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X-Montanha: Homeopatia ou mitridatismo?

15 Fev
Créditos da foto: Gazeta do Povo

Créditos da foto: Gazeta do Povo

O X-Montanha, um dos sanduíches mais famosos de Curitiba, nunca foi julgado no Good Burger por ser hors-concours. Sua mistura suja de bolinho de carnel, risóle, bacon, queijo, presunto, alface e tomate pelo módico preço de R$7,50 é algo que nenhuma outra hamburgueria vai conseguir resolver tão bem. Para essa sexta-feira pós-carnaval, segue uma crônica escrita por esse que vos fala há alguns anos atrás.

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Quase dois anos depois, volto à Lanchonete Montesquieu, para, mais uma vez, entupir as artérias com os sucos conspurcados do X-Montanha. O sanduíche, conhecidíssimo dos estudantes da UTFPR e de quem mais se interessar pelo roteiro gastronômico thrash da capital, rendeu-me no passado uma reportagem e uma indisposição estomacal digna de um freegan. Recorro a ele para que dessa vez renda-me uma crônica. Uma experiência similar à dos daimistas: caso não consiga uma percepção maior do que me cerca, terei apenas funções fisiológicas desagradáveis.

Escatologia à parte, noto que quase nada mudou no estabelecimento. A única exceção é a ausência dos letreiros que anunciavam o nome do filósofo francês. Uma delas, um dos donos me conta, foi derrubada pelas titânicas tempestades desta primavera. A outra, simplesmente roubada. Nada que abale o bom humor do japonês. Conta tudo com uma leve risada ao fundo de suas falas. Imagino que não haja motivos para aborrecimento. A lanchonete resiste bravamente no coração da rua Silva Jardim há mais de 30 anos. Com pouquíssimas variações no cardápio, decoração inexistente, comida insalubre e lugares limitados (o balcão em forma de U dispõe de uns quinze banquinhos), Hiroyuki Ota, o seu Zé (duas letras para designar o homem comum nas palavras cruzadas) sustenta o lugar com a fama do sanduíche.

Comer um x-montanha é absorver todo o substrato da cidade grande. Assim como o já comparado Santo Daime é o suco da floresta, de cor e sabor similar ao lixo orgânico que a cada dia é engolido por raízes e subleitos na Amazônia, o sanduíche é o lixo da comida que afronta o tempo por razões irracionais, como a tradição e o prazer mundano. Não foi à toa que usei a palavra “sucos” no começo desse texto. Lembrei de Plutarco em seu ensaio moral “Περὶ σαρκοφαγίας” (Sobre Comer Carne), no qual responde à pessoa que come carne e pergunta como ele pode ter se tornado vegetariano. Reproduzindo imperfeitamente, ele silencia a conversa: “Eu, de minha parte, fico assombrado de você ser capaz de colocar na boca o corpo de um animal morto, assombrado de você não achar horrendo mascar a carne mutilada e engolir os sucos de feridas mortais”. Os que analisam o discurso de Plutarco concordam que ele ganha a discussão com “sucos”, muito chocante para quem o faz involuntariamente. Mutatis mutandis, o discurso de estende ao x-montanha. Como temos coragem de sugar os sucos deletérios de seu cerne e ainda pagar (barato, é verdade) por isso?

A resposta para essa questão, a meu ver, não poderia ser mais simples e direta: porque nós podemos. No meio do turbilhão de comida natureba e vida saudável propagada à náusea pela mídia, não há como escapar ao pensamento de que o amplo sanduíche que nos é entregue no saquinho plástico irá nos deixar três passos mais próximos da ponte de safena. Mas, como Peter Greenaway bem apontou em seu filme O Cozinheiro, O Ladrão, sua Mulher e o Amante, confrontamos a morte na gastronomia. Não só em tudo o que é preto, como o caviar, mas em tudo o que tem o potencial de nos injuriar de alguma forma. O Japão tem o Fugu, peixe que, se não limpado corretamente, pode guardar veneno em sua espinha para matar um homem; A Namíbia, o Sapo Boi Gigante, também repleto de toxinas; A Jamaica, a ackee, uma frutinha que, se consumida depois de passada, provoca a morte. Flertar com o perigo ainda é o melhor jeito que o homem contemporâneo encontrou para se sentir mais vivo. E ainda dá pra fazer isso na hora de comer!

Claro que o veneno do x-montanha de fato nem veneno é. Tudo não passa de óleos e gorduras, cuja moléstia ainda é questionada pelos nutricionistas. E o que de fato essa ciência sabe? Volta e meia aparece uma descoberta inacreditável que coloca em xeque nosso conhecimento prévio sobre a gastronomia. O homem na Lua e até agora nada de descobrir os malefícios do ovo. Há menos certezas na ciência dos alimentos do que em nossa vã filosofia.

De um jeito ou de outro, portanto, comer um sanduíche regularmente como esse pode ser saudável. Caso algum dia descubra-se que o colesterol ruim é na verdade bom (e eu não me espantaria se assim fosse), estaria medicando-me lentamente, a doses homeopáticas, com todos esses lipídios. Caso contrário, há sempre o precedente de Mitrídates VI do Ponto, retratado na ópera de Mozart e na peça de Racine, para que nos justifiquemos de boca cheia enquanto deglutimos mais um naco. Mitrídates, explicaríamos, foi o rei do Ponto, região litorânea da Grécia Antiga, onde hoje é a Turquia. Com medo de ser traiçoeiramente envenenado, ele passou a ingerir pequenas quantidades de veneno regularmente para imunizar-se contra uma dose letal. Como nós próprios, que iremos fazer resistir a mais alguns anos com a dieta do século XXI do que estes ruminantes vegetarianos da Nova Era.

Hora de parar de refletir: a conta chegou. Desprovida de qualquer vaidade e floreios típicos de restaurantes, esta escrita em um guardanapo de botequim. Cinco reais e vinte centavos. Com um olhar desconfiado, o atendente olha o bloco de notas onde escrevo o esboço desta crônica, embora não seja raro reportagens sobre o consagrado sanduíche. Deixo a lanchonete, no bairro Rebouças, para voltar a pé para casa, no Cristo Rei. Apesar de todas as desculpas, é preciso ser hipócrita e equilibrar a balança da vida saudável outra vez.

A Lanchonete Montesquieu fica na esquina da Rua Silva Jardim com a Rua Desembargador Westphalen, nº 918 (da Westphalen), e quase sempre está aberta. Tel: (41) 3233-7065.

 
4 Comentários

Publicado por em 02/15/2013 em Uncategorized

 

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4 responses to “X-Montanha: Homeopatia ou mitridatismo?

  1. Chico

    02/18/2013 at 01:03

    Caralho, velho, tá R$ 7,50 o X-Montanha? Pela primeira vez eu fiquei REALMENTE preocupado com a inflação.

     
  2. Cleber Machado

    07/01/2014 at 12:53

    está 9 reais agora! Infelizmente achei exagerado, é bom mas por esse valor não vale a pena. Subiu muito em pouco tempo. Perderam um cliente de anos

     
    • LEONEL IBANEZ

      11/17/2014 at 22:23

      Na lanchonete dos estádios é mais barato, Cléber Machado?

       

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