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Au-Au – Texas Burger

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Eis que a falibilidade dos canais de comunicação institucionais dos redutos gastronômicos da cidade e, por que não dizer, nosso próprio desleixo com a curadoria das hamburguerias da semana nos colocaram mais uma vez desnorteados no centro da cidade sem saber para onde ir em plena terça-feira à noite. Vagando pelos arredores de uma área gentrificada cujo nome não ouso dizer neste querido blog, deparamo-nos com a onipresente fortificação cross-over fast-food/casual dinning curitibana Au-Au, um estabelecimento principalmente objetivado a construir o cardápio do inimigo número 1 dos nossos queridos hambúrgueres, o cachorro-quente de rua, o cachorro quente de praça, de festas juninas, quermesses e aniversários, o sanduíche de carne embutida, condimentada, pré-cozida e, ao que tudo indica, cancerígena que conquista a tudo e a todos por onde passa, um enfant-terrible das porcarias que nossas mães nos impediam de comer.

Por que buscar hambúrguer em um lugar como esse? Seria como buscar compreensão no terceiro Reich, amor no prostíbulo, redenção na política, honradez no contrabando, concupiscência na igreja? Talvez sim, talvez não, mas parte das capacidades do olhar treinado para a sensibilidade do não-óbvio é encontrar lógica no caos e beleza no lixão. Por isso fomos, e nos aboletamos nas insistentes mesas americanas de sofá e pedimos para a garçonete a carta de hambúrgueres.

Talvez tenha sido a decisão mais acertada que tenhamos tomado nesses últimos tempos. Não só o Au-Au tem uma grande variedade de comida decente como também são receitas inventivas, com ovo, com rúcula, com mostarda e mel, enfim, algo que saia da tríade x-buger, x-salada e x-bacon. A minha escolha foi o Texas Burger, um sanduíche marcado principalmente pelo molho barbecue e pelas cebolas grelhadas. A ideia parece simplória, mas ganha no conjunto da obra, veja.

Texas burger

A propósito, essas batatinhas smiles que estão aí são opcionais e podem ser obtidas se o cliente quiser abdicar das tradicionais batatas palito, mas não recomendo dada a pouquíssima quantidade e a artificialidade do pastiche tuberoso. Ainda assim, são aquelas batatas sequinhas e gostosas que, caso viessem em maiores quantidades, até valeriam uma ponderação prévia.

Fora a apresentação do lanche, que é sim muito bonita e prática, o que se nota nesse Texas Burger é a quantidade de salada que vem nele – o que seria uma coisa terrível não fosse o cuidado na escolha dos alimentos. A alface extremamente crocante e o tomate carnudo e bem vermelho fazem o papel da boa salada num sanduíche, que é acrescentar cavalinhos de textura no carrossel de sensações experimentado em um lanche bem composto por carne, pão, vegetais, queijo e condimentos. A salada do hambúrguer é assim: se não faz parte da solução, então faz parte do problema.

O queijo é outra grata surpresa. Uma grata gratinada surpresa, eu diria mais. A generosidade na porção que cobre a carne tem a possibilidade de fagocitar parte dos outros ingredientes e se sobrepor a todos eles sorrateiramente, um coadjuvante que não se contenta com o pano de fundo e parte para o ataque sempre que necessário, um paladino laticinioso engajado em uma cruzada santa pela tradição perdida do queijo farto nos hambúrgueres com queijo.

A cebola e o barbecue são a comissão de frente do Texas Burger, algo claramente evidenciado em seu nome de pia. A combinação, embora não seja original e muito menos incomum, agrada apenas quando o resto é bem servido. Ou seja, muita cebola e barbecue com pouca carne e queijo não é exatamente algo que mereça registro, mas o contrário é enriquecedor e um colírio para as papilas gustativas.

Mas é claro que nada disso adiantaria de muita coisa caso a carne, que é o ponto central, não fosse bem executada. E preciso reconhecer: para quem trabalha com uma carne tão pobre quanto a salsicha de um cachorro-quente, o pessoal do Au-Au até que sabe manejar um disco de hambúrguer.  A carne é boa, macia, alta, vermelha e suculenta. Bom, não tão suculenta, mas dá conta do recado, embora algumas vezes seja sobreposta pela quantidade sobrenatural de alface do Texas Burger. E nem preciso dizer que carne combina com molho barbecue.

Como calcanhar de aquiles deste belo monumento, o pão é uma decepção pela sua obviedade e falta de requinte. Um pãozinho mixuruca industrializado desses que você encontra em qualquer lanchonete que venda uma porcaria de hambúrguer pré-frito com queijo e presunto por três reais. Tal conjunto merecia um acabamento melhor, mas não é sempre que é possível. Se acabam as tintas do artista, pintar com bosta talvez não seja a melhor solução, mas antes isso do que não entregar nada.

Ficha técnica:

Combo Texas Burger

Ingredientes: “Sanduíche com hambúrguer Au-Au de 130g de carne bovina, molho barbecue, queijo musarela, cebolas douradas na chapa, alface, tomate e maionese no pão especial de hambúrguer + 5 fritas smiles + Refri lata.”

Preço: R$23,80 no combo com coca-cola lata e batata frita.

Ponto alto: Bom conjunto, apresentação, salada boa, queijo e combinação clássica barbecue + cebola que não falha.

Ponto baixo: Pão mixuruca e preço um tanto alto.

Avaliação: B-

O Au-Au que fomos fica na Alameda Doutor Carlos de Carvalho, 990, no Centro. Funciona de segunda a sábado das 11h até 6h da manhã e domingos das 11h às 0h30min.

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Publicado por em 09/20/2013 em Uncategorized

 

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Casa da Mãe Joana – Hambúrguer

Casa da Mãe Joana

Em todos esses anos nessa indústria vital, nunca antes um estabelecimento com hambúrgueres artesanais mostrou tamanha falta de imaginação ao batizar o tradicional hambúrguer da casa. Veja bem: “Hambúrguer” é o nome do prato que comi na Casa da Mãe Joana, esse pequeno e simpático estabelecimento carimbó situado na divisa do Bigorrilho com o Campina do Siqueira. O que há em “Hambúrguer” que desperte as faculdades imaginativas de seu potencial consumidor? O que poderia fazê-lo escolher em um cardápio com outros quatro ou cinco hambúrgueres senão resignação simplista que acomete a todos os frescos? Sim, pois é para isso que está lá a pizza de mozzarella (nem por isso chamada apenas de “pizza”, aliás): para saciar a vontade de quem não tem vontade alguma senão comer algo minimamente aceito nos circuitos sociais sem a necessidade de se aventurar por outros ingredientes ameaçadores. Pois bem, hambúrguer para mim. “Apenas um hambúrguer”, eu poderia ter dito ao garçom, mostrando assim meu conformismo resoluto de ser obrigado a escolher a opção menos bizarra de um cardápio que já se sabe bizarro, do contrário não teria batizado seu sanduíche mais simples de “Hambúrguer”. Aprendam essa valorosa lição com os novos e hipsters estabelecimentos da cidade, em que o simples vira clássico, o tosco vira rústico e qualquer coisa que se interseccione com as predileções do proprietário vira “especial”. É dessa forma que comidas desinteressantes se tornam interessantes no Gedankebild do freguês.

Mas, que seja. “Hambúrguer”, por mais criações pomposas, bizarras, esquizofrênicas e heterodoxas que possam ter surgido desde que o prato perdeu popularidade no Fast-Food para entrar de cabeça no casual dining, ainda é o cuore da nossa investigação jornalística-gonzo pelos restaurantes da cidade. E, como bem e sempre diz o Murilo, o Serj Tankian das araucárias, é preciso acertar no básico para depois querer fazer graça no triplo mortal carpado. E não dá para dizer que o “Hambúrguer” da Casa da Mãe Joana seja o básico porque não é um hambúrguer na concepção mais idealista da palavra, que envolve invariavelmente muita gordura, pão com gergelim, salada fresca e muito queijo. O prato que me foi apresentado é uma espécie de hambúrguer carimbó, algo muito próximo do que você teria se pedisse à sua avó roceira que nunca viu um McDonald’s na vida para lhe fazer um hambúrguer baseado na sua leiga descrição da coisa. A velhinha não deixaria de caprichar para agradar o netinho babão, mas inconscientemente subverteria conceitos básicos que você deixaria de explicar pela aparente naturalidade com que eles existem. O resultado é isso aqui:

casa da mãe joana

Optei por uma foto do pão aberto para ilustrar meu ponto de vista. O que salta aos olhos nesse prato, pelo menos em seu protagonista, é justamente a salada. Tomate e cebola assados no forno, e a cebola com arcos de seus bulbos inteiros sobre a composição – o jeito como a sua avó roceira que nunca viu um McDonald’s na vida costuma servir cebola por cima da carne. Ora, não vamos aqui ignorar a praticidade de uma cebola não-picada em um sanduíche que tradicionalmente desmorona após a terceira ou quarta mordida, mas convenhamos: não é isso que eu queria comer quando pedi um hambúrguer com tomate e cebola, e talvez não seja esse o desejo também de muitas pessoas.  E porque assar um tomate? Ora, porque é assim que a sua avó roceira que nunca viu um McDonald’s na vida faz o seu popular xixo, o espetinho de carne e legumes que os sulistas gostam de comer num churrasco – provavelmente os mesmos que vão à praia e entram no mar de toalhinha e sabonete, desvirtuando o propósito das coisas numa generalização axiomática que pressupõe que toda água é para tomar banho e toda refeição precisa ter salada.

Agora que o choque de ter encontrado um xixo de hambúrguer no seu prato já passou, olhe a seu redor, observe os periféricos do “Hambúrguer”. Uma salada com cenoura e alface frisé também é entregue junto com o prato. Sim, a sua avó roceira que nunca viu McDonald’s na vida também acha que salada nunca é demais, principalmente em um prato altamente gorduroso como esse. Cenoura e hambúrguer combinam? A opinião de vocês é só de vocês, a minha é: não. Olhe para o potinho de porcelana branca agora. Aquilo é maionese, mas uma maionese comum? Nãããoooooooooooo, meus caros, trata-se de uma maionese temperada. Por que diabos alguém comeria uma maionese normal, afinal de contas, e por que a você, freguês fresco que pede o “Hambúrguer” pela simples falta de iniciativa e imaginação, seria dado o direito de escolher que tipo de maionese você gostaria para acompanhar seu hambúrguer carimbó? Mistérios que A Casa da Mãe Joana não pretende enunciar.

Finalmente, olhe para as batatinhas fritas que aparecem no canto da tela, já meio desfocadas em detrimento da preferência pelo objeto principal da fotografia. Batatas fritas belgas fritadas, congeladas e fritadas novamente como todas as outras? Hell no! O que temos são batatas rústicas, com casca, cortadas e fritas em finas tiras irregulares. A sua avó roceira que nunca viu um McDonald’s na vida também ficaria confusa se você pedisse batatas fritas que fossem cortadas em toletes prismáticos retangulares, fritadas duas vezes em alta e baixa temperatura e servidas secas e salpicadas com sal. Esse tipo de coisa não computa no mundo carimbó, o que vale é o artesanato, um lance assim pé descalço no chão de terra, saia rodada, flor no cabelo, sovaco cabeludo, depilação vencida, bordadinho amarrado no tornozelo e penduricalhos barulhentos de pedras e metal laqueado. E longe de mim rejeitar batatas rústicas, que foram boas lá no Clube do Malte e continuam sendo boas aqui também, ainda que com um formato diferente. Só achei coerente e curiosa a carimbozisse desse prato.

E bom, o que dizer de seus componentes? Bom, o pão d’água é molenga, meio muxiba, não chega a ter a textura morosa de um pão amanhecido, mas também não tem a crocância de um pão fresco e quentinho. Acho que isso se assemelha também, afetivamente, às minhas incursões ao campo, ver a parte da família que gosta desse lance de mato e cheiro de bosta de vaca. A padaria fica longe, afinal, o pão pega sol, poeira e chuva no caminho e chega mais ou menos assim, em um saco com outros 49 pãezinhos que aos poucos vão sendo examinados pelas moscas do recinto e ficam lá, por dias e dias até que todos sejam consumidos e outra viagem à padaria se faça necessária. Tudo vale, tudo é, como diria Caetano, lindo e maravilhoso, e nada que tenha me desagradado.

O ponto alto do sanduba, como fica evidente na foto, é o queijo. Queijo sim nunca falta na roça da minha família, e essa porção generosa de queijo amarelo e derretido por cima da carne é de uma benevolência tocante e rara nas hamburguerias da cidade. Responsável por salgar, dar liga, adicionar gordura saturada e fazer inchar as suas papilas gustativas para sentir melhor o gosto de todas as outras coisas, o queijo é um abre-alas da refeição.

Por fim, a carne. Veja, você queria um hambúrguer caseiro, que não fosse daqueles de caixinha, mas se esqueceu de explicar para a sua avó roceira que nunca viu um McDonald’s na vida que a carne precisa ter gordura para ficar boa. O que eu vi foi um disco de carne que, se não fosse a textura desprendida e pouco fibrosa, diria se tratar de um bife arredondado nas pontas. Sua cor escura é a mesma por dentro e por fora, o que significa que passou demais, e ficou seco, o que indica que se trata de uma carne magra e sem graça, dessas que você mói de última hora para fazer um hambúrguer para o seu neto urbanóide que vem lhe visitar de longe e chega fazendo as mais disparatadas exigências a respeito de um prato que ele gosta de comer num tal de McDonald’s. Você faz o que pode, mas o netinho é duro na queda e gosta da parada mais americanizada que a senhora consegue produzir no seu fogão à lenha. Êta moleque bom pra levar uns bolos.

Nossa, por pouco não me esqueço de um ingrediente chave da composição: o bacon (e por quê será que sempre esqueço do bacon?) Sim, meus camaradas, o “Hambúrguer” sabe guardar as suas surpresas em tiras de bacon bem fritas e saborosas, embora perca um pouco do sabor no conjunto da obra por alguma razão. Às vezes o bacon é evidente em um prato, às vezes passa quase despercebido. C’est la vie.

No final das contas, o “Hambúrguer” da Casa da Mãe Joana é um lanche mediano. Não tem o requinte a que se propõem as hamburguerias tradicionais, mas ganha em identidade, personalidade e apresentação, ainda que peque no ponto da carne e na escolha dos ingredientes.

Ficha técnica:

“Hambúrguer”

Ingredientes: “Hambúrguer caseiro de grelhado com fatias de bacon, coberto com queijo muçarela derretido, rodelas de cebola e tomate assados em forno a lenha. Acompanha mini salad, batatas rústicas fritas e maionese especial”.

Preço: R$16,00 + 2 guaranás em lata = R$23,50 (Acho que foi isso que deu).

Ponto alto: Apresentação e personalidade.

Ponto baixo: Carne passada, xixo no hambúrguer, falta de imaginação pra batizar a criatura.

Avaliação: C

A Casa da Mãe Joana fica na rua Jerônimo Durski, 1010, no Bigorrilho. Terça à Sexta: 18:30 – 00:00, Sábado e Domingo 12:00 – 16:00   –  (41)3092-2322

 
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Publicado por em 01/25/2013 em Uncategorized

 

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JPL – Roadmaster

JPL

O ano se encerra e o novo se abre com a mesma perspectiva: atar as duas pontas da vida, como escrevia Dom Casmurro quando botou na balança suas dores de pseudo-corno. Finalizando nossos compromissos com duas hamburguerias que ficaram pela metade, o Brooklyn Coffee Shop e o JPL, igualamos a atenção que damos a todas elas: one life, one chance, no melhor estilo H20, e é melhor que ninguém cague no pau porque perdoar é coisa de cristão e ninguém aqui anda de escapulário. Sendo assim, voltamos ao Jean Pierre Lobo Burgers, ou JPL, na abreviação que esconde a identidade do renomado chef sob uma modesta e enigmática sigla.

O lugar é aquela coisa: típica birosquinha chiquérrima do Batel. Lugar pequeno, frequentemente flanqueado por motocas Harley Davidson, a liberdade em forma de pistões, rodas e motor em V que hoje está mais nas mãos de playboys bandidinhos do que idealistas bandidões. Não espere portanto, uma alcateia de motociclistas, quando muito um rendez-vous de pleissitude máxima, patricinhas e seus iPhones, mauricinho com camisa listrada com brasões e números, enfim, aquela coisa. Ainda assim, o atendimento é bom e não roubam na conta, então já tá valendo.

Pela parede junto ao caixa, um hall da fama com os diversos prêmios que o estabelecimento ganha todo ano. Veja Comer & Beber e Bom Gourmet da Gazeta do Povo. A minha escolha da vez, o Roadmaster, está lá em alguma dessas tabuletas, não me recordo do ano. E o que é o Roadmaster, esse sanduíche premiado? Nada mais que o famoso hambúrguer de Cheddar, com todos os clichês da fórmula: queijo processado TIPO cheddar, não o verdadeiro irlandês de 60 reais o quilo, cebola caramelizada no barbecue (shoyu também é aceitável), pão fofinho e carne suculenta. Há aí ainda a adição de um queijo mussarela e do potinho extra de barbecue porque os hamburgueiros da newschool americana aprenderam que molho barbecue nunca é demais num hambúruger. O resultado é isso aqui:

Roadmaster

Mas, afinal, porque o Roadmaster ganha o prêmio Bom Gourmet e o Cheddar McMelt, que ainda tem a ousadia de colocar um hambúrguer num pão preto, não? Algumas razões, filhão. Existem muitos diferenciais no Roadmaster, mas o mais óbvio e o primeiro a se perceber é o pão. Até porque é difícil achar um pão de hambúrguer que se destaque do resto, a maioria quando quer caprichar na casca substitui pelo arcaico pão d’água. Mas o pão de hambúrguer do JPL é tão macio que chega a ser imediatamente digerido pela amilase da saliva, quase não restando consistência que o faça lembrar que por ali, há pouco tempo, passou um pão. Nem o gergelim sobra direito para contar história, é como aquela mistureba ácida que preparam no final do Retrato de Dorian Gray, algo intenso, cheiroso e inesquecível. Tipo meu pau.

Agora, a carne não fica atrás. Feita no fogo alto, mas temperada secretamente, de maneira que nem seus chapeiros tem noção da fórmula, o disco de hambúrguer vem embalado e congelado pronto para fritar, e fica ali no segundo andar para quem quiser ver como o lance é feito. A carne não perde água e ainda assim, não esparrama seus sucos vitais pelo prato mais do que o barbecue da cebola, embora não deixe de tingir um pouco as duas faces do pão. A crosta não fica crocante de queimado, e ainda assim, ele não desmonta. É algo realmente impressionante de se conseguir em uma carne, acredite em mim porque de vez em quando eu me aventuro no meu George Foreman.

A cebola serve, como sempre, para pouca coisa. No caso aqui, dar alguma consistência a uma pasta em formato de hambúrguer, pão e queijos. A crocância de suas folhas dá um sentido de unitarismo ao bolo alimentar, e delimita sua forma e avisa nossos molares sobre seu real volume. Mas é verdura e verdura aqui não tem vez.

E por fim, há o queijo. Ou melhor, os queijos. Cheddar combina com cebola, pão e carne, mas ainda que esse cheddar fosse de verdade ao invés do queijo processado, e falasse a língua dos anjos e falasse a língua dos homens, sem essa mussarela quase fritinha ele nada seria. Ora, o que a mussarela tem que o cheddar não tem? Em primeiro lugar, sabor; em segundo lugar, elasticidade; em terceiro lugar, experiência no tatame para saber que o lugar de um queijo é colado na carne, coisa que uma pastinha de cheddar nunca vai fazer. Não há cheddar brasileiro que resista num pão à passada de um dedo. Cai tudo no prato, mas graças à mussarela velha de guerra, há justaposição de queijos e carne numa dança cigana, linda e sensual, uma forésia entre uma anêmona e um paguro, um número de trapézio em que o cheddar quer o ar, mas a mussarela o puxa para solo firme.

Não podemos nos esquecer da batata. Mas é que depois de falar tudo isso, não importa muito o que eu falar da batata, né? Mesmo assim, ela é muito boa. Contentem-se com isso porque aqui não é good batata, aqui é GOOD BURGER MANEEEEEHHHH!!!

Ficha técnica:

Roadmaster

Ingredientes: “200g. do nosso suculento hambúrguer grelhado, queijo mussarella (com dois Ls porque nego é chique), cebola ao molho barbecue, cheddar e batatas fritas crocantes (é bom mesmo que seja crocante, a única razão pela qual a gente frita alguma coisa é pra ficar crocante!)

Preço: R$ 20,90 (O pessoal fica dando prêmio e a galera joga o preço lá em cima).

Ponto alto: hambúrguer metafísico, pão que dissolve na amilase, mussarela simbiótica e barbecue pra caralho.

Ponto baixo: Preço alto.

Avaliação: A

O JPL Burgers fica na Av. Vicente Machado, 833, no Batel. Curitiba – PR. (41) 3024-2910

 
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Publicado por em 01/10/2013 em Uncategorized

 

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Elvis Costella – The Real Deal Burger

Pensar os fenômenos que ocorrem ao seu redor no dia a dia exige sensibilidade, paciência e observação. Mas como nós temos tudo isso, podemos perceber e fazer a pergunta que pede para ser feita: por que, afinal, tantas hamburguerias estão brotando na cidade? Não me levem a mal, Deus sabe que eu gosto de um hambúrguer (aliás, graças a esse blog, agora acho que todo mundo sabe), mas é preciso descobrir de onde vem a demanda por tantos hambúrgueres gourmet, por tantas opções de recheio, por tantas alternativas vegetarianas a uma comida que quem não come carne não deveria nem querer chegar perto.

E bom, exatidão é algo que só existe no mundo dos homens de Protágoras e suas medidas antropocêntricas, mas isso não impede que tentemos esboçar uma explicação plausível. E a resposta para isso, doa a quem doer, vem da morte da alta-gastronomia. As crianças de classe média não comem mais comidas elaboradas, seus cardápios resumem-se a congelados, fast-food e as três ou quatro opções que a empregada tem na manga, porque cozinhar em casa, além de ter se tornado algo caro, também se tornou algo muito trabalhoso e vagaroso para o ritmo do século 21.

Sendo assim, o homem moderno, quando ganha liberdade para voar para fora do ninho, busca nas hamburguerias refeições que explorem o parvo repertório com que foi criado. E é esse o principal desafio dos chefs de hoje em dia (por chefs, refiro-me àqueles que não querem surpreender ninguém): trabalhar com o repertório da galera, fazer mais com menos, construir algo que seja ao mesmo tempo gastronomicamente desafiador e confortavelmente familiar. É só uma questão de tempo até aparecerem restaurantes especializados em miojo, vai por mim.

É justamente a tentativa de trabalhar com o repertório distorcido das crianças da geração coca-cola que faz com que tantas hamburguerias associem seu principal produto à famigerada estética rockabilly dos anos 50. A cultura estadunidense é tão contundente que tanto bate até que fura e todos se esquecem que a palavra vem do nome de uma cidade alemã, e associar qualquer elemento teutônico a esse bolo de carne é um disparate lógito semelhante a associar as batatas fritas a seu lugar de origem, a Bélgica.

Tudo isso para dizer que o Elvis Costella, restaurante das mercês que, com palavra e imagem, funde os dois únicos Elvis que o rock n’ roll já conheceu, levou essa brincadeira longe demais. O lugar é uma caricatura grotesca da cultura americana de que os ianques tanto se orgulham. Guitarras nas paredes, bancos que simulam Cadillacs, jukebox decorativa, pôsteres de filmes, o restaurante é imenso e se reabrisse como museu, poucas pessoas notariam a diferença. Se é assim tão grande a vontade de parecer um restaurante norte-americano, é uma pista de que em matéria de hambúrguer os caras devem ser bons. E se são, é melhor a gente ir conferir.

Mas não na primeira tentativa. Chegamos lá e tinha uma banda cover de Elvis tocando, com um sujeito que parecia muito o Elvis mesmo (o Presley), mas que não justifica, na minha opinião, o couvert artístico de 20 reais – mais do que eu pretendia gastar em comida naquela noite. De maneira que retornamos num dia mais tranquilo, vazio, com aquele ar de fim de festa. Foi aí que finalmente demos uma olhada no cardápio.

Três opções de hambúrguer, caros leitores. Senti-me observando a obra pop de Andy Warhol sobre Marilyn Monroe, que com suas cores e pictoração fauvistas wanna-be, emulam, para mim, a falsa ilusão de escolha da massificação cultural. Veja você também o quadro para acompanhar meu raciocínio.

Andy Warhol

Então, basicamente o que eu tenho é a opção de escolher o Real Deal, que é um hambúrguer, o Elvis Jr, que é o mesmo hambúrguer, só que menor, e o Alaska Burger, que é feito com pão integral, salmão e guacamole. Ou seja, não é hambúrguer. Resumindo, você tem duas opções de hambúrguer nesse grande restaurante americano: o grande e o pequeno. Tá bom pra você? Que bom, porque pra mim não tá. Quase não tivemos post sobre o Elvis Costella, mas acertamos que o Murilo comeria o menor e eu pegaria o Real Deal Burger, porque, afinal, ninguém aqui vai encostar num hambúrguer de salmão!

E vamos ao que interessa. O The Real Deal Burger, imperativo dizer para os que não manjam de inglês, tem um nome um tanto prepotente para virtualmente a única opção de hambúrguer do cardápio. Real Deal é tipo “A parada de verdade”, sem caô, sem vacilação, leva o que paga, tá ligado? No cardápio diz: “Pão, hambúrguer de carne (Red Angus, 250g) de carne [sim, repete o ‘de carne’, acho que é pra mostrar que não é de salmão], queijo, tomate, pickles [assim mesmo, com k], cebola e maionese……..24 reais”. Xi… passou dos 20 reais, pra mim, a brincadeira fica séria, o sorriso some e o profissionalismo fala mais alto. Aqui não tem moleque, virei o boné pra trás no estilo Falcão – O Campeão dos Campeões e comecei a prestar atenção em tudo. E a primeira coisa, obviamente, é a pose, que isso esse sanduba tem.

Elvis Costella

Infelizmente, começamos mal. O garçom, que não anotou nada confiando na sua memória infalível, errou nossos pedidos e o meu sanduíche veio como o Murilo queria: sem cebola e sem picles. Tudo bem, não sou mesmo fã desses ingredientes e geralmente só como para relatar a experiência mais próxima da realidade que vocês terão. Por isso não reclamei, mas isso não justifica a má conduta do garçom. Papel e caneta existem, são baratos e eficientes. Acredite no simples, acredite na beleza. Fica a dica, como dizem as patricinhas.

Comecemos pelo topo. O pão reforça aquele ditado “por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento”. Não que tenha bolor, nada disso, mas é que, se por um lado a crosta cativa, o miolo, mais seco que tabule que caiu na areia, tira toda a graça do resto e dá a impressão de se estar comendo algum tipo brando de poliuretano, com aquela textura de isopor. Eu cheguei a destacar um pedaço grande do pão e mostrar para o Murilo, para ele procurar, tal qual um investigador do CSI, algum traço que indique que aquele pedaço pertenceu a um hambúrguer, e não foi possível provar nada. Pena que não tirei foto para mostrar.

Sobre a salada, eu geralmente falo pouco mais que generalidades de praxe, para cumprir tabela, mas serei obrigado a puxar a orelha do chef do Elvis Costella nesse quesito. O cara usou alface lisa no sanduíche! Alface lisa! Como alguém, em pleno século 21, com acesso a Wikipédia, usa uma alface lisa no sanduíche. Parece muito bom se a intenção é passar a impressão de se estar mordendo um boi que está afundando num brejo, mas, cambada, vamos usar a boa e velha alface crespa, também calha bem uma americana, porque em time que se está ganhando não se mexe. Sério, é a primeira vez que eu vejo isso desde uma lanchonete na Bahia em que o x-burger custava um real.

O queijo é outra decepção. Longe de ter sabor de queijo, reduz o ingrediente a sua essência primitiva: gordura. O gosto é a pura gordura do queijo, como se você derretesse num prato no microondas, tirasse o queijo e bebesse o óleo que fica no prato. Passou do ponto, misturou com a fumaça da carne e usaram queijo sem graça para compor o Real Deal. Uma pena, a parte que eu mais gosto nos sandubas é o queijo.

Por fim, a carne. Quando vi o meu prato chegar, fiquei animado com a cara boa que ele tinha, e, uma um, os ingredientes foram se mostrando mais fotogênicos do que gostosos, como um sanduíche publicitário. A carne, porém, eu acreditava fielmente que não iria me decepcionar. Uma carne consistente e suculenta como aquela não podia ser de mentira. Bom, não é mesmo, mas nem de longe é tão boa quanto parece. O principal erro aqui é o gosto excessivo da fumaça na superfície, falha crassa de quem deixa queimar um lado pouco untado. Mais passado do que o suficiente, sem a suculência do interior, inutilizou a boa carne de Angus, cuja maior qualidade é a maciez e a capacidade de guardar mais e melhores sucos no recheio.

Uma coisa, entretanto, se salvou. As batatas fritas, gostosas, sequinhas e bem feitinhas, raras de encontrar por aí, só pecam por serem escassas como sempre. Mas é tanto desanimo e decepção que nem me animo muito a falar delas. No fim das contas, foi isso o resumo da visita ao Elvis Costella: uma grande decepção.

Ficha técnica:

The Real Deal Burger

Ingredientes: “Pão, hamburger de carne (Red Angus, 250g) de carne, queijo, tomate, pickles, cebola e maionese”.

Preço: R$24. Salgado como o mar morto.

Ponto alto: Não sei… a decoração? A fotogenia do meu lanche? Ah, e as batatas!

Ponto baixo: Falta de opções, pão seco, carne seca, alface lisa (!!!), queijo que é pura gordura e preço estratosférico.

Avaliação: E+

O Elvis Costella fica na Av .Manoel Ribas 396 “nas” Mercês, e funciona de segunda a sexta-feira das 11h30 às 14h30, de terça a sexta-feira das 18 horas às 23h30. Sábados, das 14 horas às 23h30. (41) 3618-7089.

 
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Publicado por em 08/30/2012 em Uncategorized

 

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