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Rause – Rause Suíno

01 Fev

rause café e vinho

Ora, comentava aqui ainda no post da semana passada (o logo abaixo deste) sobre a falta de imaginação da Casa da Mãe Joana em batizar seu hambúrguer tradicional de “Hambúrguer”. A elocubração completa está lá, não vou me repetir desnecessariamente. Fato é que, dado isso, muitos de vocês poderiam apontar o mesmo dedo acusatório para o Rause, simpática casinha de cafés e vinhos da Al. Dr. Carlos de Carvalho (já morei nessa rua, aliás), cuja carta de hambúrgueres é composto por três exemplares, nominados “Bovino”, “Suíno” e “Fallafel” – este último, a julgar pela descrição da simpática garçonete que nos atendeu, nada tem a ver com o estilo teutônico de carne discoidal em pão rotundo, sendo uma dessas variações morféticas vegetarianas inventadas unicamente com o intuito de não perder a freguesia seleta. Não obstante, a verificação do cardápio in loco condena o primeiro e absolve o segundo. Isso porque o Rause, com seu espaço minúsculo e poucas cadeiras, dispõe sua variedade ao longo da maior parede do recinto. Por isso, não cabe, obviamente uma descrição dos pratos abaixo de um nome de guerra para o lanche. O cardápio de parede, esse renegado subgênero dos muralistas, exige objetividade, simplicidade e, acima de tudo, economia de palavras. Diego Rivera nenhum poderia fazer diferente, por isso “Suíno” me parece um nome adequado. Rause Suíno, vá, para não confundir a simplicidade muralista de um com a preguiçosa invencionice de outros.

Pois bem, um pouco mais sobre o lugar. O nome, se meus domínios sobre as línguas nórdicas andam em dia, quer dizer algo como “generoso” em norueguês. Por que norueguês? Não sei. Seria a Noruega a nova Islândia, com seus hipsters e sua música mutcho loka? Espero que sim, pois sou um fã da música de Varg Vikernes. E por que “generoso”? Acho que isso pode ter a ver com uma autoimagem dos proprietários, ou uma imagem exterior a ser projetada por meio de um lugar aconchegante e familiar. Afinal, no dia em que fomos havia água filtrada de graça para os fregueses, algo muitíssimo generoso sim se levarmos em conta o jeito de se fazer negócios em Curitiba (algo que eu chamo de Capitalismo Paulista: nem a água é de graça). Fora isso, há a opção de ler um livro sobre teatro ou jogar um jogo de tabuleiro. Enquanto esperávamos nossos lanches e o Murilo tomava sua peculiar vaca preta, aproveitei para dar uma coça no nosso amigo nas damas. Até que nos veio esse prato:

Hambúrguer suíno

Ora, que coisinha mais simpática. Nada me agrada mais em um hambúrguer à primeira vista do que a constatação de que a altura da carne é equivalente à altura das fatias do pão. Excelente começo. O tomatinho em cima do pão é dispensável, é verdade, e esconde por baixo dele um palito de dente. Veja bem que eu sou um entusiasta afetivo do palito de dente no hambúrguer, isso me lembra muito a minha infância, mas se existe algo perigoso é esconder um palito de dente no meio de tanta carne e cobrir qualquer evidência que ele existe com um tomate cereja. Sorte que eu percebi isso e evitei uma perfuração de palato a tempo.

Outra coisa que não é boa nesse prato são as batatas. São rústicas, fritas ou cozidas, ou cozidas e depois assadas e cortadas em tiras, é um acompanhamento muito leve, porém pouco condizente com o meu paladar (quem quer comer hambúrguer quer comer uma boa batata frita, imagino eu)  e nada generoso. Apenas umas seis ou oito fatias desse estranho tubérculo molhado e meio frio que comi como quem come comida de avião. Dispensável, mas já que está ali, farei por bem comer.

Em sua composição, o Suíno é um hambúrguer muito convencional: pão, carne, queijo, alface e tomate. O pão é um híbrido muito louco entre o pão d’água com o pão de hambúrguer. Exatamente um meio termo entre a consistência dos dois, até a casca crocante é meio mole. Agradável, deixa para a carne a responsabilidade de dar trabalho para seus molares. Não há mistério. Trata-se de um pão de hambúrguer tostado. Uma saída simples que oferece uma variedade interessante à mesmice que assola a gastronomia do fast-food revisitado.

O queijo, por sua vez, é digno de nota. Amarelo e francamente generoso, escorre pelas paredes da carne e estica na tentativa de tentar separá-lo com os incisivos frontais. É claro, derretido não há como precisar, mas chutaria algo entre o prato (pela coloração), o emmenthal (pela consistência) e o padrão (pelo sabor acentuado).

Salada é salada e não quero falar de salada hoje.

Quero falar sim, da carne, a grande estrela de qualquer hambúrguer e o grande diferencial desse Suíno. Ora, que é carne de porco não há dúvidas, o próprio nome diz. Agora, é bem verdade também que, moída e frita, as carnes se parecem muito. Você pode constatar isso comendo um filé mignon e um músculo, e depois comendo um hambúrguer de cada parte do boi supracitada. Mesmo o hambúrguer de frango de caixinha que você compra no supermercado, embora tenha um gosto acentuado de frescuragem, ainda recende a óleo e gordura como qualquer outro. E a carne suína se aproxima da carne de boi nesse sentido. Mas há aqui um diferencial. Um molho de mel e mostarda sobre a carne que a deixa ainda mais doce do que o hambúrguer de cordeiro do Madero. A alegria de comer um hambúrguer doce naquele fim de tarde de uma segunda-feira preguiçosa foi um alento para o meu coração que passou o dia inteiro trabalhando intensamente em exercícios cardiovasculares. O tom adocicado abre espaço para o sal do queijo e os sucos da carne, de maneira que o conjunto fica quase irresistível. Arrisco dizer que seja a melhor pedida na casa, cujo cardápio ainda conheço pouco, mas que já tem grandes provas de seu valor nessa combinação inusitada de doce e salgado.

Ficha técnica:

Rause Suíno.

Ingredientes: Aqui vai uma descrição dos ingredientes que não consta em cardápio nenhum: pão, carne suína ao molho de mel e mostarda, queijo, alface e tomate. Acompanha batatas meh.

Preço: R$16,00 (preço padrão) + 1 Coca-cola + 1 brownie com sorvete = R$29.

Ponto alto: Carne adocicada, queijo farto e pão híbrido muito interessante.

Ponto baixo: Batatas murchas, moles, molhadas e ruins e palito de dente perigoso no meio do sanduíche.

Avaliação: B+

O Rause fica na Alameda Doutor Carlos de Carvalho, 696, no Centro (acho que é Centro). De segunda a sexta, das 9h às 23h e sábados das 12h às 18h.   (41) 3024-0696.

 
3 Comentários

Publicado por em 02/01/2013 em Uncategorized

 

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3 responses to “Rause – Rause Suíno

  1. Luiz Otavio

    04/24/2013 at 10:47

    Achei muito bom o hamburguer lá.

     
    • Nego Dito

      05/03/2013 at 11:11

      Eu também, Luiz Otavio!

       
    • Murilo Ribas

      09/19/2013 at 00:43

      Valeu pelo comentário, Luiz Otavio!
      Volte sempre!😉

       

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