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Alta Voltagem – Jazzmaster

14 Dez

Alta Voltagem

Ora, que ideia genial! Como ninguém nunca pensou nisso antes? Vou retomar um pouco parte do raciocínio de meu post anterior – não que eu esteja virando uma flor de obsessão nem nada, mas eis que o assunto se faz pertinente mais uma vez: estamos em uma época de preciosismos, e as pessoas cultuam os objetos antes de cultuar a técnica. O fenômeno é particularmente apreciados por tecnocratas de meia tigela. Qualquer forma de arte, ou meramente qualquer forma de expressão que dependa mais da máquina do que do operador para alcançar um resultado medíocre, está aí a praia desses sujeitos. Comumente a fotografia, mas quem não investe em um MacBook pra desenhar no Corel? Quem não curte uma caixa de lápis de cor Caran d’Ache, dizendo “agora sim, vou poder expressar toda a minha arte”? Esse é o mesmo tipo de gente que acredita nos milagres propagados pela Polishop, mas reduzido a um microcosmos de utensílios que diferem do resto das bugigangas por, ao contrário das propagandas da Polishop, realmente serem do apreço também de profissionais fodões. Obviamente, as guitarras também entram nesse grupo, de maneira muito mais pornográfica do que o resto. Ora, o moleque vê seu ídolo tocando em uma Flying V (não importa qual Flying V), que é uma guitarra que só serve pra quebrar na pontinha, e ele vai lá e compra uma também, achando que vai conseguir um som daqueles. E se não, completa ainda com um porrilhão de pedais que cola numa maleta com velcro, fica parecendo um jogo de tetris gigantesco, cheio de bloquinhos coloridos entupindo a vista.

Falei tudo isso para falar que estava demorando transpor os nomes das guitarras para outras coisas, e mais ainda para hambúrgueres, já que estamos careca de saber que este é um universo gastronômico saturado por rock n’ roll, motocicletas, pin-ups gordinhas, abrigos nucleares, cura incipiente para paralisia infantil e qualquer outro elemento retirado da cultura dos anos 50. Se guitarras e hambúrgueres ornam bem? Essa é uma pergunta cuja resposta, como diria Dylan Thomas, ou Bob Dylan, ou Bob Dole, nunca lembro, está soprando no vento. O que nos interessa aqui é um cardápio de guitarras, e a minha escolha foi a última do racking. Jazzmaster, aquela guitarra metida a esquisita, tipo meio galã francês – feia, mas bonita – e usada por gente do naipe de Sonic Youth (um dos drogadinhos lá, não sei quem é quem, só sei que roubaram a guitarra dia desses), Smash Mouth, Robert Smith do The Cure (combina com o batom dele) e adjacentes. O hambúrguer em questão é um petardo de 240g – talvez a maior pesagem que já tivemos por aqui – e, o melhor: recheado de gorgonzola! Acompanha ainda dentro do pão molho de cerveja preta, alface e tomate. De maneira que, veja, tenho fortes razões para acreditar que o motivo desta guitarra em particular ter sido escolhida para batizar esse hambúrguer tão incomum vai além da esquisitice da forma e da fórmula, mas é, antes de tudo, um destrinchamento  do nome: o mestre do jazz. O que é o jazz senão essa improvisação louca que, em mãos hábeis, separa um caos melódico de uma obra de arte com remembranças de esboços de flamenco. Separa um Ornette Coleman de um Cannonball Adderley ou um Richard Kleiderman de um Bill Evans. Enfim, a habilidade de pegar algo que daria muito errado e fazer dar certo. É só o que vejo quando o chef de um estabelecimento resolve rechear carne com queijo gorgonzola, que tende a impregnar todo o seu entorno, e ainda regar seu disparate carnívoro hidropônico com molho de cerveja escura. Esse é o verdadeiro mestre do jazz, e o resultado está aqui.

Jazzmaster

Há algo que me intriga nessa foto, e é o quanto ela parece fora de escala. Olhando daqui, o Jazzmaster parece um mini-sanduíche, algo retirado talvez da Galeria Lúdica. Mas acredite, é uma das maiores monstruosidades que já comi em todos esses anos nessa indústria vital, e os 240g supracitados não deixam mentir.

Bom, não há como não se derreter como um glutão ditirâmbico, porque, afinal de contas, esse sanduíche tem tudo o que o meu coração pede — e quando digo coração aqui refiro-me ao órgão metafísico que impulsiona o amor, não a bomba de sangue que entope com gordura, veja bem — porque tem queijo em grande quantidade e qualidade, carne suculenta de primeira (e já falei que ela é recheada?), molho de cerveja, batatas impecáveis e um potinho com molho barbecue que, vamos combinar, em se tratando de hambúrguer, deveria ser algo tão obrigatório quanto embalar canudinho em papel.

É claro que a receita transbordou-se ante sua malemolência líquida, é como pedir para uma água viva segurar sua água (é uma piada que só faz sentido em inglês, eu acho), mas nem por isso a coisa virou uma sopa eslava em que tudo perdeu sua propriedade. É algo até admirável ver tanta liquidez contida pela carne, uma coisa bonita mesmo, como a luz da manhã que bate nas gotas de orvalho na península de Izu, só que com um gostinho de carne e gorgonzola que ninguém em sã consciência dispensaria.

Aliás, colocar a gorgonzola dentro da carne foi coisa de gênio mesmo. Para os que dizem que o queijo é muito forte e contamina os outros aromas, a solução resolve perfeitamente o problema. Há o gosto marcante do blue cheese italiano sem a disputa   que normalmente testemunhamos neste tipo de prato. E obviamente não é mais o gorgonzola em seu estado puro, mas por outro lado, preciosismos como esse só levaram puristas para camas solitárias sem ninguém para transar com eles. O bom da comida é transformá-la, afinal. Pegar um bicho morto e fazer um troço suculento como esse é uma arte, Nonato! E os ingredientes são as nossas tintas, mas chega dessa paráfrase porque só de pensar na atuação do Carlo Briani já me embrulha o Estômago (rárárá!). Enfim, gorgonzola carne = bom.

A alface aqui serve muito bem também dentro dessa lambuzeira de sanduíche que, confesso, pela primeira vez tive que abrir mão da minha virilidade para comê-lo de garfo e faca. O mato e seu gosto pela seiva puxa os sucos para si e restabelece a ordem entre os estados da matéria. Não que um tomatinho não acrescente também sua dose de água, mas nada que comprometa o que comprometido já está.

Por fim, o molho de cerveja é bem esquecível, mas não por um descuido no preparo, mas simplesmente porque este sim, foi sobrepujado pelo gorgonzola. Adiciona uma suculência ao todo, mas não consegue inserir seu amargor saudável no meio daquele mar de fungos e laticínios já amargos e salgados.

O pão? O pão é bonzinho. Industrial, mas gostoso. Vale a pena.

Ficha técnica:

Jazzmaster

Ingredientes: “Pão especial, hambúrguer caseiro recheado com queijo gorgonzola (240g), molho de cerveja preta, alface e rodelas de tomate. Acompanha fritas e molho barbecue”

Preço: R$20,90 + coca-cola garrafinha por R$3,70 (coquinha com preço de frigobar). Total R$27,06.

Ponto alto: Lugar agradável, boa ideia para os nomes dos hambúrgueres e a inventividade de um gênio da técnica e da criação.

Ponto baixo: O preço e o molho de cerveja, que lambuzou tudo sem propósito.

Avaliação: A

O Alta Voltagem Café fica na Rua Silveira Peixoto, 777, entre a Silva Jardim e a Av. Iguaçu. Terça à Quinta das 17h até 24h, Sexta e Sábado 17h até 01:00 e Domingo das 16h às 22h. (41) 3044-7403.

 
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Publicado por em 12/14/2012 em Uncategorized

 

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