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Peggy Sue – Fats Domino

27 Set

BatelSempre me despertou a curiosidade a busca incessante de algumas civilizações pela harmonia, pelo equilíbrio. Enquanto todo e qualquer sistema econômico apresentado até então na história moderna buscou o contrário, abrir um canyon de diferença social, porque individualmente as pessoas buscam o enriquecimento pessoal, também individualmente buscam o equilíbrio em suas vidas. Os chineses, os indianos, os japoneses, os igbos, os babilônicos, e até os toltecas, pelo que parece, todos eles tinham nomes para essa hipotética balança cósmica que nunca pode pender para um dos lados sem depois pender para o outro. Arrisco dizer que o equilíbrio implica exatidão quantificativa, e a exatidão, por sua vez, acalma o ser humano, dá sentido ao mundo caótico ao seu redor. Seus ângulos retos vieram antes que Leonardo Fibonacci pudesse apresentar ao mundo a constante escondida por baixo de quase todos os movimentos naturais, seus sólidos perfeitos vieram antes que o primeiro olho visse a exatidão microscópica e alotrópica das moléculas rômbicas e monocíclicas, seus pratos a base de berinjela vieram antes que o tomate fosse introduzido na Europa, enfim, o homem busca equilíbrio sem, contudo, enxergar o equilíbrio a sua volta. A harmonia conforta porque é uma aproximação tautológica de nosso senso de medida, de nosso domínio resvalado sobre as coisas.

Tudo isso para dizer que o Fats Domino, sanduíche de alguma maneira despretensioso do Peggy Sue, diz aos meus sentidos de que aquilo é certo porque é harmônico. Todos os ingredientes casam como deveriam, e por mais básica que a combinação seja, não e um efeito tão simples de se conseguir.

Para quem não sabe, o Peggy Sue é um restaurante no Batel, na Avenida do Batel, um dos únicos lugares da cidade capaz de fazer aflorar em mim o típico ódio da luta de classes. O Peggy Sue é da mesma rede do Taco El Pancho, Soviet e Mustang Sally, restaurantes que promiscuamente fundem comida mexicana e comida americana – uma fusão tipicamente americana, diga-se – e decoram suas paredes e suas ondas sonoras com temas do rock’n roll e rockabilly, e etc. Aliás, havia uma taxa de couvert artístico no dia em que nós fomos, mas válida somente para os clientes do Taco el Pancho. O motivo? Um grupo de mariachis tocando ensurdecedoramente ao seu lado enquanto você come. Cada um com seu gosto…

A coisa boa de todos esses restaurantes é a opção de happy hour que corta pela metade os preços absurdos do cardápio e os tornam alcançáveis (não tão acessível, mas alcançável) ao bolso de pobres operários como nós. É o bastante para procurarmos o estabelecimento, não sem uma ponta de preconceito, formado em nossa desastrosa visita ao Mustang Sally, mas com a cabeça aberta o bastante para saber que restaurantes diferentes têm cozinheiros diferentes, receitas diferentes para pratos diferentes.

O cardápio do happy hour é separado porque DEUS ME LIVRE você abusar da nossa promoção e começar a pedir coisas caras de verdade, então só alguns pratos, que já são naturalmente baratos, entram na brincadeira. Os hambúrgueres são alguns deles. Misturas bem americanizadas, com cebola e cheddar, jalapeños e coisa e tal. Resolvi apostar no básico x-bacon, um lanche que sempre agrada (uma pena que judeus, hindus e muçulmanos nunca vão saber do que eu estou falando) pela combinação de carne picante e seca com carne suculenta e salgada, somado ao queijo e a saladinha que nunca machucaram ninguém também.

Os caras que nos serviam logo se ligaram no movimento e descobriram que a gente era crítico, e a partir daí foi um sim senhor pra cá, sim senhor pra lá, mas não me queixo porque o atendimento já estava muito, mas muito bom mesmo antes disso. Garçom simpático e agilizado, até serviu nossa coca e desejou saúde como se brindasse conosco. Pode parecer pouco, mas numa cidade fria e sem amor como Curitiba faz a diferença.

Algumas diferenças então para o sanduíche do Mustang Sally. Em primeiro lugar, o pão. Sai aquele pão com gergelim, seco porém fotogênico, e entra o mal diagramado pão careca com muita história pra contar. Por baixo, sai a fina e esquecível película de queijo e entra uma protuberante onda de laticínio que cobre a carne suculenta e no ponto. E, entre o queijo e a salada raladinha, o almighty bacon, cujo ponto só é acertado por mestres da fritura da carne suína, e acertaram.

E aqui chega o meu problema enquanto crítico. O Fats Domino é um sanduíche tão harmônico que a cada mordida eu sentia todos os sabores como um só. Nunca veio só tomate e nenhum bacon, ou só carne e nenhum queijo, ou só salada e nenhuma carne, a coisa fluía pra dentro da minha boca. Posso tentar comentar algumas coisas pontuais, mas como o que vale é o conjunto da obra. Por exemplo, o prato é apresentado com uma clássica salada de decoração. Não há nada de errado nisso. Mas o tomate que usaram para a decoração era feio de doer. Verde, murcho e desagradável. Em compensação, o tomate que estava dentro do meu sanduíche era vermelho e carnudo, bem mais apresentável do que aquele que deveria apresentar o prato. Acho que isso mostra caráter, e gostei, mesmo porque nunca como salada de decoração. Tudo bem que poderiam escolher melhor o tomate pra não ter nenhum verde horroroso como aquele por perto, mas já que o lance é economizar, que se coloque o refugo no lugar menos apetecível do prato.

Outra coisa que me chamou a atenção, como havia dito, foi o queijo. Os caras foram mais generosos com o queijo do que Hollywood foi generoso com o Harrison Ford. E esse é um ponto que eu venho levantando desde que começamos nossas peregrinações pelos bares da cidade. Queremos queijo e queremos muito, oras! O queijo do Peggy Sue é daqueles que dá pra puxar, que de tão esticado dá pra ficar um pedaço no sanduíche e o outro pedaço já no fundo do estomago, escorrido e derretido sem se partir ao longo do esôfago. Ô coisa boa e desesperadora ao mesmo tempo!

Por fim, ainda sobre a salada, achei boa a ideia da alface ralada. Distribui igualmente a salada por toda a superfície do sanduíche, mesmo a cada mordida dada. Muito melhor que alface lisa e certamente muito melhor do que rúcula. A ideia é essa, vamos aprendendo com os problemas que encontramos na prática, pra frente Brasil!

Ficha técnica:

Fats Domino

Ingredientes (segundo o cardápio): “Pão fofinho com um hambúrguer de tamanho respeitável, queijo prato derretido, maionese, fatias fininhas e crocantes de bacon e salada”

Preço: R$22,80 no preço normal. No horário do happy hour, com uma coca de garrafinha e uma água mineral totalizou R$21,90. Tá bom.

Ponto alto: Queijo em boa quantidade, pão macio, bacon no ponto e salada de boa qualidade.

Ponto baixo: Carne pouco memorável. Acho que é minha única queixa.

Avaliação: B+

O Peggy Sue fica na Rua Bispo Dom José, 2295 – Batel. (41)3014-9615
Happy Hour com alguns pratos com 50% de desconto Segunda a Sábado 17h30 às 20h e Domingo das 17h às 19h.

 
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Publicado por em 09/27/2012 em Uncategorized

 

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