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X-Montanha: Homeopatia ou mitridatismo?

Créditos da foto: Gazeta do Povo

Créditos da foto: Gazeta do Povo

O X-Montanha, um dos sanduíches mais famosos de Curitiba, nunca foi julgado no Good Burger por ser hors-concours. Sua mistura suja de bolinho de carnel, risóle, bacon, queijo, presunto, alface e tomate pelo módico preço de R$7,50 é algo que nenhuma outra hamburgueria vai conseguir resolver tão bem. Para essa sexta-feira pós-carnaval, segue uma crônica escrita por esse que vos fala há alguns anos atrás.

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Quase dois anos depois, volto à Lanchonete Montesquieu, para, mais uma vez, entupir as artérias com os sucos conspurcados do X-Montanha. O sanduíche, conhecidíssimo dos estudantes da UTFPR e de quem mais se interessar pelo roteiro gastronômico thrash da capital, rendeu-me no passado uma reportagem e uma indisposição estomacal digna de um freegan. Recorro a ele para que dessa vez renda-me uma crônica. Uma experiência similar à dos daimistas: caso não consiga uma percepção maior do que me cerca, terei apenas funções fisiológicas desagradáveis.

Escatologia à parte, noto que quase nada mudou no estabelecimento. A única exceção é a ausência dos letreiros que anunciavam o nome do filósofo francês. Uma delas, um dos donos me conta, foi derrubada pelas titânicas tempestades desta primavera. A outra, simplesmente roubada. Nada que abale o bom humor do japonês. Conta tudo com uma leve risada ao fundo de suas falas. Imagino que não haja motivos para aborrecimento. A lanchonete resiste bravamente no coração da rua Silva Jardim há mais de 30 anos. Com pouquíssimas variações no cardápio, decoração inexistente, comida insalubre e lugares limitados (o balcão em forma de U dispõe de uns quinze banquinhos), Hiroyuki Ota, o seu Zé (duas letras para designar o homem comum nas palavras cruzadas) sustenta o lugar com a fama do sanduíche.

Comer um x-montanha é absorver todo o substrato da cidade grande. Assim como o já comparado Santo Daime é o suco da floresta, de cor e sabor similar ao lixo orgânico que a cada dia é engolido por raízes e subleitos na Amazônia, o sanduíche é o lixo da comida que afronta o tempo por razões irracionais, como a tradição e o prazer mundano. Não foi à toa que usei a palavra “sucos” no começo desse texto. Lembrei de Plutarco em seu ensaio moral “Περὶ σαρκοφαγίας” (Sobre Comer Carne), no qual responde à pessoa que come carne e pergunta como ele pode ter se tornado vegetariano. Reproduzindo imperfeitamente, ele silencia a conversa: “Eu, de minha parte, fico assombrado de você ser capaz de colocar na boca o corpo de um animal morto, assombrado de você não achar horrendo mascar a carne mutilada e engolir os sucos de feridas mortais”. Os que analisam o discurso de Plutarco concordam que ele ganha a discussão com “sucos”, muito chocante para quem o faz involuntariamente. Mutatis mutandis, o discurso de estende ao x-montanha. Como temos coragem de sugar os sucos deletérios de seu cerne e ainda pagar (barato, é verdade) por isso?

A resposta para essa questão, a meu ver, não poderia ser mais simples e direta: porque nós podemos. No meio do turbilhão de comida natureba e vida saudável propagada à náusea pela mídia, não há como escapar ao pensamento de que o amplo sanduíche que nos é entregue no saquinho plástico irá nos deixar três passos mais próximos da ponte de safena. Mas, como Peter Greenaway bem apontou em seu filme O Cozinheiro, O Ladrão, sua Mulher e o Amante, confrontamos a morte na gastronomia. Não só em tudo o que é preto, como o caviar, mas em tudo o que tem o potencial de nos injuriar de alguma forma. O Japão tem o Fugu, peixe que, se não limpado corretamente, pode guardar veneno em sua espinha para matar um homem; A Namíbia, o Sapo Boi Gigante, também repleto de toxinas; A Jamaica, a ackee, uma frutinha que, se consumida depois de passada, provoca a morte. Flertar com o perigo ainda é o melhor jeito que o homem contemporâneo encontrou para se sentir mais vivo. E ainda dá pra fazer isso na hora de comer!

Claro que o veneno do x-montanha de fato nem veneno é. Tudo não passa de óleos e gorduras, cuja moléstia ainda é questionada pelos nutricionistas. E o que de fato essa ciência sabe? Volta e meia aparece uma descoberta inacreditável que coloca em xeque nosso conhecimento prévio sobre a gastronomia. O homem na Lua e até agora nada de descobrir os malefícios do ovo. Há menos certezas na ciência dos alimentos do que em nossa vã filosofia.

De um jeito ou de outro, portanto, comer um sanduíche regularmente como esse pode ser saudável. Caso algum dia descubra-se que o colesterol ruim é na verdade bom (e eu não me espantaria se assim fosse), estaria medicando-me lentamente, a doses homeopáticas, com todos esses lipídios. Caso contrário, há sempre o precedente de Mitrídates VI do Ponto, retratado na ópera de Mozart e na peça de Racine, para que nos justifiquemos de boca cheia enquanto deglutimos mais um naco. Mitrídates, explicaríamos, foi o rei do Ponto, região litorânea da Grécia Antiga, onde hoje é a Turquia. Com medo de ser traiçoeiramente envenenado, ele passou a ingerir pequenas quantidades de veneno regularmente para imunizar-se contra uma dose letal. Como nós próprios, que iremos fazer resistir a mais alguns anos com a dieta do século XXI do que estes ruminantes vegetarianos da Nova Era.

Hora de parar de refletir: a conta chegou. Desprovida de qualquer vaidade e floreios típicos de restaurantes, esta escrita em um guardanapo de botequim. Cinco reais e vinte centavos. Com um olhar desconfiado, o atendente olha o bloco de notas onde escrevo o esboço desta crônica, embora não seja raro reportagens sobre o consagrado sanduíche. Deixo a lanchonete, no bairro Rebouças, para voltar a pé para casa, no Cristo Rei. Apesar de todas as desculpas, é preciso ser hipócrita e equilibrar a balança da vida saudável outra vez.

A Lanchonete Montesquieu fica na esquina da Rua Silva Jardim com a Rua Desembargador Westphalen, nº 918 (da Westphalen), e quase sempre está aberta. Tel: (41) 3233-7065.

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Publicado por em 02/15/2013 em Uncategorized

 

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Rause – Rause Bovino

rause café e vinho

Rause que se escreve como se fala, e não House de casa em inglês (ou do Dr. House), como eu achava que era quando só tinha ouvido falar do lugar.

É uma casa pequena, tem umas quatro ou cinco mesas. Nesse dia numa delas tinha um grupo de umas 4 pessoas falando em inglês, um sofázinho de dois lugares vazio, pufs quadrados com rodinhas em frente a uma mesa vermelha, baixa, em forma de gota (que foi onde ficamos), e uns 4 lugares no balcão, dois deles ocupados, um por um cara e outro por uma japonesa de uns 30 anos, nos lábios um batom vermelho vivo e um rosto branco como uma maquiagem de Kabuki, roupa preta, elegante. Atrás de mim acho que duas mulheres tomavam vinho sentadas em cadeiras mais altas.

No balcão tem um espelho, assim como na Pastelaria Brasileira, você pode comer se olhando se for um filho da puta narcisista ou olhando outras pessoas e não se sentir tão sozinho, ou também olhando dissimuladamente as(os) gatinhas(os) no ambiente. E no balcão ainda tem alguns livros, revistas, e até uns joguinhos como Dama, Xadrez ou Gamão. (Até perdi para o Yuri uma partida de Damas enquanto esperávamos o hambúrguer). Além da lateral de vidro que dá para a rua e tem uma bancada em que se pode sentar também, tem até umas almofadinhas para você se sentir em casa comendo com uma almofada no colo.

Uma coisa legal que me chamou atenção é que eles oferecem “água free”. Algo útil quando se dá uma de criança e pede uma vaca-preta (sorvete com Coca-Cola) antes da comida. Vaca-preta é outra coisa bem legal, mas não vou falar sobre isso.
“Nossa, grande coisa…água grátis”. Mas na balada uma garrafinha custa até quatro reais, e da marca mais vagabunda que tiver, e quatro reais numa água pra mim é grande coisa sim.
Sempre achei meio sacanagem cobrar, ainda mais se for caro, por água. Sem água a gente morre! Cadê o espírito cristão, cacete!?
E qualquer que tiver dado só que seja um copo de água fria a um destes pequenos, em nome de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão”. Mateus, 10:42.

Lá tem uma jarra vermelha com água e o escrito na parede: “H2O Filtrada, Refrescante, Gratuita.”
Enfim, achei legal isso da água grátis (e a gente se contenta com pouco, nessa vida, né?!).

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O cardápio fica todo escrito na parede, com giz, tipo um quadro negro da escola. A não ser que você estude no Positivo que hoje deve ser uma tela touch screen 3D de realidade aumentada e o caralho a quatro.
Me lembrou de quando na escola a professora mandava ir ao quadro fazer alguma coisa, e eu sempre burro e tímido, mas malandro, dizia que tinha alergia ao giz só pra não ir lá na frente. Incrivelmente essa desculpa colava e ela chamava outro.

Não vou falar nada dessa vertente minimalista dos nomes dos sanduíches porque o Yuri já falou bastante no post da Mãe Joana. Fui de bovino, hambúrguer bovino, ou apenas hambúrguer já que subentende-se que seja carne de boi. Essas coisas de salmão, frango, soja e outras coisas é tudo frescura de gente moderna. Hambúruger é de carne bovina e ponto final.

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Visto de cima não sei porque me lembrou um palhaço, deve ser o nariz vermelho de tomatinho cereja… ou minha imaginação fértil com muita açucar (vacapreta) na cabeça.

Logo de cara, se forem comer lá, prestem atenção numa coisa muito importante. Tem um palito de dente stealth enfiado no meio do sanduíche. Por quê?! Nem é um sanduíche tão grande assim que precise ser estruturado por um palito para firmar, como o Memphis Tudo e seu palito de churrasco.
Não vi o palito e na primeira mordida o que senti foi uma espetada no queixo, quase como uma abelha te ferroando. Mas como bom representante da categoria dos machos, tirei o palito como quem tira o ferrão (sabiam que alguns órgãos da abelha vem junto do ferrão quando ela te pica? Por isso ela morre depois.) e continuei comendo como se nada tivesse acontecido.

Pão de hambúrguer branquinho e bem macio, mas com aquela farinha de milho que normalmente vem nos pães d’água.
Você segura o hambúrguer, aí enche a mão com as bolinhas de farinha, solta o hambúrguer, passa os dedos uns nos outros para tirar um pouco da farinha, pega o guardanapo para tirar o resto e só aí conseguir pegar o copo com a mão limpa. . . acho que é por causa disso que te oferecem talheres: para pessoas mais civilizadas comerem sem se sujar, ou se sujando menos. Não tinha pensado nisso.
E pela segunda vez (a primeira foi no romântico Guiolla) em toda as nossas andanças, um pão foi para a chapa e ficou levemente tostadinho e crocante nas partes internas. Aí sim, macio por fora e com parte tostadinha crocante. Ponto para o Dr.Rause.

Como todo x-salada, acompanha queijo, maionese, tomate e alface.
O queijo pra mim é queijo prato, é amarelo, mas o Yuri disse que pode ser um outro, mas aí não seria um X-salada se fosse um queijo bom, e aqui nesse sanduba do Rause vale a minha ideia de que quase sempre pode ter um pouco mais desse querido laticínio derretido.
Sobre a salada não há o que falar. Alface fresca, umas duas rodelas finas de tomate também frescos,Ok.

Agora o ponto alto do sanduba. Alto mesmo: um baita hambúrguer de dois dedos de altura.
Foi legal ver  a carne aparentemente bem passada, escura,  mas saborosa e macia sem estar seca, surpreendendo até este que vos escreve que acha que a carne tem que estar borbulhando sucos vitais para estar boa. Nesse dia aprendi que carne bem passada nem sempre é seca e pode estar boa, se bem feita, o que infelizmente não é a regra.
Agora vou compartilhar com vocês uma coisa que pensei já que o tempero desse hambúrguer é parecido com o clássico bolinho de carne do Montesquieu (Lugar do X-montanha pra quem não liga o nome à pessoa). Tempero caseirão de alho, cebola, e uns verdinhos.
Um X-Bolinho, do Seu Zé, hoje deve custar uns cinco reais, há alguns anos atrás era tudo que eu poderia pagar, era jovem e sem grana. Hoje continuo sem grana mas consigo ir num lugar “melhor”, mais bonito, mais confortável e tal, mesmo que seja para comer algo parecido. Não que eu não coma um Montanha às vezes, mas hoje é mais por opção do que por não ter dinheiro para comer outra coisa. Enfim, não tem nada a ver com nada essa história, só queria contar porque foi uma das coisas que pensei enquanto comia, talvez alguns se identifiquem.

Contrario ao Yuri, eu gostei das batatas molengas não fritas. É novidade, e a princípio é estranho, mas são gostosas as batatas cozidas e temperadas com óleo e ervas, tipo tempero de carneiro, alecrim e sei lá mais o que que da um gostinho levemente adocicado. Elas ficam muito molinhas, quase desmanchando. Pena que vem tão pouco, uma meia dúzia de lascas apenas.
Uma dica é pegar o palito que vem oculto no meio do sanduíche e usar para comer as batatas sem engordurar os dedos. Essa foi tipo dica de etiqueta. Boa, heim!?

Resumindo, é um belo X-Salada de 16,00 de um lugar legal.

Ficha técnica:

Hambúrguer – bovino.

Ingredientes: Pão,hambúrguer, queijo, maionese, alface e tomate. Acompanha batatas.

Preço: R$16,00 + 7 reais de uma Vaca Preta (coca-cola lata e sorvete)+ 00,00 de um copo d’água = R$23,00.

Ponto alto: A carne e, sim, as batatas complementares.

Ponto baixo: Pouca batata e o preço alto para um X-salada. Ah, e o palito assassino.

Avaliação: B-

O Rause fica na Alameda Doutor Carlos de Carvalho, 696, no Centro (acho que é Centro). De segunda a sexta, das 9h às 23h e sábados das 12h às 18h.   (41) 3024-0696.

 
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Publicado por em 02/08/2013 em Uncategorized

 

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