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Gold Skull – War Pigs

Gold Skull

E lá vamos nós, amigos. Retorno eu aqui também à temporada 2014 do Good Burger e desde já levanto solene a minha estrofe de mil dedos e faço o juramento: como hambúrguer, famélico, voraz e prazeirosamente. Essa é a minha vida e é disso que vamos continuar falando, baby.

O Gold Skull é a bola da vez. Pra quem não sabe, o estabelecimento fica no recinto onde outrora era o popular Lino’s Bar, o berçário do punk curitibano, até que fechou porque alguém tomou uma facada lá, pelo que me disseram. O que importa é que ainda há vida pulsante naquele lugar da Augusto Stelfeld esquecido por Deus, e para testar se o pulso ainda pulsa, fomos ver que tipo de carne compactada sai do Gold Skull.

O lugar é bem arrumado e de decoração modesta, não chega a ter os exageros do Barba, mas tem umas caveirinhas aqui e acolá. O cardápio aposta no velho porém eficiente clichê de nomes de música para batizar os pratos, e o que eu peguei foi nada menos que War Pigs (link sacana), uma das melhores músicas do Black Sabbath na opinião de qualquer pessoa sensata. O lanche que casou com a canção é um hambúrguer de pernil, com cheddar e bacon. Ora, tamanha concentração suína aliada ao bom e velho queijo do macho britânico dificilmente seria uma combinação desastrosa. Algum tempo depois, veio este prato aqui, bem apresentado pelos potinhos de molho, mas com muito mais salsinha do que um hambúrguer deveria ter no prato.

War Pigs

Afinal de contas, por Deus, é um hambúrguer! Não é uma panqueca, uma madalena que a sua mãe faz ou um tira-gosto genérico decorado com um vegetal ainda mais genérico, é um hambúrguer, e hambúrgueres não deveriam vir com tanta salsinha no prato porque o efeito é desviar a sua atenção gustativa da carne para prestar atenção em tudo o que não é carne. E você come um hambúrguer pra sentir o gosto da carne, não?

Bom, por ordem do que mais me incomodou para o que menos me incomodou no War Pigs do Gold Skull: definitivamente, em primeiro lugar, está a carne. Extremamente bem executada e tão descomedidamente temperada com cominho, a carne era praticamente só cominho. Impossível sentir gosto de outras coisas. E eu sei que essa é uma prerrogativa do Gold Skull, e vou respeitá-los por isso, mas se tem alguém aí buscando conselhos para sua vida nestas mal traçadas linhas, rogo-lhes: não coloquem cominho em nenhum tipo de hambúrguer. Apenas não. O cominho estragou a boa execução do cozinheiro, que deixou a carne no tempo certo no fogo e conservou vários sucos — ou quantos sucos um hambúrguer de pernil é capaz de conservar. Já na terceira mordida eu continuava comendo pela epitimia moral de finalizar um lanche para relatá-lo aqui, mas a minha vontade era pedir uma porção de batata frita e ficar por isso mesmo. Enfim, uma experiência desagradável pra mim.

Depois, vieram as batatas. Sempre é uma surpresa quando alguém decide fazer as batatas de acompanhamento de um jeito diferente da maneira belga, mas acho que aqui houve um desencontro dos conceitos — no caso, do restaurante, que é um lugar rock n roll, decorado com caveiras, e um hambúrguer por demais carimbó, pouco rock n’ roll, com batatas rústicas cozidas e cortadas em nacos muito grandes. A batata, daquele jeito, precisava de um tempero, e acabou ficando com um sabor meio sem graça. Já comi batatas rústicas em muitos lugares, mas o gosto dessa me desagradou um pouco, parecia estar meio velha. Enfim, também terminei por uma questão moral, mas não fá-lo-ia caso necessário não fosse.

Por dentro do sanduíche, o cheddar também era um problema, e não só porque era um cheddar claramente vagabundo, meio escuro e oleoso, como também porque era diferente do cheddar do hambúrguer do Murilo, mais opaco, consistente e de sabor mais acentuado. Fiquei bem chateado de não ter vindo queijo da mesma procedência dos nossos dois lanches, mas, sei lá, questões de estoque e abastecimento não deveriam ter o efeito final que tiveram nesse caso. Não que o meu cheddar fosse um desastre e o dele fosse o melhor do mundo, mas a diferença, sobretudo, incomodou.

Felizmente, nem tudo está perdido, e o Gold Skull provou excelência naquilo que vocês, fetichistas da internet, mais gostam: o bacon. Não só o lanche vinha com bacon farto, como também muito bem fritinho, na medida, nem esturricado e quebradiço, nem mal passado e borrachudo. Apenas… certo. Aliás, uma coisa é certa: eu não sei se o sujeito que prepara a carne é o mesmo que a executa, mas se for a mesma pessoa, eu diria para abandonar a primeira função e ficar só de chapeiro, porque onde falta bom-senso em uma atividade, abunda  a competência na outra.

Por fim, o pão, que por muitas vezes é o começo de nosso comentário. Bom, meu pão simplesmente sucumbiu às dentadas sempre afiadas dos meus caninos. Despedaçado e sem conseguir conter a carne, embolou-se na maçaroca de carne e molho, substratos do que deveria ser um lanche íntegro. Nada que possamos fazer a respeito, contudo.

Resumindo: há uma clara falta de diálogo entre o conceito do bar e o conceito do War Pigs, e é sempre legítimo que um chef faça tal escolha a favor da personalidade do cardápio, mas não posso dizer que seja uma escolha acertada. Hambúrguer de pernil com cominho não foi a ideia mais brilhante da história da humanidade.

Ficha técnica:

War Pigs

Ingredientes: “Hamburguer pernil com bacon – Todos os pratos vem acompanhados com batatas rústicas e molhos especiais.”

Preço: R$18,00 mais uma água Timbu 500ml, R$2,50 (porque agora eu também sou mais ou menos saudável).  ficou R$20,50.

Ponto alto: Apresentação, ambiente e bacon.

Ponto baixo: Carne com cominho, cheddar diferente, batatas meio meh, salsinha em excesso.

Avaliação: D+

O Gold Skull fica na Rua Augusto Stellfeld, 332, esquina com a Alameda Cabral, no centro. Não achei a informação dos dias que funciona e nem telefone, só achei que abre as 15h.

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Publicado por em 02/28/2014 em Uncategorized

 

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Dom Corleone – Godfather

Dessa vez o chamariz que nos levou para esse test drive foi uma grande sacada dos donos do lugar. Já é comum alguns lugares fazerem promoções “double”, ou seja, pede uma cerveja e ganha outra, um chopp e ganha outro, um caipirinha e ganha outra igual. Coisa que nunca consegui compreender é porque não existe double de refrigerante, suco, chá … que diferença faz?
Fato é que fomos a um double de hambúrguer. Sim, você pede um sanduiche e ganha outro igual! Achei a ideia de comer dois hambúrgueres pelo preço de um mais interessante do que pagar só 50% do valor.
É visualmente mais legal, é divertido encher os olhos e depois a pança até quase não aguentar mais. Agora tive uma ideia e fica a dica: se for com uma gatinha(o) ou um amigo, cada um pode escolher um prato diferente e trocar o hambúrguer repetido, logo, vocês vão poder comer dois diferentes sanduíches pelo preço de um. Isso se você forem dois glutões, se não apenas um para cada vai estar de bom tamanho e vai sair barato.
Os dois sanduíches chegam juntos à mesa, achei que um ficaria esfriando, mas curiosamente, mesmo numa noite fria, o segundo não esfriou.

Saca só na foto quanta alegria.

O Dom Corleone é uma casa vermelha por fora e sem nenhuma indicação do que funciona ali quando não está aberto, dessas casas antigas lá na rua onde o povo acha legal tomar cerveja sentado na calçada (por que vocês fazem isso?), fora que a região também é bem conhecida pelos furtos, baladas, gente drogada, outros bares e etc…enfim.
O lugar, assim como o cardápio, é decorado com posters de filmes, tônica que se estende aos nomes dos hambúrgueres. No andar de cima tem mesa de sinuca, às vezes arredam as mesas para shows ao vivo. Na televisão sempre está passando algum filme, como é de se esperar, som ambiente rockabilly e uma garçonete simpática. É o resumo da ópera.
Mas vou começar a reclamar, é muito escuro para um lugar onde você vai comer, deve ter umas três lâmpadas de 40 watts para todo o bar. Não gosto de não conseguir enxergar o que estou comendo. “E se tem um cabelo?”, diria minha mãe. Não sou fresco para isso, normalmente tiro o cabelo e continuo comendo, mas quero ter o direito de enxergar o cabelo, e tudo mais que estou comendo. Mas foi só um exemplo, não tinha nada de estranho no sanduíche. Pelo menos não que eu tenha visto … rá-rá-rá!

O lugar não é uma hamburgueria, é um bar (segundo o foursquare) que tem hambúrgueres, então não acho que dê para cobrar expertise deles, mas não é que os caras tem as manhas? Tem até opções de troca dos disquinhos de carne, coisa que não tem em todos lugares. Eles oferecem opções para os vegetarianos, vegans e chatos afins, como hambúrguer de soja e também e a bizarra opção de vegetais (quais vegetais não diz) com parmesão no lugar da carne vermelha. Já ouvi falar bem dessa pedida, entretanto.

Pedi o Godfather com hambúrguer de carne, normal. A principal coisa que se percebe é que o cheddar predomina e que junto do tomate picado acaba meio que virando um molho. Sim, o tomate é picado e não em rodelas como de costume. O Poderoso Chefão é grande, mas o recheio/complemento é um pouco espalhado(as vezes escasso), isso faz com que cada mordia seja um pouco diferente, numa você pega mais tomate, na outra, mais bacon e menos tomate, e em outra umas batatas crocantes, cada mordida um sabor.
Não sei até que ponto isso é bom, é legal se surpreender a cada mordida, mas se tivesse mais bacon, mais mussarela (tirando no Fundae, sempre pode ter um pouco mais de queijo) e até um pouquinho mais da batata palha, você não precisaria caçar os sabores, eles estariam em todos os pedaços.
O pão é daqueles que devem ser distribuídos para vários locais, daqueles que tem gergelim que vão caindo ao longo da jornada. Quando você termina tem uns cem grãos no prato, na mesa, na sua mão, na sua cara… o pão não parecia muito ser do dia, ou tinha sido feito de manhã bem cedo, mas tudo bem, estava em tempo ainda.
Batata palha é uma coisa que quando era criança eu colocava em tudo quanto é comida, e embora eu continue basicamente com o mesmo paladar infantil, não acho mais tão gostoso assim, mas o bom é que o sanduíche fica crocante, e toda comida crocante é divertida!

Agora uma coisa engraçada sobre as carnes: elas não tem bem um padrão, o primeiro hambúrguer veio passado, o segundo, no ponto. Eles tem por volta dos 190g, mas vai de acordo com a mãozada do chefia da cozinha. O primeiro hambúrguer, o primeiro dos gêmeos bivitelinos, era menor e mais seco, era o irmão magrelo e sem graça, mas como tem o molho (molho = cheddar + tomate, coisas molhadas) como complemento, acaba nos engambelando e até quase esqueço o fato da carne ter passado do ponto.
O segundo hambúrguer, o irmão gordinho engraçado, era maior e rosadinho por dentro, suculento, da até pra ver na foto que está pingando no prato, assim como manda a cartilha do bom preparo do hambúrguer para deixar o cliente feliz.

Não está muito fotogênico, mas estava gostoso! Tem até umas cebolas ali, viu, é bem temperado, do tipo caseirão com sal, alho,cebola e quase certeza, uma pitada de pimenta do reino.

Ficha técnica:
God Father
Ingredientes: “Pão, Hambúrguer de Carne, ou soja, ou Alcatra, ou Vegetais com Parmesão, Cebola, Tomate, Bacon, Batata Palha, Cheddar e Mussarela. Acompanha batata frita”. Mas no double não acompanha batata.
Preço: R$15,00 + R$ 3,00 refrigerante lata. Tá na média do preços.
Ponto alto: A grande sacada do double às terças-feiras e o segundo hambúrguer maior e suculento.
Ponto baixo: A pouca luminosidade do lugar realmente incomoda para comer, e um pouco menos de cheddar e mais dos outros ingredientes seria legal.
Avaliação: B –

O Dom Corleone fica na Rua Paula Gomes, 296, no São Francisco. Funciona de terça a sábado das 19h até sei lá que paneladas da madrugada. (41)3353-6626.

 
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Publicado por em 05/03/2012 em Uncategorized

 

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Dom Corleone – Trainspotting

Mas o que tem a ver o Poderoso Chefão com a belíssima obra de Irvine Welsh adaptada para o cinema por Danny Boyle, vocês me perguntariam, alheios ao fato de que isto não é um blog sobre cinema e à existência do simpático Bar Dom Corleone que outrora ocupou um lúgubre e escuro ponto da Constatino Marochi, no Juvevê e hoje situa-se no tão hypado São Francisco, na rua Paula Gomes, pertinho d’O Torto, estabelecido enfim como mais uma hamburgueria a disputar o cinturão do quarteirão mais palatável aos apreciadores da invenção alemã aperfeiçoada no continente americano.

Pelo que me consta, o estabelecimento que hoje é frequentado pela galera rockabilly, punk e skinhead antes era uma locadora de vídeos (sim, vídeos, meu filho, era como o papai e a mamãe assistiam filmes em casa antes de você nascer). Por isso, o lugar é decorado com alguns pôsteres muito bonitos, como o do já citado filme Trainspotting, Johnny e June e outros referentes ao universo iconoclasta e badass que o ambiente sugere. Por essa razão também o cardápio, ilustrado com frames de filmes do cineasta Pedro Almodóvar (com certeza menos badass, mas ainda assim mutcho loko e digno de todo o nosso respeito), leva em seus pratos nomes de filmes famosos. Entre eles o já duplamente citado Trainspotting, minha escolha do dia, que não era um dia qualquer. Acontece que na terça-feira acontece algo mágico no Dom Corleone: o Double de hambúrguer, algo que é ainda mais sensacional e desafiador do que meramente pagar 50% do preço dos pratos. É exatamente o que o nome sugere: você paga um e recebe outro hambúrguer instantaneamente. A parte ruim é que as batatas fritas que normalmente acompanham todos os lanches ficam de fora da promoção, insinuando um condescendente “aí você quebra a firma do parceiro!”. Mas não tem problema, sempre é possível pedir batatas fritas se o estômago se julgar forte o bastante para aguentar um lanche dobrado (o que não foi o nosso caso). Queríamos experimentar esse esboço de orgia gastronômica em plena terça-feira à noite, então lá fomos e eis o meu pedido:

Dom Corleone

O Trainspotting é um dos hambúrgueres mais básicos do cardápio. É o popular cheeseburger com cebola e molho (falaremos dele depois). Primeiramente – e eu sei que esse é um exercício de abstração que não é dos mais fáceis, mas peço o esforço da tentativa – imagine o abalo psicológico do cidadão ao receber dois pratinhos com dois colossais hambúrgueres cuja consumação está completamente sob sua responsabilidade. Eu, pelo menos, senti-me um Sísifo por antecipação, consciente da minha incapacidade de vencer o trabalho hercúleo e pírrico (para fazer mais duas citações à história antiga), mas respirei fundo, afrouxei o cinto e dei a primeira mordida.

Bom, eis que agora me deparo com uma situação no mínimo curiosa. Como vocês sabem, existiram dois hambúrgueres, mas não eram clones. Um deles estava bom, o outro estava ruim – corroborando a suspeita frenopática que atesta invariavelmente a existência de um gêmeo mau. Quer dizer, não estava ruim per se, estava ruim por comparação direta. Digamos que temos aqui um hambúrguer ideal, weberiano, e um hambúrguer do reino dos homens, com suas falhas de caráter, um hambúrguer que cede e perece ante a inexorabilidade do tempo, um hambúrguer shakespeariano, se preferir. Bom, um modelo é uma mentira que nos ajuda a ver a verdade, já dizia o famoso patologista e prêmio Nobel de medicina australiano Howard Florey, de modo que falemos do hambúrguer “bom” para entendermos o “ruim”.

Algo inerente aos dois sanduíches, porém, é o pão, topo de tudo, inclusive da nossa análise. O pão do Dom Corleone não é (ou não parece, mas não parece de jeito nenhum) um pão caseiro. É um pão comprado, e como todo pão comprado para estabelecimentos comerciais, passa por todos os percalços da gerência de alimentos que qualquer estudante do segundo ano de Turismo conhece. De modo que a estocagem e a rápida vazão são as mais importantes da lista, e o pão em questão tinha um gosto que remetia ao daquele que permanece alguns dias no limbo da dispensa antes de ser sacado pela boa mão do chef. Massudo como é, e não-caseiro como é, o pão não é um ponto alto do Trainspotting, mas mesmo assim tive uma experiência agradável de nostalgia, porque o sabor daquele pão, em combinação com o molho secreto à base de maionese remeteu-me à minha infância de hambúrgueres caseiros, quando o que se vendia no mercado era um tanto melhor do que há hoje, e minhas tias de Lorena preparavam-me pantagruélicos banquetes de hambúrguer regados a muita maionese e caprichados nos pães massudos comprados no armazém da esquina.

A principal razão dessa associação foi o molho do Trainspotting. Por mais que não se saiba ao certo os ingredientes (embora seja possível distinguir um pouco de gosto de mostarda e maionese), o importante é o estado de abundância em que o encontramos. Penso assim: o molho e a salada de um sanduíche são como o baixo e a bateria de uma banda – parte instrumental comumente chamada de cozinha. Estão lá principalmente para compor o pano de fundo musical protagonizado pela guitarra e vocal, instrumentos mais apreciados pelos ouvidos. Quando num sanduíche, como o Trainspotting, o chef resolve carregar no molho, está querendo mandar uma mensagem. Quer parar de fazer punk rock e começar a fazer funk metal. Dessa forma, o baixo, tão coadjuvante quanto um DeeDee Ramone, vem para a frente e se torna ativo como um Flea, um Les Claypool, um Stanley Clarke, um Charles Mingus, o que seja, quer jogar no ataque também. E é a isso que o molho secreto do Dom Corleone serve. Na ausência do tão onipresente alface, faz uma tabelinha na grande área com a carne e o queijo para botar nossas papilas gustativas para trabalhar. E a tática dá certo: o molho confere ao bolo em processo de mastigação, a sensação coloidal que só um legítimo coloide poderia validar. É essa a sensação que buscamos no hambúrguer, e é por isso que comemos hambúrguer e não granola. Quero uma comida budista, que quer se tornar um só com o todo. Yeah!

E o queijo? Bom, a qualidade do queijo pode ser atestada na própria foto. Enquanto um queijo está bem derretido, fresco e entrando em comunhão com o molho, o outro está frio, mal derretido, semi-transparente e pálido como um pedaço de placa dentária posta sobre a carne. No hambúrguer ideal, o queijo está excelente, harmônico e solidário com os outros ingredientes. No hambúrguer shakespeariano, o queijo é egoísta, um queijo yuppie, pós-moderno, preocupado apenas em cuidar de si mesmo mal percebendo que nem isso faz direito. Não precisamos de queijos negativistas por essas bandas.

Eis que chegamos então ao protagonista da história que, no final das contas, é o que menos serve como base de comparação. Acontece que todo mundo que se presta a montar uma hamburgueria sabe (ou suspeita ou está piamente convencido) de que sabe fritar um hambúrguer, e que o resto, ante sua destreza divina, são detalhes que se aprimoram ao longo do tempo. Por isso, a carne é quase sempre o indiscutível num hambúrguer cá comentado. A carne do Dom Corleone é excelente, maaaaaaaaaas, como eu disse, há um gêmeo mau entre nós. No hambúrguer shakespeariano, a carne não estava rosada, não segurava seus sucos vitais e logo esfriou (e olha que foi o primeiro que comi). Diante dessa última característica do raio-x de nossa espécime malévola, começo a formular uma suspeita: um dos hambúrgueres foi inteiramente montado com ingredientes do dia anterior. Como fomos as primeiras pessoas a chegar no lugar e pedir os primeiros pratos da noite, um deles acabou sendo feito com carne congelada e queijo já cortado. Eu acho. Só isso explica, porque o outro hambúrguer deixaria Weber orgulhoso de ver seu Gedankenbild materializar-se ante seus olhos. A carne ideal é macia, suculenta, mantém-se quente por mais tempo (algo muito importante agora que o inverno está chegando. Brrr, brace yourselves), segura líquidos vitais (vitais para o animal que já morreu, mortais para nós que estamos vivos) e mantém um leve tom roseado em seu interior, digno dos campeões da terrible cuisine. E o melhor: tudo isso por apenas míseros nove reais!

Ah sim, não resistimos à brincadeira de tirar uma foto de todos os nossos quatro hambúrgueres quando estes chegaram. Dê uma olhada e divirta-se como nós nos divertimos com essa missão.

Ficha técnica:

Trainspotting

Ingredientes: Pão, hambúrguer (a garçonete jura que é de 190g, mas eu acho que é uma mãozada instintiva que gira em torno dos 150, 170g), molho especial, cebola e mussarela.

Preço: R$9 + R$3 do refrigerante lata. Sério, é uma pechincha e se você discorda, você tá errado.

Ponto alto: Molho que joga no ataque, carne saborosíssima, queijo em consonância com o universo. Tudo isso no hambúrguer bom. Sem falar na promoção irresistível. Vale a visita.

Ponto baixo: Diante da presença de um gêmeo do mau, diria que o ponto baixo é um só: irregularidade. E o pão poderia ser mais gostoso.

 Avaliação: B-

O Dom Corleone fica na Rua Paula Gomes, 296, no São Francisco. Funciona de terça a sábado das 19h até sei lá que paneladas da madrugada.  (41)3353-6626.

 
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Publicado por em 04/26/2012 em Uncategorized

 

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