RSS

Arquivos mensais: Novembro 2012

Clube do Malte – Zé Colmeia

Jamais colocaria meus pés num lugar chamado Clube do Malte. Ô nominho para me despertar antipatia. Observe a maestria da pusilanimidade: de um lado, “Clube”, como se convencionou chamar qualquer reduto exclusivo do macho adulto contemporâneo urbanóide domesticado. Aqui em Curitiba, para quem não sabe, tem até uma Barbearia Clube, um “salão de beleza masculino”. Depois o pessoal do Rio vem pra cá achando tudo isso muito esquisitão e vocês não entendem nada. Deixa estar; do outro lado, “Malte”, a redução metonímica digna do profundo conhecedor das coisas banais. Estamos nestes tempos das desprofissionalizações das profissões, onde qualquer um é artista, entramos em um bar qualquer e mergulhamos num mar de preguiçosos aspirantes a intelectual de classe média, em que há a vontade de se exibir sem qualquer formação erudita. E aí, é claro, ler rótulo vira passatempo nacional. De uma hora para a outra, todos passaram a entender as nuances da fabricação de cerveja. O papel do lúpulo, a temperatura de armazenamento, o processo de fermentação, e voilá: uma espiral de ignorância girando sobre um mesmo enfadonho e repetitivo assunto. E antes que alguém possa vir acusar este perspicaz recinto dos mesmos crimes suprarelatados, eu digo: acorda, ô mané, isso aqui é o ensaio das pequenas coisas, sinédoque da vida, e só você ainda não percebeu isso.

Mas é claro, coloquei meus pés no Clube do Malte (argh! Esse nome!) porque, veja bem, anunciaram por aí que o lugar havia inaugurado uma “carta” (para prosseguir no pedantismo) de hambúrgueres, e os amigos botaram pressão, e missão dada é missão cumprida, e etc etc e etc. E lá fomos. Primeira decepção: depois de uma semana anunciando a porcaria da carta de hambúrgueres, chegamos lá e o garçom nos recebe com a desculpa: “vocês viram na internet, né? Ainda não temos os hambúrgueres, mas voltem aí na semana que vem”. Amigo, se você soubesse o quanto eu tive que caminhar (a pé mesmo) só para ter sobre o que escrever naquela semana em que o seu Clube do Malte era a bola da vez, você ia ter me descolado um hambúrguer. Nada me frustra mais, na minha miserável vida de consumidor, do que esse tipo de coisa. Mesmo assim, voltamos lá depois de fazer a ronda no Charles Burger (calcule a distância a pé, saindo do Shopping Estação até o Clube do Malte, até o Charles Burger e você vai entender meu descontentamento), e descobrimos mais sobre o lugar e seu cardápio.

Os nomes e os burgers: heterodoxos e estranhos. Batizados em homenagem a desenhos animados das mais diferentes épocas, dos mais diferentes níveis de qualidade técnica. E aqui entramos num impasse: só provamos, afinal, hambúrgueres bovinos porque, oras, qualquer sujeito que pegar qualquer bicho, matar, colocar num pão e chamar de hambúrguer é um doidivanas que merece não outra coisa que uma prosaica noite de sono trancafiado em uma cela acolchoada. Escolhi então um que chama Zé Colmeia, um dos meus desenhos menos favoritos de todos os tempos (eu sei que estou muito irascível hoje, mas prometo que vou melhorar mais pra baixo). Aquela coisa de produção em série de desenhos animados da Hanna-Barbera, com cenários que andam em loopings e personagens desnecessariamente usando gravatas, encharpes e golas altas para esconder a diferença da célula da cabeça para o resto do corpo me dava um nojo de quem já sabia ter ali, naqueles paupérrimos desenhos, o esgotamento de qualquer maravilha que o subgênero já prometeu proporcionar. O Zé Colmeia em questão é um hambúrguer de carne de costela, bacon, queijo, cebola caramelizada e molho barbecue, acompanhado de batatas rústicas. Muito tempo depois, eis o que me chega:

Clube do Malte

A partir deste momento, minha raiva inerente contra o Clube do Malte começa a ir embora. Como não ceder a uma apresentação impecável dessas? Sinto pena dos que confundem simplicidade com frugalidade, porque isso aqui tem, como diria Freud, tudo o que o corpo precisa. Um bom pão de hambúrguer abrigando uma carne grossa e de respeito, queijo derretidíssimo cobrindo a joia interior, um potinho de barbecue para que você customize como achar melhor e uma batata cortada, cozida e frita com casca e tudo. Uma delícia que nem precisa de sal.

E aí percebemos que a carne de costela não está, afinal, tão longe de um hambúrguer bem feito, por guardar em si dois dos principais ingredientes básicos de uma boa carne de sanduíche: sal e gordura. Sob as condições certas e os temperos certos, o resultado é este: uma carne rosada e suculenta que não toma para si toda a responsabilidade pelo sabor do todo, mas se sabe protagonista de uma disputa gustativa em que carboidrato e laticínio nenhum jamais poderia vencer.

Mas o pão não fica atrás. A farinha que salpica a crosta lembrou-me dos pães que comi em Portugal – aquele povo sabe mesmo fazer pão – e, ainda que seja crocante, não é duro nem espeta o céu da boca. O miolo serve para absorver a gordura excedente do queijo e o sangue da carne, tomando para si os sabores numa antropofagia de dar inveja a Oswald de Andrade. Sem desprender nacos que culminassem numa desproporção entre as mordidas, o pão manteve sua integridade e não nos deixou a ver navios de mãos sujas.

O queijo, por sua vez, faz bem o papel de envelope da carne, cobrindo toda a superfície de cima e parte dos lados. Adiciona sal, sim, mas adiciona consistência e elasticidade ao bolo, sem, contudo, torná-lo borrachudo. É uma mussarela simples, poderiam ter escolhido algo mais estranho pra combinar com as estranhezas do cardápio, mas resignei-me certo de que em tempos estranhos, qualquer traço de familiaridade é uma tábua de salvação referencial.

Por fim, a cebola insossa só tomava forma e proporção se misturada ao barbecue, que poderia ser igualmente usado na batata rústica. O barbecue em questão age como coringa: ora apimentando os tubérculos coadjuvantes, ora salgando o bulbo picado que adiciona textura e resiliência à mastigação. Poderia vir no sanduíche, mas já que veio no potinho, cabe ao bom comedor juntar dois mais dois e formar um vibrante quatro.

Ah, claro, o bacon, já ia me esquecendo. Bom, bacon é bacon, até quando é ruim é relativamente bom, e o desse sanduíche estava muito bom.

O Clube do Malte, com este Zé Colmeia, se redime de todos os pecados e entra na fina elite das hamburguerias top da cidade.

Ficha técnica:

Zé Colmeia

Ingredientes: “Hamburguer de ponta de costela bovina, bacon defumado e temperos frescos. Servido com cebolas caramelizadas, molho barbecue e mussarela. Acompanha batatas rústicas do Clube do Malte.

Preço: R$18,90 (preço único para qualquer hambúrguer, isso é legal)+ coca-cola lata ficou R$23,98.

Ponto alto: A carne, quantidade de queijo, o pão perfeito e.. eu mencionei que ele é monstruoso de grande?

Ponto baixo: Coisas triviais como a péssima escolha do nome e o acento agudo em ditongo crescente. Não adianta nada entender de cerveja e não saber escrever português, afinal. Mentira, adianta sim.

Avaliação: A

O Clube do Malte fica na Rua Desembargador Motta,2200, próximo da Vicente Machado. (41) 3014-3414.

Anúncios
 
2 Comentários

Publicado por em 11/29/2012 em Uncategorized

 

Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , ,

Clube do Malte – Johnny Bravo

Para quem não ficou sabendo, essa semana participamos do programa Light News, na rádio Transamérica Light (FM 95.1). O tema da semana (que ainda está rolando) é “Você tem fome de que?”. Por isso fomos chamados para falar junto com o Junior Durski, do Madero, sobre o blog e a nossa jornada pela cidade em busca do hambúrguer perfeito.
Logo colocamos aqui o áudio da entrevista para quem quiser nos ouvir falando abobrinhas, se bem que não fomos bem nós que falamos umas abobrinhas.

Agora o post da semana!

Apesar de ser jovem e estúpido, tenho uma relutância quanto ao consumo de álcool, mas isso (felizmente) não me impediu de ir a um lugar onde sua razão de ser é a cerveja. Assim como fomos ao Motodax e não temos motos, e lá até fundamos os Pinhões do Asfalto.
Sendo assim podemos fazer o que quisermos desde que mantenhamos a dignidade em dia… coisa que alguns, quando bebem, não sabem muito como é.

O Clube do Malte é um lugar especializado em cerva, bera,breja, gelada, etc. Lá você vai encontrar uma caralhada de opções de “cervejas especiais”. Cervejas de todos os lugares para todos os gostos e bolsos. Acho que um lugar desses deve servir para separar a garotada que bebe para ficar ainda mais idiota, das pessoas que bebem em busca de sabores diferenciados e que trocam a quantidade pela qualidade…e também para reunir uns malas “entendidos” no assunto do malte, do lúpulo e afins.

Mas vender cerveja é fácil, tirando cerveja caseira das tiazinhas polacas do interior, o resto é quase tudo industrializado e a maioria importada, ou seja, já vem tudo pronto é só servir e faturar. Mas hambúrguer, mermão, tem que colocar a mão na massa, não é tão fácil assim, embora um hambúrguer seja uma coisa muito simples.
E nessa os caras do Clube do Malte foram corajosos e inovadores. Não tem sanduba simples, não tem nem uma versão do clássico X-Salada. Tem hambúrguer de linguiça Bizinelli, de carne suína, de costela bovina com bacon, de proteína de soja e verduras, de frango, e o (WTF!) hambúrguer de feijão amendoim processado com carne moída e temperos mexicanos. Sentiram a pressão da inovação?

Os sanduíches tem nomes de desenhos animados, achei meio fora do contexto e meio bobo isso, mas sei lá né, vai ver o cara quis agradar o filho.

Tem um lance que envolve essa onda de cervejeiros e hamburgueiros que, quando se juntam, me da uns três tipos de ódio. Não aguento alguém falar de cerveja para harmonizar com o prato tal. Na boa, enfia a harmonia no… gargalo!
Mas para não reclamarem que fazemos o serviço pela metade, para acompanhar o sanduíche com carne de carneiro, pegue uma tipo Fullers Pale Ale, a London Pride ou uma australiana com um amargor equilibrado, porém encorpado, tipo uma das Coopers Vintage Ale. #FicaDica. Viram como é mala esse papo de entendido no assunto?

Agora, com vocês, Johnny Bravo. (viram como fica tosco o nome de desenho).

Meio desmontado né, olha o cuidado na apresentação aí galera!
Mas foi só realocar a capa e ficou tudo certo.

Vou direto falar do principal. A carne de carneiro. Confesso que agora entendi a diferença de cordeiro e carneiro, e digo que prefiro o cordeiro. Engraçado como o carneiro tem mesmo um gosto mais maturado, assim como o próprio bicho, um gosto mais acentuado, não tanto aquele gosto adocicado e jovial como o cordeirinho que saltita pelo campo (“os vegan chora”). Em suma, acho cordeiro mais saboroso, mas carneiro tem seu charme e talvez combine mais com cerveja mesmo. Isso mostra que a escolha do cheff foi realmente pensada. Tiro o chapéu.
É uma baita porção de carne com dois dedos de altura que por ser tão grande e para deixar no ponto, por fora ficou uma crostinha gostosa quase querendo queimar, e por dentro uma carne rosada, macia e no ponto.
E assim como o grande quantidade de carne, tinha uma boa quantidade de queijo mussarela, não ficaram regulando como na maioria dos lugares, o queijo abundante cobrindo a carne fez colar a parte de cima do pão na carne e assim manteve tudo junto e unificado, facilitando na hora de comer, não foi aquela história do pão que escorrega e acaba antes do recheio.

E por falar no pão, é uma bolinha gordinha do tipo francês, mas não com casca quebradiça. É coberto com uma camada de farinha, tipo um pão ciabatta, que particularmente me incomoda na hora de segurar, fica meio seco, uma textura áspera e ruim … mas isso eu sei que é frescura minha.

Tudo isso é acompanhado de um potinho com molho de hortelã, bem gostoso, que além da hortelã, chuto suco de limão e maionese na composição. É o tipo de coisa que combina bem, alecrim com cordeiro, hortelã com carneiro, essas carnes combinam muito com algumas ervas.

E o segundo complemento: pedi para trocar os anéis de cebola empanados por batatas. E que alegria, desde o começo do blog estou procurando um lugar que tenha batata frita assim, de verdade.
São as chamadas batatas rústicas, batatas pré cozidas, cortadas em pedaços grandes e fritas com casca e tudo.
Isso é batata de verdade, nada daquilo industrializado e meio sem graça que tomou conta de quase todos os lugares. Fica com o interior macio da batata cozida, e com a casca morena, por fora poderia estar um pouco mais crocante e menos gordurosa, mas tá valendo, estava bem boa. Devia ter até mais de uma batata inteira como acompanhamento. Isso realmente me deixou feliz.

Ficha técnica:

Johnny Bravo

Ingredientes: “Hamburger de carnes selecionadas de carneiro, temperados a moda do Clube do Malte e servida com molho especial de hortelã e queijo mussarela argentino. Acompanha anéis de cebola empanados”.

Preço: R$18,90 (preço único para qualquer hambúrguer, isso é legal)+ coca-cola lata ficou R$23,98

Ponto alto: A carne, quantidade de queijo, as batatas de verdade! Quase tudo na verdade..

Ponto baixo: Talvez o sanduíche ter vindo meio escangalhado e o preço.

Avaliação: B+

O Clube do Malte fica na Rua Desembargador Motta,2200, próximo da Vicente Machado. (41) 3014-3414.

 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 11/22/2012 em Uncategorized

 

Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Charles Burger – Concept B CCO

Antes de começar o post de hoje, um pequeno recado: na próxima segunda-feira, às 8h da manhã, eu e Murilo falaremos sobre o Good Burger, no programa Light News, da Transamérica Light (95.1 FM). Ouça-nos que vai ser legal!

E vamos ao que interessa.

Fiz o meu soulsearch antes de optar por escrever sobre um hambúrguer imaginário como Joana de Canudos. Não seria justo com o estabelecimento julgá-lo por um lanche que eu mesmo criei a partir da liberdade que o Charles Burger dá para quem quiser pagar individualmente pelos ingredientes, mas acho que poderia assumir parte da responsabilidade pela receita enquanto a casa assumiria sua culpa pelo preparo, e dessa forma, não furtaríamos a esse espaço experimental mais esta invenção.

Ora, a esta altura do campeonato já rodei por muitas hamburguerias e experimentei combinações inusitadas. Algumas contidas, outras nem tanto, algumas saíram da curva do bom-senso, outras se resolveram com apostas mais certeiras do que comprar títulos do tesouro nacional. Mas nem todas resolveram meus questionamentos gastronômicos, os “e se…” que acumulei ao longo deste período. Mas eis que vem o Charles Burger, em uma noite de andanças militares de doer a canela (obrigado, Murilo, por me fazer caminhar por três bairros inteiros. Os taxistas não pegam um passageiro com a cara dele na rua, vejam vocês o preconceito, gente), a me oferecer a porta para os segredos da cozinha instintiva.

Funciona assim: você escolhe o tipo da carne e os ingredientes em uma longa lista que compartilho com vocês. A ideia serve para curiosos ávidos como eu, mas também poupam um eventual descontentamento com um conveniente “foi você que escolheu essa mistureba aí” por parte do cozinheiro. Bom, deixemos que cada culpa recaia sobre seu réu conforme manda a jurisprudência ética das lanchonetes. Eis o cardápio.

Charles Burger

Bom, diante dessas opções, vou explicar o que tentei fazer. Primeiro, dada a pouquíssima quantidade de carne do hambúrguer, achei por bem pedir logo dois. 240 gramas é bastante, mas, convenhamos, já enfrentamos colossos maiores por aqui. Então, resolvi adicionar quatro ingredientes: ovo, Catupiry™, maionese e champignon. Basicamente, um degradê de texturas. Na forma como eu imaginava na minha cabeça, haveria a porosidade do pão, seguida da porosidade cremosa do ovo, seguida da cremosidade coloidal da maionese, seguida da cremosidade encorpada do Catupiry™, seguido da singular e macia textura do champignon, encerrado com a fibrosa e suculenta carne que encerraria este carnaval de ritmos em descompasso. Imaginava que esta seria a receita que o Fifities gostaria de fazer, mas não teve a competência para tal, e já tinha grandes expectativas quando me chega esta coisinha aqui:

Concept B CCO

Já leram Reparação, do Ian McEwan? A menina Briony Tallis está escrevendo uma peça para comemorar o retorno de seu irmão à casa, e parece que tudo vai bem até que começa a depender dos atores, seu priminhos, completamente despreparados para a dramaturgia, e a coisa desanda como era de se supor. A sensação aqui é parecida. Meu Gedankebild foi arruinado pela prática mesquinha dos hambúrgueres congelados, do Catupiry™ falsificado, do pão industrial e do champignon fatiado, sem falar no plastiquinho, o niqab dos sanduíches feios.

Veja, tudo o que eu queria era que isso fosse feito com o menor nível de intervenção industrial possível, mas eis que o contrário acontece. O pão tem um gosto envelhecido, de quem ficou mal guardado num armário mofado, a carne congelada sempre está fora das proporções necessárias para criar um miolo suculento e agradável, e pra piorar ficou esturricada demais, como é possível perceber com a foto. O Catupiry™ não é Catupiry™, é aquela porcaria de pasta industrial sabor queijo, rala e porosa, que os tios das barraquinhas de hot dog colocam no prensadão de R$3,50. E o champignon foi fatiado em tiras finas, impossível de se aproveitar sua consistência delirante. É sério, o truque é pegar brotos pequenos e colocá-los inteiros no prato. O estipe dá um contraste animal com o chapéu. Apenas o ovo saiu mais ou menos como o previsto. Mas também, filhão, não saber fazer um mísero ovo frito é pedir pra mudar de carreira, né?

Mas eis que um ingrediente esquecido, pelo qual ninguém dava nada, começa a falar mais alto nessa tragicomédia de desastres à lá McEwan, provando que nem tudo está perdido: a maionese sublime, vejam vocês, não é industrializada, mas uma criativa mistura caseira a base de outros ingredientes, infelizmente camuflados demais na pasta uniforme. Uma leve camada de maionese ao fundo preencheu o hambúrguer conceito inteiro de sabor, e deu para descer essa catástrofe gastronômica que, ainda tenho esperanças, pode ser muito boa se bem executada.

No final, assumo minha responsabilidade por sair da área de expertise do Charles Burger e aventurar-me em um conceito de sanduíche cuja evolução tecnológica ainda não atingiu seus patamares desejáveis. Como quando George Lucas resolveu deixar para filmar o Episódio I quando já tivessem sido inventados efeitos especiais convincentes e, quando a parada pôde ser feita, tudo foi arruinado por Jar Jar Binks e uma péssima escolha de elenco. A vida tem dessas.

Ficha técnica:

Concept B CCO

Ingredientes: Dois hambúrgueres de 120g, Catupiry (sem ™), ovo, maionese e champignon.

Preço: R$18,30 (os ingredientes são caros individualmente, como se pode observar) + Coca em lata de R$3,50 (um centavo por ml, vejam vocês) + 10%. Total: caro.

Ponto alto: A maionese e a liberdade de escolha.

Ponto baixo: Todo o resto, a começar pelo preço.

Avaliação: E

O Charles Burguer fica na Rua Cândido Hartman, 392. Segunda à quinta 18h-23h. Sexta-feira das 18h às 24h, sábado das 18h até às 02h e domingo das 18h às 23h.  (41) 3339-4771.

 
3 Comentários

Publicado por em 11/16/2012 em Uncategorized

 

Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Charles Burguer – Cheese Creme de Milho

Charles Burguer, segundo eles, desde 1995, deve ser das mais antigas casas de hambúrguer da cidade. Talvez perca apenas para o Kharina. Ainda que não seja tão conhecido, e que eu não o tenha conhecido até esses dias, é das antigas, então há de se respeitar.
Charles me lembra diretamente a história de Charles Menezes, de 8 anos, o Charlinho que pode ter crescido e migrado para Curitiba onde abriu o Charles Burguer.  E também me lembra outro Charles de Menezes, o Jean Charles (R.I.P), o brasileiro “bem” recebido pela polícia britânica em um metrô de Londres com 7 tiros na cabeça. No climão triste e sofrido da vida dos Charles, o estabelecimento tocava um cd inteiro do Radiohead (e coincidentemente agora enquanto escrevo isso aqui está passando um especial do Radiohead na TV).

Fui de Cheese Creme de Milho. O creme de milho, que dá o tom dominante do lanche, era, na minha cabeça, como um creme meio grossinho, granulado e de cor amarelo claro, colocado numa pequena porção em cima do hambúrguer, tipo um curau ou uma pamonha mais molinha, ou até mesmo uma polenta como disse o Yuri enquanto pensávamos nas possibilidades dos cremes de milho. Essas eram as imagens mentais que criei do negócio, e aí olha só o que me chega na mesa.

Pensei em não colocar a foto para que vocês também pudessem fazer a mesma cara de “What The Fuck is This?!”, caso fossem experimentar esse sanduba.
Mas como eu não estaria lá para ver a cara de vocês, não teria tanta graça, então taí o bicho! Fiquei tão surpreso que nem sabia como fazer a foto.
Tá certo que às vezes pareço um mendigo, mas um hambúrguer com sopa de mendigo eu não esperava.

Dessa vez fui querer inovar, experimentar o diferente… e só serviu para me convencer a ficar no tradicional e manter minha missão de ver se os lugares acertam no clássico para depois querer experimentar alguma extravagância.
O creme de milho na verdade é um mingau com queijo e grãos de milho. Mingau, aquela base de amido de milho (maizena) e leite, que se colocar açúcar e canela fica um doce, e se colocar queijo, uma pitada de sal e milho, vira o Creme de Milho do Charles. Que na verdade é creme com milho, não de milho.
Imagina comigo a montagem do sanduíche(segunda vez no post que digo as coisas que imagino, sou muito imagético e imaginativo). Coloca no prato a parte de baixo do pão, aí carne e talvez um pouco de queijo (não consegui perceber o queijo), e aí vem uma avalanche de creme sendo derramado com uma concha em cima do hambúrguer, escorrendo e tomando conta de todo o prato, o hambúrguer e o pão de baixo, então é colocada a parte superior do pão e voilá.
E aqui volto a lembrar do Charlinho. Acho que esse mingau deve ser o que ele comia quando criança na escola, quando conseguia ir para aula, e anos depois tentou (sem muito sucesso) adaptar para um hambúrguer.

O pão é um pão de hambúrguer com um punhadinho de gergelim no alto e no meio, estava macio, bem fresco, do dia mesmo. O pão serviu mais para comer com o creme, tipo pão com sopa, e não tanto como um “pão de hambúrguer”,  com a funcionalidade que Deus lhe deu quando o criou.

Agora a parte boa da jogada, achei a carne muito boa, temperada, tenra e úmida, sem estar escorrendo e fazendo aquela zona, bem do jeito que o Diabo a gente gosta.
Mas 120g é muuuito pouco, isso é porção para meninas e crianças. 160g deveria ser estabelecido pelo IPEM como o mínimo para um bom hambúrguer. Até pensei em pedir dois hambúrgueres, mas achei um pouco caro (R$5,50) por uma carninha extra, e até então eu não sabia que era boa.

E é isso, são três ingredientes apenas(o queijo só percebi derretido no “creme”), um lanche meio janta, meio comida de doente, de gente velha, com uma bela pequena carne perdida num mar de mingau. Para quem não quer se aventurar, recomendo outra opção.

Ficha técnica:

Cheese Creme de Milho

Ingredientes: “Hambúrguer, queijo derretido e creme de milho”.

Preço: R$11,90 +  coca-cola lata  R$3,50 + 10%.

Ponto alto: A carne.

Ponto baixo: A bizarrice do “creme de milho” que toma conta de todo o prato.

Avaliação: D+

O Charles Burguer fica na Rua Cândido Hartman, 392. Segunda à quinta 18h-23h. Sexta-feira das 18h às 24h, sábado das 18h até às 02h e domingo das 18h às 23h.  (41) 3339-4771.

 
1 Comentário

Publicado por em 11/08/2012 em Uncategorized

 

Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Motodax – Club Sandwich

You want the greatest thing
The greatest thing since bread came sliced

Esses versos são da música Imitation of Life, do R.E.M., uma banda esquisita que costumava fazer sucesso há um tempo. O vocalista é um tresloucado, uma versão careca e alienígena do Renato Russo, que canta frases como essas com uma suavidade agressiva, uma coisa difícil de ser explicada. Longe de ser uma banda de rock tradicional, o R.E.M. tinha, ainda assim, uma atitude rebelde que era possível ser entrevista por baixo daquele aparente bom mocismo. A atitude do vocalista, esse Renato Russo alienígena cujo nome não sei nem quero saber, parece ser o artigo mais raro nas bandas de hoje em dia. Há todo o entorno: a pose, as palavras-chave, a aparência, o artificial brilho nos olhos de quem pensa em mudar o mundo. Mas aquela atitude objetiva não. Estamos vivendo, nestes tempos malucos em que um ex-KLB começa a lutar MMA, uma imitação da vida, como cantava o R.E.M. Temos o repertório de tempos doutros, temos a vaga ideia do significado das coisas, mas não há o mojo, a essência natural dos objetos. Tempos, portanto, bares decorados para parecerem um boteco de beira de estrada, em que se pode pagar 30 reais num frango à passarinho, temos um empório que simula um antigo armazém, e temos lanchonetes (já descritas aqui, aliás) com decoração grandiloquente inspirada na cultura motociclística. Entretanto, o interior é a mesma coisa: a playboyzada, o público interessado nessa imitação da vida, no saudosismo de uma liberdade nunca experimentada, na fuga da realidade para uma segunda e humanamente mais perfeita realidade, moldada aos gostos e aos complexos e às fobias do homem moderno.

Mas eis que, na nossa andança para mapear o hambúrguer de Curitiba, encontramos a atitude certa, a sinceridade quem ninguém mais quer ter. O Motodax, este sim, um verdadeiro point de encontro da irmandade motociclista. Longe do estereótipo das caveiras, das longas barbas grisalhas, das tatuagens pelos braços e as caras enfezadas. De fato, a única coisa que resta desse modelo ultrapassado de bad-boy da estrada são as motos customs e as rotundas panças. Isso porque quem gosta de moto gosta do prazer de viver a vida, e comer é, como todos sabem, a segunda necessidade fisiológica mais prazerosa que existe. E, obviamente, um lugar desses não apostaria no gourmet, na frescurite de quem quer vender carne de segunda por 30 reais, mas em algo realmente de qualidade, para saciar as esféricas barriguinhas enquanto a moto recebe um trato. Foi aí em que apostamos as fichas de uma quarta-feira que tivemos para nos dedicar a essa missão.

E olhe só que beleza! Justo a quarta-feira é o dia de promoção do Motodax, com pratos pela metade do preço. Esse lugar já começou a ganhar meu coração. É claro, algo tão tentador não poderia resultar em algo diferente do que falta de cadeiras, “dá uma licencinha, amigo?” e afins. Tudo bem, eu espero que as pessoas realmente tomem proveito desse tipo de situação. Nada pior do que oferecer um agrado à população e ser quantitativamente rejeitado. Não espere nada menos que o sucesso.

O cardápio de hambúrguer é relativamente diminuto, mas como o lugar se apresenta como um “café” e não como uma “hamburgueria” (se é que essa palavra realmente existe), as quatro opções formam até um grupo considerável. Não pestanejei para escolher logo a opção mais pantagruélica do recinto, o Club Sandwich.  Esse nome é genérico. Os sanduíches “club” geralmente são uma modalidade em que o hambúrguer vira uma refeição aberta em um prato. O arroz se transforma no pão, a carne é aquele bom e velho disco suculento, as batatas fritas e a salada ocupam o lugar de sempre. Tão nutritivo quanto o seu bandejão diário, na teoria. Mas o Club Sandwich do Motodax não é tão ordinário assim. O prato é incrementado com bacon, cheddar e cebola frita no molho shoyu. Nada parecido com seu bandejão diário.

Como o Murilo gosta de dizer, “tá aqui o bicho”.

Motodax

E que beleza de sanduíche, meus amigos! O combo queijo cheddar e cebola frita no molho shoyu nunca falha — prova disso é a adoção da receita pelo McDonald’s com o Cheddar McMelt, receita tradicionalmente brasileira na rede americana (não tentem procurar esse sanduíche fora do Brasil). A cebola aqui era fininha e cortada em rodelas, uma ótima opção de formato se considerarmos o princípio básico de aderência na relação tipo de massa/molho. Assim como o spaghetti, o bavette e o spaghettini, a cebola fina aglutina sobre sua superfície mais shoyu, um molho ralo e pouco encorpado como o sugo, numa relação equilibrada entre líquido e corpo sólido. Mas de nada adiantaria sem o cheddar certo.

Quem come muito queijo cheddar sabe que existe um bom queijo cheddar processado para cada dez mil porcarias que imitam queijo cheddar processado, o que é triste por si só. É claro, aqui no Brasil nunca teremos a coisa de verdade, o queijo cheddar fatiado, 100% britânico, mas temos diferentes níveis de textura e sabor num mesmo tipo de massa imitativa. E o cheddar do Motodax é escolhido a dedo, muito saboroso e pouco enjoativo – algo difícil para os queijos cheddar em geral.

A melhor coisa dos queijos processados é a forma como eles se distribuem por cima da carne. Algo mais fenomenal ainda quando a carne em questão é uma senhora carne, daquelas mãozadas generosas que fazem um bolo feito para ter camadas de crosta, manta e núcleo como o globo terrestre itself. Suculento e no ponto certo, a carne é a cartada que garante a vitória, mas os periféricos são fundamentais também, ora essa.

Agora, a grande surpresa, inédito para mim, foram as batatas fritas. Nada de muito extraordinário, só o fato delas terem gosto de Pringles sabor páprica. Um achado realmente, harmonizou com o sabor forte do cheddar e da cebola, fez um prato coeso. Nada pior do que mergulhar uma batata insossa num pedaço de queijo cheddar e fazê-la incorporar todo o sabor do queijo. Prefiro assim, cada qual com sua identidade marcante.

Ah sim, o pão e o bacon. Gostei deles também. Como o Murilo disse, o pão parece o do barba, e o bacon não era seco nem cru.

No final, o Motodax é um lugar relativamente desconhecido da população em geral, e por isso acaba se tornando uma boa descoberta para quem está atrás do sanduíche ideal como nós. Saí de lá satisfeito por ter encontrado, naquele combo de pão, carne, queijo, salada e batatas, a originalidade e a atitude do Renato Russo careca. Daysleeper, ou, como eu entendia quando criança, Tasty Burger!

Ps: Obrigado ao leitor Átila Gonçalves pela dica do lugar!

Ficha técnica:

Club Sandwich

Ingredientes: “Pão, hamburger motorcaffe de 180g, queijo cheddar, bacon, cebola, alface, tomate e maionese.

Preço: R$18,00 mais uma coca-cola lata de R$3,50. Total de R$12,50, graças à divina promoção.

Ponto alto: O tamanho, o preço, o lugar legal, bom atendimento, batatas sabor páprica.

Ponto baixo: Nada que tenha me chamado a atenção.

Avaliação: A

O Motodax fica na Rua Conselheiro Laurindo,2935, no Prado velho, mais ou menos perto do Tetro Paiol. (41) 3333-3077.

 
9 Comentários

Publicado por em 11/01/2012 em Uncategorized

 

Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , , ,