exatidão é algo que só existe no mundo dos homens de Protágoras e suas medidas antropocêntricas, mas isso não impede que tentemos esboçar uma explicação plausível. E a resposta para isso, doa a quem doer, vem da morte da alta-gastronomia. As crianças de classe média não comem mais comidas elaboradas, seus cardápios resumem-se a congelados, fast-food e as três ou quatro opções que a empregada tem na manga, porque cozinhar em casa, além de ter se tornado algo caro, também se tornou algo muito trabalhoso e vagaroso para o ritmo do século 21.

Sendo assim, o homem moderno, quando ganha liberdade para voar para fora do ninho, busca nas hamburguerias refeições que explorem o parvo repertório com que foi criado. E é esse o principal desafio dos chefs de hoje em dia (por chefs, refiro-me àqueles que não querem surpreender ninguém): trabalhar com o repertório da galera, fazer mais com menos, construir algo que seja ao mesmo tempo gastronomicamente desafiador e confortavelmente familiar. É só uma questão de tempo até aparecerem restaurantes especializados em miojo, vai por mim.

É justamente a tentativa de trabalhar com o repertório distorcido das crianças da geração coca-cola que faz com que tantas hamburguerias associem seu principal produto à famigerada estética rockabilly dos anos 50. A cultura estadunidense é tão contundente que tanto bate até que fura e todos se esquecem que a palavra vem do nome de uma cidade alemã, e associar qualquer elemento teutônico a esse bolo de carne é um disparate lógito semelhante a associar as batatas fritas a seu lugar de origem, a Bélgica.

Tudo isso para dizer que o Elvis Costella, restaurante das mercês que, com palavra e imagem, funde os dois únicos Elvis que o rock n’ roll já conheceu, levou essa brincadeira longe demais. O lugar é uma caricatura grotesca da cultura americana de que os ianques tanto se orgulham. Guitarras nas paredes, bancos que simulam Cadillacs, jukebox decorativa, pôsteres de filmes, o restaurante é imenso e se reabrisse como museu, poucas pessoas notariam a diferença. Se é assim tão grande a vontade de parecer um restaurante norte-americano, é uma pista de que em matéria de hambúrguer os caras devem ser bons. E se são, é melhor a gente ir conferir.

Mas não na primeira tentativa. Chegamos lá e tinha uma banda cover de Elvis tocando, com um sujeito que parecia muito o Elvis mesmo (o Presley), mas que não justifica, na minha opinião, o couvert artístico de 20 reais – mais do que eu pretendia gastar em comida naquela noite. De maneira que retornamos num dia mais tranquilo, vazio, com aquele ar de fim de festa. Foi aí que finalmente demos uma olhada no cardápio.

Três opções de hambúrguer, caros leitores. Senti-me observando a obra pop de Andy Warhol sobre Marilyn Monroe, que com suas cores e pictoração fauvistas wanna-be, emulam, para mim, a falsa ilusão de escolha da massificação cultural. Veja você também o quadro para acompanhar meu raciocínio.

Andy Warhol

Então, basicamente o que eu tenho é a opção de escolher o Real Deal, que é um hambúrguer, o Elvis Jr, que é o mesmo hambúrguer, só que menor, e o Alaska Burger, que é feito com pão integral, salmão e guacamole. Ou seja, não é hambúrguer. Resumindo, você tem duas opções de hambúrguer nesse grande restaurante americano: o grande e o pequeno. Tá bom pra você? Que bom, porque pra mim não tá. Quase não tivemos post sobre o Elvis Costella, mas acertamos que o Murilo comeria o menor e eu pegaria o Real Deal Burger, porque, afinal, ninguém aqui vai encostar num hambúrguer de salmão!

E vamos ao que interessa. O The Real Deal Burger, imperativo dizer para os que não manjam de inglês, tem um nome um tanto prepotente para virtualmente a única opção de hambúrguer do cardápio. Real Deal é tipo “A parada de verdade”, sem caô, sem vacilação, leva o que paga, tá ligado? No cardápio diz: “Pão, hambúrguer de carne (Red Angus, 250g) de carne [sim, repete o ‘de carne’, acho que é pra mostrar que não é de salmão], queijo, tomate, pickles [assim mesmo, com k], cebola e maionese……..24 reais”. Xi… passou dos 20 reais, pra mim, a brincadeira fica séria, o sorriso some e o profissionalismo fala mais alto. Aqui não tem moleque, virei o boné pra trás no estilo Falcão – O Campeão dos Campeões e comecei a prestar atenção em tudo. E a primeira coisa, obviamente, é a pose, que isso esse sanduba tem.

Elvis Costella

Infelizmente, começamos mal. O garçom, que não anotou nada confiando na sua memória infalível, errou nossos pedidos e o meu sanduíche veio como o Murilo queria: sem cebola e sem picles. Tudo bem, não sou mesmo fã desses ingredientes e geralmente só como para relatar a experiência mais próxima da realidade que vocês terão. Por isso não reclamei, mas isso não justifica a má conduta do garçom. Papel e caneta existem, são baratos e eficientes. Acredite no simples, acredite na beleza. Fica a dica, como dizem as patricinhas.

Comecemos pelo topo. O pão reforça aquele ditado “por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento”. Não que tenha bolor, nada disso, mas é que, se por um lado a crosta cativa, o miolo, mais seco que tabule que caiu na areia, tira toda a graça do resto e dá a impressão de se estar comendo algum tipo brando de poliuretano, com aquela textura de isopor. Eu cheguei a destacar um pedaço grande do pão e mostrar para o Murilo, para ele procurar, tal qual um investigador do CSI, algum traço que indique que aquele pedaço pertenceu a um hambúrguer, e não foi possível provar nada. Pena que não tirei foto para mostrar.

Sobre a salada, eu geralmente falo pouco mais que generalidades de praxe, para cumprir tabela, mas serei obrigado a puxar a orelha do chef do Elvis Costella nesse quesito. O cara usou alface lisa no sanduíche! Alface lisa! Como alguém, em pleno século 21, com acesso a Wikipédia, usa uma alface lisa no sanduíche. Parece muito bom se a intenção é passar a impressão de se estar mordendo um boi que está afundando num brejo, mas, cambada, vamos usar a boa e velha alface crespa, também calha bem uma americana, porque em time que se está ganhando não se mexe. Sério, é a primeira vez que eu vejo isso desde uma lanchonete na Bahia em que o x-burger custava um real.

O queijo é outra decepção. Longe de ter sabor de queijo, reduz o ingrediente a sua essência primitiva: gordura. O gosto é a pura gordura do queijo, como se você derretesse num prato no microondas, tirasse o queijo e bebesse o óleo que fica no prato. Passou do ponto, misturou com a fumaça da carne e usaram queijo sem graça para compor o Real Deal. Uma pena, a parte que eu mais gosto nos sandubas é o queijo.

Por fim, a carne. Quando vi o meu prato chegar, fiquei animado com a cara boa que ele tinha, e, uma um, os ingredientes foram se mostrando mais fotogênicos do que gostosos, como um sanduíche publicitário. A carne, porém, eu acreditava fielmente que não iria me decepcionar. Uma carne consistente e suculenta como aquela não podia ser de mentira. Bom, não é mesmo, mas nem de longe é tão boa quanto parece. O principal erro aqui é o gosto excessivo da fumaça na superfície, falha crassa de quem deixa queimar um lado pouco untado. Mais passado do que o suficiente, sem a suculência do interior, inutilizou a boa carne de Angus, cuja maior qualidade é a maciez e a capacidade de guardar mais e melhores sucos no recheio.

Uma coisa, entretanto, se salvou. As batatas fritas, gostosas, sequinhas e bem feitinhas, raras de encontrar por aí, só pecam por serem escassas como sempre. Mas é tanto desanimo e decepção que nem me animo muito a falar delas. No fim das contas, foi isso o resumo da visita ao Elvis Costella: uma grande decepção.

Ficha técnica:

The Real Deal Burger

Ingredientes: “Pão, hamburger de carne (Red Angus, 250g) de carne, queijo, tomate, pickles, cebola e maionese”.

Preço: R$24. Salgado como o mar morto.

Ponto alto: Não sei… a decoração? A fotogenia do meu lanche? Ah, e as batatas!

Ponto baixo: Falta de opções, pão seco, carne seca, alface lisa (!!!), queijo que é pura gordura e preço estratosférico.

Avaliação: E+

O Elvis Costella fica na Av .Manoel Ribas 396 “nas” Mercês, e funciona de segunda a sexta-feira das 11h30 às 14h30, de terça a sexta-feira das 18 horas às 23h30. Sábados, das 14 horas às 23h30. (41) 3618-7089.

 
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Publicado por em 08/30/2012 em Uncategorized

 

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