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O adeus a Hiroyuki Ota

11 Mar
Hiroyuki Ota

Hiroyuki Ota, proprietário do Bar Montesquieu, falecido aos 83 anos. Foto de Washington Cesar Takeuchi.

No filme de Michael Hoffmann, de 2002, O Clube do Imperador, Kelvin Kline, que faz o papel de um professor de história dá uma importante lição a seus alunos logo no começo do longa. Ele fala sobre Shutruk-Nakhunte, que foi rei de Elam (atual Irã) por pouco mais de 30 anos. Nakhunte, dizia ele, destruiu a cidade de Sippar e capturou o monumento de Niran-Sin, trazendo-o de volta para Elam, e mesmo assim, permanece até hoje (ou até o momento do filme) sem qualquer detalhamento histórico sobre sua figura. Não há livros escritos sobre Shutruk-Nakhunte, diz o professor de O Clube do Imperador, porque não há grandeza histórica sem contribuição. O legado que se deixa para a humanidade é maior e mais importante do que a fama que se pode conquistar, a seu tempo, no exercício de extermínio de cidades inteiras e de captura de monumentos.

Acredito que seja por essa razão que o Sr. Hiroyuki Ota, também conhecido como Seu Zé pelos frequentadores do bar Montesquieu, na esquina da Av. Silva Jardim com a Desembargador Westphalen, tenha uma importância histórica no rol dos podrões de Curitiba diferente das inúmeras biroscas de hambúrguer na chapa que qualquer cidade do Brasil acumula aos montes para abastecer brasileiros de estômago forte e contracheque fraco. Ota, que faleceu neste final de semana aos 83 anos, é diferente de Shutruk-Nakhunte porque deixa como legado sua maior invenção, que perdurará por gerações após sua morte: o X-Montanha, popular sanduíche de bolinho de carne, risóle, alface, tomate, queijo e presunto. O lanche é a preferência dos estudantes da UTFPR — que ainda estão na idade em que injetar as veias com óleo de cozinha não cobra seu preço — e tamanha é sua importância cultural que o lanche já se tornou patrimônio imaterial de Curitiba.

Conversei com o taciturno japonês certa ocasião e ele me revelou que o lanche na verdade havia sido inventado por um estudante do CEFET, como era chamada a escola na época. Pouco importa. Ninguém atribui a invenção a esse estudante espírito de porco que na certa só queria teorizar sobre a culinária dadaísta de cada dia. O ímpeto moral do Sr. Ota, que ouviu a sugestão, atendeu a demanda e ousou por vender algo que viventes normais considerariam gastronomicamente ultrajante, esse sim, é historicamente reconhecido. Pois há, na junção dos elementos do boteco, uma magnitude que abrange, e por que não, extrapola sua essência. Existem muitas maneiras de um estabelecimento como o Bar Montesquieu ficar famoso, mas a criatividade de seu cardápio fica, na lista das mais frequentes, atrás da simpatia do garçom, da capacidade de vender fiado e do preço da cerveja. O lugar vende Laranjinha (a tubaína local, pra quem não conhece), e permitia ao menos aventureiro comer os ingredientes do X-Montanha separadamente. Isso mostra não apenas uma veneração por um tempo remoto que nem mesmo Marcel Proust conseguiu recuperar, mas também uma sensibilidade com as diferentes tessituras que nossa sociedade pós-moderna pode abrigar em termos de microvilosidades e ácido gástrico.

Que o nome hiperboliza seu tamanho é verdade. Mas é verdade também o estabelecimento existe desde 1978, e a retrospectiva histórica mostra que caminhamos para uma civilização de proporções titânicas. Ora, esse era o homem mais gordo do mundo do começo do século 20, por Deus! E convenhamos que X-Montículo, X-Colina e X-mistureba não são lá muito vendáveis. Por isso, Ota se apropriou também, tal qual um Guimarães Rosa e seu sertão, do linguajar jovial de seus frequentadores para batizar seu cardápio. X-Monstro, X-Bolinho e X-Montanha não são, por sinal, nomes que combinem com a aparência zen e silenciosa de seu criador, mas apenas um comerciante visionário e um inventor desapegado de sua própria invenção para deixar que o zeitgeist seja o verdadeiro norte para quem busca um nome que pegue.

Para nós, consumidores de hambúrguer que buscamos o hambúrguer perfeito nessa Curitiba cada vez mais gourmet, cada vez mais Premium, cada vez mais haute cuisine, o Sr. Ota deixa seu mais célebre lanche para que nos sirva de comunhão com sua presença espiritual, sua proto-hóstia entupidora de coronárias. Para sua família, uma perda inestimável. Para a cidade de Curitiba, um exemplo de perseverança e de tradição que, espero, a cidade terá a sensibilidade de manter acesa.

Nota: O X-Montanha é o único sanduíche avaliado pelo Good Burger a ganhar a nota suprema do infinito.

 
13 Comentários

Publicado por em 03/11/2013 em Uncategorized

 

13 responses to “O adeus a Hiroyuki Ota

  1. Juliana Reis

    03/12/2013 at 11:29

    Gente, sou jornalista e quero entrevistá-los. Como acho vocês?

     
    • Nego Dito

      03/12/2013 at 13:15

      Oi Juliana, mandei um e-mail pra você, na conta euviajobastante. Um abraço!

       
  2. walkiria k. ota

    03/13/2013 at 19:58

    CONVITE MISSA DE SÉTIMO DIA DO SR. HIROYUKI OTA ( SEU ZÉ ).
    •16 /12/1929 † 09/03/2013
    SUA ESPOSA ICHICO OTA,SEUS FILHOS, NETOS E NORAS, CONVIDAM OS DEMAIS PARENTES E AMIGOS, PARA A CELEBRAÇÃO DA MISSA DE SÉTIMO DIA DE FALECIMENTO DO NOSSO QUERIDO HIROYUKI OTA, A SER REALIZADA NO DIA 15 DE MARÇO DE 2013, AS 19 HORAS, SERÁ REALIZADA NA PARÓQUIA IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA.
    ENDEREÇO: AV. PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS, 1193
    REBOUÇAS
    CTBA-PR
    CEP:80250-180

    TELEFONE (41) 3224-9574

    A FAMÍLIA AGRADECE Á TODOS QUE COMPARECEREM Á ESTE ATO DE FÉ CRISTÃ.

     
    • Ana Martinez

      03/14/2013 at 14:06

      Os textos de vocês são de dar água na boca, não pelas delícias que descrevem mas pela arte e cultura que permeiam seu modo “gourmand” de ver a vida como um todo. Sr Hiroyuki Ota recebeu as honras que justificaram sua existência nesse poético e respeitoso texto. Parabéns

       
      • Nego Dito

        03/14/2013 at 19:05

        Obrigado, Ana! Volte sempre. Um abraço

         
    • Nego Dito

      03/14/2013 at 19:03

      Obrigado, Walkiria, meus sentimentos por sua perda.

       
  3. Thiago Grossmann

    03/14/2013 at 12:41

    parabéns pelo texto!
    o nosso consolo é que o montanha vai continuar o mesmo!
    uma pena não encontrar mais o seu zé =/

     
    • Nego Dito

      03/14/2013 at 19:04

      Obrigado, Thiago, é verdade, ele era uma presença consoladora naquele lugar.

       
  4. Christiano

    03/14/2013 at 13:19

    Só um detalhe: Laranjinha não é local. É de Santa Catarina, de uma empresa chamada Água da Serra. Uma invasão que ocorreu somente no final dos 00s. Antigamente, no local as Bebidas Cini eram comercializadas, incluindo Wimi – a “laranjinha” original e esta sim, local.

     
    • Nego Dito

      03/14/2013 at 19:05

      Certíssimo, Christiano. Obrigado e um abraço.

       
  5. Blueman

    03/14/2013 at 22:13

    A simplicidade do seu Ze e dos seu sanduiche contrasta com grandeza do seu legado. Faço votos para que o Alvaro continue a tradição.

     
  6. hemerson

    03/21/2013 at 09:10

    nostalgia… e ao mesmo tempo uma mostra clara da importancia de realizar o seu propósito enquanto se está aqui!

     
  7. Jocélia Zanon

    08/15/2014 at 16:36

    Parabéns pelo texto. Fui estudante do CEFET e frequentadora assídua do bar do seu Zé. Saudades imensas. Deixo aqui meu abraço para os familiares, especialmente para o Álvaro, que nos tratou com muito carinho e atenção! Seu Zé foi uma pessoa especial, sempre fazendo os acertos sem calculadora, com um papelzinho e uma canetinha na mão! Bons tempos!

     

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