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Arquivos mensais: Março 2013

Outback – The Outbacker Burger

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No meio de uma semana fria e chuvosa, resolvemos nos aventurar na aridez do outback australiano sem precisar ir muito longe de casa — nem saímos da capital gralha azul.
Outback é algo como o sertão brasileiro, só que na Austrália, que é aquela ilha lá do outro lado do mundo (15596.065 km de distância), onde uma porrada de brasileiro classe média vai fazer intercâmbio e que também tem bichos muito loucos, perigosos e fofos como o coala (você pode ser todo bronco e machão mas aposto que também abraçaria um coala se não tivesse ninguém olhando).

O Outback Steakhouse já é um lugar meio manjado, tem em outras cidades e tal… esse que fomos fica naquela praça de alimentação chic, logo na entrada principal do Shopping Curitiba, pela rua Brigadeiro Franco. E pensar que em outros tempos o Habib’s comandava aquela área, heim?
O Outback fica bem do lado do The Fifties, que estava totalmente vazio nesse dia. . . já sabemos porque, ?!

Sem mais delongas, escolhemos a mesa e aí chega o garçom, que se ajoelha (tem que se ajoelhar porque o negócio é de bacana e rico não gosta de ser visto de cima nem pelo garçom) e se apresenta: “Olá, meu nome é Daniel e eu vou servi-los…”
O Daniel, agora que sei o nome dele tenho que chamar pelo nome, e não por garçom. Já diria o Christopher McCandless, abordo do Magic Bus “…chamar cada coisa pelo seu nome correto”. Mas confesso que não sou uma pessoa com muito traquejo social e acho estranho ficar chamando o cara pelo nome, parece (e é) uma falsa intimidade que não me agrada muito.
Voltando, o Daniel nos perguntou se era nossa primeira vez no Outback, e era, provavelmente por isso, nos mandou um pãozinho preto levemente adocicado e muito macio, com um pouquinho de manteiga, de aperitivo. Ou seja, sempre diga que é sua primeira vez e ganhe um pão grátis.

Nem tínhamos comido esse pãozinho cortesia e já estava chegando os hambúrgueres, rápido como uma bumerangada de um aborígene.

Uma coisa legal é que o Daniel nos alertou ainda na escolha do pedido, que as carnes são apimentadas e que se quiséssemos poderiam diminuir a quantidade de pimenta. Dito e feito. Aprende aí, New York Café.

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Começando pelo pão, é um pão careca tipo de leite muito, muito macio, assim como o pão preto da cortesia, e lembra um pouco o pão do Rock’a Burger, só que mais robusto. Eu não fazia ideia que os australianos tinham as manhas de fazer um pão molinho e gostoso. O pão também deu uma passada de leves pela chapa porque ficou com a bordinha de dentro levemente tostada. Poderia ficar mais tempo até ficar crocante mesmo.

Carne rosada por dentro e passada por fora, quase que não precisa mais do que isso. Como sempre, carne rosada é sinal de suculência, e com tempero amenizado para clientes frescos, é meio caminho andado para a satisfação do freguês. Tenra a ponto de quase desmanchar à mínima pressão dos dentes.
Embora diga ter 200g, é um hambúrguer relativamente fino, saca só na foto o tamanho em comparação ao tomate. Nunca, digo nunca, a carne pode perder em tamanho para um tomate, né!? Já que não vão aumentar a carne, da pra afinar o tomate, malandrage.

O queijo processado é escasso, poderia ter mais uma fatia, pelo menos. Mas deu para ser sentido e degustado mesmo em meio aos outros gostos, e rolou até um parada legal. Eu estava lá mastigando, conversando e tal, de repente por um segundo tudo para e “humm, queijo!” … e logo em seguida o mundo volta a girar e você continua mastigando e conversando. Pena que isso só aconteceu na primeira mordida, depois nem vi mais o dito cujo.

Vou agrupar as partes negativas. O bacon, cruzado em X em cima do queijo, passou do ponto, uma pena, ficou seco a ponto de quebrar e lascas caírem no prato. Quase arenoso como as terras do outback australiano, não era bem esse toque de autenticidade que eu queria.
O segundo ponto negativo é que tem muita alface ralada que junto da maionese vira uma pista muito escorregadia para o bonde que vem por cima. Junto da rodela anabolizada do tomate (sério, era um tomate muito grande no seu diâmetro), fica muito molhado e a parte de baixo do pão acaba desmilinguido, escorregando e dificultando a manobra braçal de comer sem talheres.

As batatas que acompanham são rústicas pero no mucho, elas são batatas palito bem cortadinhas e algumas tem um pouco da casca para provar que são batatas de verdade e não aquelas industrializada pré-cozidas. Não numa quantidade monstro como do NY Café, mas é uma quantidade bem satisfatória.
As batatas foram levemente salpicadas com uma pimentinha, mas pouca coisa, até eu comi bem de boa, e naquele momento nem teria tanto problema porque o refrigerante era refil, ou seja, poderia tomar tanto quanto fosse necessário.

O refrigerante é no esquema de refil, mas não é como no Burger King onde você vai lá  e pega qual quiser. Aqui você escolhe e o Daniel traz numa caneca pesada dessas que vocês tomam chopp. Acho que nunca tinha usado uma caneca dessas, achei divertido, criança se diverte com qualquer coisa. Quando a caneca está esvaziando, o Daniel passa e pergunta se quer outra, e mais outra, na nossa última rodada ele se antecipou e já chegou com novas canecas cheias.
Muito eficiente esse Daniel, não tinha como negar os 10% (que são opcionais). Até porque com esse lance de agachar para ficar na altura do cliente mala, ele vai precisar da grana para uma futura fisioterapia no joelho.

Resumindo, é uma baita refeição, ainda mais com o complemento do refrigerante infinito, sai de lá quase rolando do banco. Fator sustância alto . . . em cima, alto em cima, alto em cima, em cima!!
Pena que é caro, mas em uma ocasião especial ou no começo do mês até da para gastar parte do soldo para fazer um lanche legal.

Só se vive uma vez.

Ficha técnica:

The Outbacker Burger

Ingredientes: Descrição meio bisonha do cardápio “O suculento hambúrguer dos guerreiros mais “SÉRIO” ainda: agora com 200g. Com maionese, tomate e alface, cebola, picles e queijo(bacon opcional). Servido com fritas”.

Preço: R$29,90 + Coca-Cola refil infinito por R$6,95.

Ponto alto: O conjunto é bem bom, pão muito macio, boa carne, boas batatas e bom fator sustância.

Ponto baixo: Alface ralada com a maionese, pouco queijo e o bacon passado, além do preço que quebra as pernas proletárias.

Avaliação: B+

O Outback fica no Largo Curitiba do Shopping Curitiba, que por sua vez fica Rua Brigadeiro Franco, 2300, no Batel. Funciona durante o horário de funcionamento do Shopping, obviamente. (41) 3013-7978.

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Publicado por em 03/22/2013 em Uncategorized

 

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Outback – Smokehouse Burger

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Alguma coisa me fez repudiar o Outback desde o exato momento em que a tradicional e internacional rede de restaurantes especializados em brutalidades carnívoras se instalou no Largo Curitiba do shopping que leva o mesmo nome da cidade. Minha namorada diz que é porque a gente tentou comer lá algumas vezes e sempre tinha fila de espera de mais ou menos uma hora. Pode ser. Mas o fato é que Curitiba, em seu lento porém constante processo de globalização, têm recebido com muito festejo toda e qualquer iniciativa multinacional que resolve fixar raízes nesse vale de lágrimas e araucárias, e eu, como bom misantropo avesso à comoção popular por novas opções de consumo, tenho uma tendência natural a torcer o nariz para esse tipo de coisa.

Felizmente, nossa visita ao Outback – talvez um dos últimos lugares para irmos a pé em nossa exploração pelas hamburguerias da cidade – bastou para tirar toda e qualquer antipatia que eu pudesse vestir como uma coroa de negatividade, para citar aqui uma boa música do Tool. Do começo ao fim fomos bem recebidos e atendidos por um garçom treinado para lidar com as veleidades sintomáticas do mundo nouveau-riche, que se ajoelha para nos atender e não olhar os poderosos de cima. Ganhamos um pão australiano – um pão de centeio a base de mel e chocolate – como cortesia e o refrigerante custa R$6,95 o refil. Ou seja, refrigerante infinito.

De qualquer forma, cabe aqui uma breve explicação para quem nunca ouviu falar no Outback. Sei lá, gente que talvez é chique demais para ir ao Shopping Curitiba, mas não chique o bastante para viajar para outros lugares que possuam uma cadeia do Outback. Bom, o Outback é um restaurante australiano que, como qualquer produto cultural para exportação do novíssimo continente, é caracterizado por comidas e talheres de proporções exageradas. Algo que me diz que a coisa toda não difere do tamanho da comida nos Estados Unidos, a matriz dessa grande filial que é a Austrália, mas acho que tudo passa pela indústria cultural. Para quem não sabe, no começo dos anos 90, o país dos cangurus, subsidiado pelo país dos maníacos homicidas de colégio, começou a exportar uma série de elementos originários do país para o resto do mundo, como as lanchonetes Subway, atores como Mel Gibson e Nicole Kidman (que não são australianos, aliás) e filmes da franquia Crocodilo Dundee, entre outros. Logicamente, a coisa não durou para sempre e foi preciso reinventar a roda em matérias de exportação. A Austrália então recuperou seu lugar no mercado café-com-leite se utilizando de uma de suas maiores glórias: a pecuária bovina e ovina, que detêm os maiores rebanhos totais do mundo, perdendo apenas para países em que as pessoas preferem venerar a comida do que comê-la. Vai entender. A rede é especializada em carnes, mas não há penetração no mercado global sem variedade, e um cardápio diversificado, que conta inclusive com hambúrgueres, pode ser encontrado em qualquer loja.

Minha escolha, dentre as três opções válidas de hambúrguer picante, como bem frisou o atendente, foi um lanche chamado Smokehouse Burger. A descrição diz:

“Bem ao estilo do Louisiana, com um toque do delicioso Flame Sauce e cebolas grelhadas, que dão a esse novo hambúrguer de 200g um sabor único. Servido com alface, tomate, queijo, maionese e bacon. Ah! E com nossas fritas também! 29,90”.

Bom, antes de irmos direto ao ponto, é preciso dizer que a descrição, por mais detalhada que esteja, deixa muito a desejar por não necessariamente se adequar ao conhecimento de mundo do leitor comum. Eu, por exemplo, por mais que seja um exegeta do hambúrguer, não sei o que é um hambúrguer à moda do Louisiana simplesmente porque nunca fui pra lá, e dito isso me sinto na obrigação de acrescentar que meu julgamento está completamente comprometido, pois não tenho como comprovar que o Smokehouse Burger realmente é feito à moda de Louisiana. Também não sei o que é um Flame Sauce, mas o atendente me diz que é algo “próximo do ketchup”, mas não necessariamente um molho barbecue. Por fim, a aparente distração do redator do menu, com seu informal “Ah! E com nossas fritas também”, devo dizer que é simpático, embora não esteja completamente certo de que tal descuido é desejável em um estabelecimento caro como esse.

Enfim, tá aqui o bicho:

Outback burger

Algumas considerações prévias são constatáveis a olho nu. A batata-frita, por exemplo, é cortada em perfeitos prismas retangulares embora a casca da batata seja mantida. Um novo híbrido entre a batata rústica e a papa belga a que você está acostumado a comer, e ainda por cima, como viria a descobrir mais tarde, é muito boa! Diferentemente da experiência desastrosa do New York Café, aqui a batata é temperada apenas com um pouco de pimenta, se tornando levemente picante, mas de forma alguma comprometendo o protagonismo do prato.

O queijo, por sua vez, é um excelente turn off nesse prato. Uma fatia insossa de queijo processado não era o que você esperaria por um lanche tão refinado como esse. Parte da fatia estava se partindo em uma única e triste listra caindo por cima do resto. Não consigo conceber tamanha desconsideração pelo queijo por parte dos chefs. Gente, botem uma coisa na cabeça: se o sanduíche genérico pelo qual todos pedem se chama Cheeseburger e não, tipo, Bread and Burger ou Saladburger, é porque o queijo se tornou o Jessie Pinkman para o Walter White que é a omnipotente carne. Mais amor, por favor.

O pão dá a tônica do que é o hambúrguer do Outback. Macio como todo o conjunto. Macio, liso e levemente salpicado de farinha por cima, o pão, muito similar ao do JPL é a certeza de que os padeiros australianos são bons e que é possível sempre comer mais um pedacinho. Um interior quente e poroso, repleto de corpos cavernosos para absorver bem os molhos e a umidade da salada, é quase um pão perfeito, ponto alto desse sanduíche.

Aliás, falando em salada, devo dizer que a salada é outro acerto, e olha que pra eu falar isso é realmente algo fenomenal. A alface é ralada, uma coisa muito inteligente de se fazer quando se pretende construir um hambúrguer alto, porque não compromete ainda mais o volume com algo que vai irremediavelmente se deformar quando o glutão-alvo (eu, no caso) pegar com força no pão, e quando os incisivos rasgarem um pedaço para soltá-la dentro da boca. A cebola caramelizada é escassa, o que é uma coisa boa porque quem quer comer uma porrada de cebola em cima da carne come bife acebolado ou carne de onça logo de uma vez e não fica enchendo o saco. Por fim, o tomate é algo digno de nota histórica, porque nunca vi um tomate tão gigantesco quanto o que colocaram dentro do meu hambúrguer. Sério, a rodela inteira era do tamanho da carne, e era um corte generosamente grosso, de maneira que podia se jurar que estava mordendo um hambúrguer vegetal, carnoso e incrivelmente vermelho. Gostoso, mas depois de um tempo encheu o saco.

O bacon também estava surpreendentemente bom. Localizado em uma zona intermediária entre o bacon macio e o bacon crocante, a tira grossa e escura de carne suína temperava o sanduíche de cima para baixo com seu sal e seu gosto defumado, como uma língua de sabor encorpado que depositava suas mais preciosas proteínas por cima do totem lipídico que me encarava.

Por fim, a carne foi uma das melhores que já comi. Quase sempre a carne acaba ficando um tanto aquém do resto da matéria, mas nessa ocasião ela se manteve digna perante o resto, e macia e suculenta sem ser fibrosa nem insossa. Repleta de sucos e com seu cerne intactamente vermelho, ela coroava o meu Smokehouse Burger não apenas com sabor mas com sua textura macia e agradável tanto na entrada quanto na saída, e era levemente empapada pelo tal Flame Sauce que, honestamente me passou despercebido. Por outro lado, não esperaria menos de um lugar que se gaba de saber tratar bem suas carnes. Well played, Outback, well played.

Ah, o Outback é um estabelecimento que se gaba de ter carnes picantes, mas mesmo eu, que sou fraco para pimenta, não senti esse sabor acentuado não. Sei lá, a batata estava mais apimentada. Ainda bem, porque não quero passar a noite bebendo água como daquela vez do New York Café.

Ficha técnica:

Smokehouse Burger

Ingredientes: “Bem ao estilo do Louisiana, com um toque do delicioso Flame Sauce e cebolas grelhadas, que dão a esse novo hambúrguer de 200g um sabor único. Servido com alface, tomate, queijo, maionese e bacon. Ah! E com nossas fritas também!”.

Preço: R$29,90 + Coca-Cola refil infinito por R$6,95.

Ponto alto:  Carne estupenda, pão macio, tomate monstro, alface ralada, bacon sinistro e batatas sinestésicas.

Ponto baixo: Queijo processado chinfrim e, obviamente, o preço, porque ainda não estou convencido de que é legal pagar 30 reais num hambúrguer.

Avaliação: A

O Outback fica no Largo Curitiba do Shopping Curitiba, que por sua vez fica Rua Brigadeiro Franco, 2300, no Batel. Funciona durante o horário de funcionamento do Shopping, obviamente. (41) 3013-7978.

 
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Publicado por em 03/15/2013 em Uncategorized

 

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O adeus a Hiroyuki Ota

Hiroyuki Ota

Hiroyuki Ota, proprietário do Bar Montesquieu, falecido aos 83 anos. Foto de Washington Cesar Takeuchi.

No filme de Michael Hoffmann, de 2002, O Clube do Imperador, Kelvin Kline, que faz o papel de um professor de história dá uma importante lição a seus alunos logo no começo do longa. Ele fala sobre Shutruk-Nakhunte, que foi rei de Elam (atual Irã) por pouco mais de 30 anos. Nakhunte, dizia ele, destruiu a cidade de Sippar e capturou o monumento de Niran-Sin, trazendo-o de volta para Elam, e mesmo assim, permanece até hoje (ou até o momento do filme) sem qualquer detalhamento histórico sobre sua figura. Não há livros escritos sobre Shutruk-Nakhunte, diz o professor de O Clube do Imperador, porque não há grandeza histórica sem contribuição. O legado que se deixa para a humanidade é maior e mais importante do que a fama que se pode conquistar, a seu tempo, no exercício de extermínio de cidades inteiras e de captura de monumentos.

Acredito que seja por essa razão que o Sr. Hiroyuki Ota, também conhecido como Seu Zé pelos frequentadores do bar Montesquieu, na esquina da Av. Silva Jardim com a Desembargador Westphalen, tenha uma importância histórica no rol dos podrões de Curitiba diferente das inúmeras biroscas de hambúrguer na chapa que qualquer cidade do Brasil acumula aos montes para abastecer brasileiros de estômago forte e contracheque fraco. Ota, que faleceu neste final de semana aos 83 anos, é diferente de Shutruk-Nakhunte porque deixa como legado sua maior invenção, que perdurará por gerações após sua morte: o X-Montanha, popular sanduíche de bolinho de carne, risóle, alface, tomate, queijo e presunto. O lanche é a preferência dos estudantes da UTFPR — que ainda estão na idade em que injetar as veias com óleo de cozinha não cobra seu preço — e tamanha é sua importância cultural que o lanche já se tornou patrimônio imaterial de Curitiba.

Conversei com o taciturno japonês certa ocasião e ele me revelou que o lanche na verdade havia sido inventado por um estudante do CEFET, como era chamada a escola na época. Pouco importa. Ninguém atribui a invenção a esse estudante espírito de porco que na certa só queria teorizar sobre a culinária dadaísta de cada dia. O ímpeto moral do Sr. Ota, que ouviu a sugestão, atendeu a demanda e ousou por vender algo que viventes normais considerariam gastronomicamente ultrajante, esse sim, é historicamente reconhecido. Pois há, na junção dos elementos do boteco, uma magnitude que abrange, e por que não, extrapola sua essência. Existem muitas maneiras de um estabelecimento como o Bar Montesquieu ficar famoso, mas a criatividade de seu cardápio fica, na lista das mais frequentes, atrás da simpatia do garçom, da capacidade de vender fiado e do preço da cerveja. O lugar vende Laranjinha (a tubaína local, pra quem não conhece), e permitia ao menos aventureiro comer os ingredientes do X-Montanha separadamente. Isso mostra não apenas uma veneração por um tempo remoto que nem mesmo Marcel Proust conseguiu recuperar, mas também uma sensibilidade com as diferentes tessituras que nossa sociedade pós-moderna pode abrigar em termos de microvilosidades e ácido gástrico.

Que o nome hiperboliza seu tamanho é verdade. Mas é verdade também o estabelecimento existe desde 1978, e a retrospectiva histórica mostra que caminhamos para uma civilização de proporções titânicas. Ora, esse era o homem mais gordo do mundo do começo do século 20, por Deus! E convenhamos que X-Montículo, X-Colina e X-mistureba não são lá muito vendáveis. Por isso, Ota se apropriou também, tal qual um Guimarães Rosa e seu sertão, do linguajar jovial de seus frequentadores para batizar seu cardápio. X-Monstro, X-Bolinho e X-Montanha não são, por sinal, nomes que combinem com a aparência zen e silenciosa de seu criador, mas apenas um comerciante visionário e um inventor desapegado de sua própria invenção para deixar que o zeitgeist seja o verdadeiro norte para quem busca um nome que pegue.

Para nós, consumidores de hambúrguer que buscamos o hambúrguer perfeito nessa Curitiba cada vez mais gourmet, cada vez mais Premium, cada vez mais haute cuisine, o Sr. Ota deixa seu mais célebre lanche para que nos sirva de comunhão com sua presença espiritual, sua proto-hóstia entupidora de coronárias. Para sua família, uma perda inestimável. Para a cidade de Curitiba, um exemplo de perseverança e de tradição que, espero, a cidade terá a sensibilidade de manter acesa.

Nota: O X-Montanha é o único sanduíche avaliado pelo Good Burger a ganhar a nota suprema do infinito.

 
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Publicado por em 03/11/2013 em Uncategorized

 

New York Café – NY Burger

Logo New york café curitiba

Disclaimer: a postagem de hoje foi escrita a quatro mãos e essa será a única resenha que o New York Café receberá no blog. O motivo? Só existe um tipo de hambúrguer lá. É, camaradas, essa hora chegaria, então aproveitem.

Como diria o canibal Cabôco Capiroba, de Viva o Povo Brasileiro, vamos por partes.

1- Nariz de Cera

Murilo: “New York city, I like New York city, oh, yeah… you know it’s true”.

Disse nosso querido e feioso Joey Ramone em seu último disco antes de bater as botas.  Não sei por que as pessoas gostam tanto de NY, talvez um dia eu vá para lá e ache tudo muito legal e fique fascinado pela grandiosidade da cidade, as ruas que nunca dormem e todo esse blá, blá, blá, ou como me conheço, é capaz que eu  ache tudo bem mais ou menos e que seja só mais uma grande cidade que engole a maioria das pessoas e cospe seus sonhos na beira de um rio poluído qualquer que corta a cidade.

Tudo isso é só para dizer que fomos no New York Café, aqui de Curitiba.

2- Descrição e conceito

Murilo: Se o lugar realmente parece com algum café de NY, eu não sei. Talvez sim, ou talvez pareça com a ideia de Nova York que temos por causa dos filmes e programas de televisão, ou por colocarem nas paredes vários elementos que fazem referência à cidade, lá mesmo não devem se autorreferenciar, eu acho.
Enfim, como disse, não conheço a big apple, o mais longe que fui da minha casa foi o Rio de Janeiro, então se um dia eu for para lá,  eu conto para vocês como é, e se esse NY Café e o Brooklyn de Curitiba se parecem com algum lugar original from USA.

Assim como o Brooklyn, tem aquele lance de parecer com um galpão industrial abandonado, com tijolos a mostra, estão ligados que isso é só pra juntar aranha nos buracos do tijolo né, eu não sentaria encostado nessa parede. Tem um stencil legal, no alto de uma das paredes, de uns prédios icônicos da cidade. Tem um lustre gigante desses pretos com penduricalhos tipo pedrarias de acrílico, um estilo rococó moderno, ou art deco, que pra mim é tudo a mesma coisa. E numa parte meio escondida tem um letreiro com lâmpadas vermelhas formando as letras NYC, que achei bem legal, pena que não dava para ver direito. Na parte da frente, externa, tem um banco desses de praça num pedacinho de grama verde, uma provável referência ao central park e ao mesmo tempo a falta de espaço das grandes cidades.

Em uma das mesas tinham três meninas, três cabelos coloridos para três drinks coloridos. A de cabelo azul tomava em um copo alto do tipo de refrigerante (o refri  é servido em copo de whisky), um drink amarelo clarinho. A de cabelo vermelho vivo(não ruiva), tomava um drink também vermelho forte, e a de cabelo preto uma bebida rosa claro, todos os copos com bastante gelo e um canudo. Duas delas tinham a blusa presa por dentro da saia, essas saias altas, para cima do umbigo, e a outra usava um vestido todo preto e comprido. Sim, eu observo as pessoas.

Yuri: Acho que o que o Murilo quis dizer é que mais uma vez nos deparamos com esse pastiche antropofágico com o qual somos obrigados a conviver vez ou outra em estabelecimentos temáticos. Ora, se é temático, é clichê, porque não é possível resumir uma essência a um espaço pequeno sem necessariamente incorporar seus elementos mais conhecidos.

O caso de Nova York é típico da profusão e polifonia que talvez a única cidade realmente cosmopolita dos Estados Unidos é capaz de proporcionar. Há a arte das ruas, há a arte pop das galerias, as luzes, a gentrificação de espaços industrializados, e enquanto estes elementos separados pouca coisa dizem ao nosso léxico de mundo, unidas representam bem o que é uma cidade grande em que o nível cultural é nivelado por baixo. Um lugar em que o Andy Warhol é rei é um sintoma disso. A Pop Art passou na história como a única arte que gente burra realmente acha que entende, e hoje não falta resquícios do legado desse movimento grotesco. O New York Café apreendeu esses signos e substituiu as luzes da ponte do Brooklyn por um lustre de madama, colocou uma parede de tijolos secos para representar a gentrificação, um grafitti da cidade para a arte urbana, quadros emoldurados de Warhol para a “fina arte” e pôsteres diversos porque pôster é uma coisa jovem e diz tudo o que seu dono quer que você saiba a seu respeito. Quem é que não gosta de pôster, não é mesmo?

3- O sanduíche propriamente dito

Murilo: Chega de enrolar, vamos para o hambúrguer, o NY Burger.

Quando chegou na mesa pensei:  “Tá bonito o bicho…Olha quanta batata!  E esse bacon!  Mas e esse pão furado?!”
Pois é, tinha tudo para ser dos melhores sandubas  com o qual nos deparamos na nossa jornada, mas… sempre tem um “mas” quando algo parece ser muito bom.  Bonitinha mas ordinária. Lindo mas é gay.  É legal mas vai na Wood’s…

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Explicando os “mas” que fazem esse belo sanduíche não estar estar entre os tops do do nosso ranking.

Começando pelo pão, você pode escolher o tipo de pão(não lembro as opções), peguei o tradicional, que na minha cabeça seria o pão de hambúrguer, pão de leite, com gergelim ou não. Mas esse tradicional é mais tradicional ainda, é igual ao pão caseiro que a sua mãe faz, ou que aquela máquina faz na hora programada pra você que não tem uma mãe prendada (sinto pena de você, quais vão ser as memórias gustativas dessa geração de filhos das mães que não sabem cozinhar?).
É um bom pão para comer com margarina assim que sai do forno, e depois ficar com dor de estômago por algum tempo, mas não é um bom pão para um hambúrguer.  Isso descontando o fato de não ter formato de pão, é uma rosquinha com a massa do pão. A casca do pão estava dura como pão caseiro aqui de casa, quase impenetrável para o garfo, e não dava para comer sem os talheres.
Então começou a operação desmanche e descobri que a melhor forma de comer é por setores.

Yuri: o pão foi o maior problema para mim também. Aliás, como os sujeitos do estabelecimento gostam de chamar, é um “bagel”. Mas o bagel, tal qual os americanos o conhecem, é um pão antes de tudo macio, podendo ser doce ou salgado, e frequentemente usado para fazer sanduíches. Até então, não havia visto um hamburguer em um bagel. O bagel do New York Café era duro como pedra, e o meu, coberto de queijo ralado tostado no forno, estava mais duro ainda. Pra piorar, por baixo da carne havia uma generosa camada de molho, e entre a parte de cima e a carne, uma porção de salada. Desnecessário dizer para quem fez as contas de cabeça que na primeira mordida me caguei inteiro, os tomates pularam para fora do pão, dois litros de molho caíram no prato e a carne escorregou pra frente. Vencido já na primeira mordida, resignei-me a comer com talheres, algo que nunca faço por achar contrário à natureza do hamburguer. Pois bem, os talheres também não funcionaram. Mesmo o garfo não conseguiu penetrar direito no pão, e a pressão da força para tal acabou surtindo o mesmo efeito da mordida. Na segunda tentativa, meu sanduíche todo bem montado estava espalhado pelo prato. Foi assim que ele veio:

Bagel de queijo

Esse foi o maior problema do NY Burger pra mim: sua completa e ignóbil inoperância. De que adianta um hambúrguer que sai bem na foto e termina em um total desastre da forma? Fiquei irritado, e diferentemente do Murilo, que encontrou uma saída no ato de comer pão, carne e periféricos separadamente, eu comi tal qual um homem das cavernas para o desgosto das meninas supracitadas que me olhavam como se eu fosse o Capitão Caverna em pessoa. Tapa na cara da sociedade, também.

Murilo: Parte dois, a carne com o queijo e o bacon.

Pela primeira vez um queijo cheddar de fatia (duas fatias para ser preciso) e não aquele processado daquelas bisnagas que você vê nos caras que fazem cachorro-quente na rua. Ponto positivo.
Tem uma puta fatia bonita de bacon dobrada, não preciso dizer que isso enche os olhos e é uma delícia.
Esses dois em cima de um hambúrguer de 120g segundo o cardápio, mas achei que devia ter mais que isso, estava num tamanho bem satisfatório, suculento que escorria ao cortar. Não parecia carne moída e simplesmente apertada com a mão para dar forma, é uma carne bem processada e compactada, de “Angus Beef”, e tem gosto mesmo de carne assada, de bife de churrasco.

Yuri: O combo cheddar + carne + bacon mistura texturas e sabores de diferentes culinárias. O bacon infelizmente adiciona mais sal em um lanche já salgadérrimo, e pouco sabor comparado com a carne, que, essa sim, é mega suculenta. Um leve gosto de alcatra dava o tom de uma carne sólida e fibrosa, mesmo assim macia. A experiência mais próxima que tive disso foi no Elvis Costella, mas nem de longe aqueles caras chegaram perto desse resultado. O queijo, por sua vez, antecipa na mastigação a maciez da carne e prepara a mandíbula para uma pegada mais leve — pelo menos na teoria, infelizmente aqui existe esse bagel desastroso estragando tudo — e surpreendendo sua própria força maxilar com um obstáculo digno de se abocanhar com toda sua capacidade.

Murilo: Parte três, a parte inferior do pão com a salada e o molho. Alface branca em pequenos pedaços e umas duas rodelinhas de um tomate doce que derrapavam no molho que pra mim era um simples molho rose, rosé, ou também rosê, você escolhe como quer escrever.
Mas eles chamam de “russian dressing”: maionese com especiarias, mostarda, molho inglês e limão siciliano”. Eu preferia mesmo é que fosse uma russian undressing, se é que vocês me entendem.

Yuri: Nada que eu pudesse acrescentar a essa bela explanação. Até porque nem comi a salada. Já mencionei que ela pulou para fora do meu sanduíche na primeira tentativa infrutífera de mordê-lo e eu é que não sou o louco de recolher salada pra colocar de volta no sanduíche. Se escapou, escapou por conta própria e esse é um caminho sem retorno. Agora, o molho é bem gostoso e orna bem com a carne. Seria perfeito também para dar aquela umedecida no pão, mas fazer o quê? Já cansei de falar mal desse bagel e não vou insistir no assunto.

Murilo: E agora a coisa que fez desandar tudo e acho que foi o que me deixou mais frustrado.

Vem uma quantidade muito foda de batata frita, a maior porção que eu já vi como acompanhamento de um sanduíche. Uns baita palitos de batatas de verdade, uma lindeza! Mas, mais uma vez vem o mas… Sério, ou o maluco errou a mão ou sou uma mocinha mesmo (é, porque tem essa possibilidade também). É muito temperada, pra os iniciados deve ser uma pimenta leve, mas para que não é familiarizado, como eu, foi foda!
Foi tipo pegar uma garota linda, mas ela ter mau hálito. Você vai e encara um pouco, recua, pega um fôlego e volta a encarar, afinal não pode deixar passar porque não é sempre que chove na sua horta. É amiguinhos, a vida é dura e não é justa, reclamem com o seu Deus.
A parte do gosto do limão, do Lemon Pepper, é bem legal, mas a parte pepper ….  senti ruborizar o rosto, os olhos quase lacrimejarem e os beiços arderem. O que ajudou foi o molho extra, Turbo Sauce, que pegamos (nessa hora eu não estava prestando atenção no que a menina garçonete estava explicando, mas ainda bem que ela ofereceu, o Yuri prestava atenção e aí aceitamos esse molho). O turbo sauce é um molho de queijos numa consistência pastosa, feito com cream cheese, provolone e cheddar, foi o que salvou para dar uma rebatida na picância do Lemon Pepper.

Pensei em desistir das batatas, mas comi todas porque estavam muito bonitas e seria um puta desperdício de comida, de dinheiro, e porque aqui o negócio é NYHC!!

Yuri: O problema com as batatas, (engraçado assim tipo The Trouble With Harry), é, como bem disse o Murilo, o tempero. A pimenta e o limão deixou a coisa com gosto de batata chips de rodoviária, daquelas temperadas também. Nada agradável e tudo muito forte. Aliás, diria que esse é o maior problema da cozinha do New York Café: o excesso de protagonismo. Tudo precisa ser uma explosão de sabores fortes, tudo precisa ter sua marca, não há coadjuvantes que amenizem as notas de entrada, não há jogo de texturas sem sabor, só existe porrada atrás de porrada, e isso não é jeito de se comer. Mal comparando, é como o filme Os Mercenários: só tem estrela e ninguém quer ser escada pra ninguém. O resultado, se vocês viram Os Mercenários, é uma merda. Acho que assim como a boa música não é feita apenas de notas, mas também de pausas, as pausas gustativas são igualmente importantes. Fica aí um ponto para reflexão.

Murilo: Por causa das batatas apimentadas dividimos, de uma forma muito homoafetiva, uma pequena sobremesa de chocolate, que ficou ao centro da mesa e cada um com a sua colher pegou pequenos pedaços do que seria um gostoso brigadeiro meio amargo gelado… mas essa cena prefiro esquecer e espero que você não imaginem muito, obrigado.

Yuri: Gay gay gay gay gay gay gay gay gay. Ah, foda-se.

Murilo: Resumindo, são bons ingredientes e quantidades, mas o pão não é funcional e faz com que o sonho comece a desmoronar, acho que também não precisava do molho rose, só um pouco de maionese já cumpriria o papel e deixaria menos temperado, todos os gostos meio que brigam para chamar a nossa atenção ao invés de se complementarem. Fora a errada de mão no “lemon pepper”.

E tem que ir cedo dia de semana, fecha às 20h.

Ficha técnica:

NY Burger

Ingredientes: “Hamburguer de 120g de Angus Beef, bacon, queijo cheddar, alface, tomate e russian dressing”. Acompanha batatas.

Preço: R$15,00(preço bom até) + coca-cola lata 3,00… mais o molho extra e metade do doce deu no total R$26,37.

Ponto alto:  Boa carne e no ponto, bacon bonito, cheddar em fatias e a quantidade de batatas rústicas.

Ponto baixo: O pão rosquinha que não funciona e o excesso do tempero.

Avaliação: C

O New York Café fica na Rua XV de Novembro, 2916, no Alto da XV.  De terça a quinta, das 12h às 20h, sextas e sábados das 12h às 22h, e domingo das 14h às 20h.  (41) 3077-6922.

 
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Publicado por em 03/01/2013 em Uncategorized

 

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